Foi com alegria que recebi a análise do Prof. Paulo sobre meu vídeo “A Morte da Metafísica”. Você pode ler sua defesa da metafísica aqui.
É gratificante receber diálogos e debates de pessoas que analisam os temas de forma séria e abalizada, de modo que a minha resposta demorou a sair: como o Prof. Paulo demonstrou consideração ao ver meu vídeo por inteiro e produzir um interessante ensaio, também foi necessário, da minha parte, ler seu texto com minúcia e produzir uma resposta digna.
1. Da tese e estrutura argumentativa do texto analisado
O Professor Paulo sustenta, em síntese, que cometi um erro de fundamento ao nivelar a metafísica aristotélico-tomista com a mecânica quântica, ignorando a distinção de objeto formal entre as ciências estabelecida por Santo Tomás nos três graus de abstração (In Boethium de Trinitate, q. 5). A partir dessa premissa, articula cinco pontos:
(1) o cosmos aristotélico não era determinista;
(2) a dupla fenda e a indeterminação quântica não refutam a substância, antes confirmam a distinção ato/potência;
(3) os saltos quânticos discretos já tinham categoria correspondente em Aristóteles, a mutatio;
(4) a causalidade local refutada por Bell não é princípio metafísico aristotélico, mas postulado einsteiniano;
(5) a Primeira Via não exige determinismo clássico.
A conclusão apresenta um silogismo que, a partir da minha própria concessão de que a física não pode provar nem refutar a existência de Deus, infere que ela tampouco pode refutar as categorias metafísicas fundamentais.
A argumentação é estruturada com competência e articula fontes primárias com fluidez. O Professor Paulo mobiliza De Interpretatione 9, Física II, 4-6, Física VI e VIII, De Generatione et Corruptione, Heisenberg, Feser, Maritain, Wolfgang Smith e Gilson com naturalidade impressionante, virtude que, confesso, me causa certa satisfação, pois demonstra que o vídeo cumpriu seu propósito pedagógico de provocar reflexão. O parágrafo final, em que se declara aprendiz que ousa divergir de um mestre que estima, é elegante e, permito-me observar, fico agradecido.
Como irmão de estudos, tenho apenas a observação de que eu estaria “aplaudindo a física quântica por derrubar um postulado que o tomismo já havia trucidado havia décadas” é, do ponto de vista retórico, o momento mais forte do texto. Do ponto de vista lógico, contudo, é onde começam os problemas e é deles que me ocupo agora.
2. Do estado da questão
A relação entre mecânica quântica e filosofia aristotélica não é problema resolvido. É campo de debate vivo, atravessado por três posições principais na literatura especializada.
A primeira, representada por Wolfgang Smith, Edward Feser e, em medida variável, Jacques Maritain, sustenta que a metafísica aristotélico-tomista oferece o arcabouço conceitual mais adequado para interpretar a mecânica quântica. Feser (2019), em Aristotle’s Revenge, argumenta que a mecânica quântica falha em superar a filosofia natural de Aristóteles. Strumia (2021), no Journal of Modern Physics, propõe uma interpretação da física quântica em termos de potência e ato. É a posição que o Professor Paulo adota como se fosse consensual e este é, desde já, o primeiro problema: a apresentação de uma das três posições como se fosse a única leitura possível, sem reconhecimento da controvérsia legítima.
A segunda posição reconhece que Heisenberg utilizou vocabulário aristotélico, particularmente o conceito de potentia, mas sustenta que essa apropriação é analógica, não identitária. Jaeger (2017), nas Philosophical Transactions of the Royal Society A, revisita o conceito de potencialidade quântica e demonstra que a potentia quântica possui propriedades como interferência entre possibilidades, superposição linear e dependência do contexto de medição sem correspondente na noção aristotélica. Kastner, Kauffman e Epperson (2018), no International Journal of Quantum Foundations, defendem que a noção heisenbergiana deve ser levada a sério, mas reconhecem as diferenças ontológicas. Graham, em tese defendida na Universidade de Toronto, On the Ontological Status of Quasi-Heisenbergian Potentia, cunha o termo “quase-heisenbergiana” precisamente para marcar que a potentia de Heisenberg não é a potentia de Aristóteles, mas uma noção inspirada nela com propriedades ontológicas distintas.
A terceira posição sustenta que a mecânica quântica desafia categorias metafísicas clássicas de maneiras que não se reduzem a uma reformulação em linguagem aristotélica. Spencer (2016), no Journal of Analytic Theology, examina diretamente a tensão entre aleatoriedade quântica, hilemorfismo e teísmo clássico, argumentando que a aleatoriedade quântica coloca desafios genuínos, não meramente terminológicos, para a metafísica aristotélico-tomista. Masi (2023), no Journal of Consciousness Studies, discute o indeterminismo quântico e a possibilidade de auto-causação, questionando se eventos quânticos espontâneos se enquadram no princípio de causalidade clássico.
O Professor Paulo transitou pela primeira e pela segunda posições como se fossem uma só, sem reconhecer as qualificações que a própria literatura favorável à consonância exige. É deste solo problemático que passo ao exame dos pontos.
Da verificação das principais alegações (Pontos 1 e 2)
3. Da verificação das principais alegações
3.1. Sobre o determinismo aristotélico (Ponto 1)
O Professor Paulo afirma que atribuir a Aristóteles um cosmos “determinista” “não é verdadeiro sob nenhum aspecto de leitura do corpus aristotélico”. A força da afirmação é proporcional à sua imprecisão.
Dorothea Frede, uma das principais estudiosas contemporâneas de Aristóteles, publicou estudo intitulado precisamente Aristotle and the Discovery of Determinism (2021), no qual argumenta que Aristóteles não apenas reconheceu o problema do determinismo, mas o descobriu, no sentido de ter identificado a tensão entre necessidade causal e contingência. A defesa da contingência em De Interpretatione 9 é reação a um determinismo que Aristóteles via como ameaça real dentro de seu próprio sistema, não a refutação de um fantasma inexistente. Se Aristóteles precisava defender a contingência contra o determinismo lógico, é porque o determinismo era uma possibilidade que sua própria estrutura conceitual deixava entrever, ao passo que essa estrutura é a teleologia, a ordenação necessária do cosmos em direção aos fins próprios de cada substância.
No que concerne a tyche e automaton (Física II, 4–6), a afirmação de que Aristóteles as concebe como causas genuínas capazes de romper uma cadeia causal inteiramente determinista exige uma qualificação fundamental. Como observa Huismann (2023), a causalidade acidental em Aristóteles permanece estruturalmente vinculada às causas que constituem os processos nos quais o acontecimento fortuito se insere. A tyche ocorre per accidens: corresponde à convergência incidental de processos causais que possuem determinações próprias e que, embora orientados para determinados resultados, podem produzir concomitantemente um resultado que não constituía a finalidade efetivamente perseguida. Aristóteles ilustra essa estrutura com o exemplo do homem que vai à ágora para determinado propósito e encontra casualmente alguém que lhe deve dinheiro: o encontro é fortuito em relação à finalidade de sua ida à ágora, embora resulte da convergência de processos causais reais (Física II, 5, 196b33–197a5). A tyche, tem sua inteligibilidade dependente justamente da existência de processos causais nos quais o acontecimento fortuito possa ocorrer. Isso não autoriza, contudo, a identificação dessa estrutura com um determinismo absoluto. Aristóteles distingue aquilo que ocorre necessariamente, aquilo que ocorre na maioria dos casos e aquilo que ocorre acidentalmente, preservando um domínio de contingência dentro da própria ordem causal (Física II, 5, 196b10–17). A contingência aristotélica designa a possibilidade de resultados acidentais produzidos pela convergência de cadeias causais que possuem, consideradas em si mesmas, determinações e finalidades próprias.
Há, ademais, o problema que o Professor Paulo omite inteiramente: o cosmos celeste. Para Aristóteles, os corpos celestes se movem por necessidade absoluta, em movimento circular eterno e imutável, causado pelo Motor Imóvel (Metafísica XII, 1072a-1073a). O reino supralunar é, em sentido estrito, determinista: seus movimentos são necessários, eternos e não admitem desvio. A contingência que Aristóteles reconhece é confinada ao mundo sublunar e, mesmo ali, opera dentro de uma estrutura teleológica em que cada substância tende por natureza ao seu fim próprio (Física II, 1-2).
A distinção relevante, portanto, não é entre “Aristóteles determinista” e “Aristóteles indeterminista”, como se a questão fosse binária. O sistema aristotélico contém uma tensão interna entre a necessidade teleológica que ordena o cosmos, especialmente no âmbito celeste, e a contingência sublunar que Aristóteles se esforça para preservar. Ao caracterizar o cosmos aristotélico como “determinista, contínuo, ordenado”, não falseei Aristóteles; capturei o elemento predominante de sua cosmologia, que é a ordenação teleológica necessária. Que Aristóteles tenha aberto exceções para a contingência sublunar não altera o fato de que o determinismo teleológico é a nota dominante de sua física e é precisamente essa nota que a mecânica quântica veio problematizar, ao introduzir um indeterminismo que não é acidental (como a tyche), mas constitucional, enraizado na estrutura mesma da matéria.
O Professor Paulo comete, assim, um erro de extrapolação: da presença de elementos de contingência no sistema aristotélico, infere que o sistema é globalmente indeterminista, quando a literatura mostra que a relação é inversa: a contingência é o caso limite dentro de uma estrutura teleologicamente necessária.
3.2. Sobre a dupla fenda e a substância (Ponto 2)
O Professor Paulo argumenta que a indeterminação quântica não refuta a substância porque “a substância (o fóton, o elétron, considerados como o tipo de coisa que são) permanece idêntica antes, durante e depois da medição; o que está em jogo são acidentes (determinações quantitativas específicas), não a essência do ente”. O uso do vocabulário aristotélico por Heisenberg é apresentado como argumento de autoridade: “Não fui eu quem trouxe Aristóteles para dentro da mecânica quântica, foi Heisenberg.”
O fato é documentado. Heisenberg, em Physics and Philosophy (1958), compara a função de probabilidade quântica à noção aristotélica de potentia. A questão é saber o que isso prova e a resposta é: menos do que o Professor Paulo supõe.
A equivalência entre potentia quântica e potentia aristotélica é analógica, não identitária. Jaeger (2017), nas Philosophical Transactions of the Royal Society A, demonstra que a potentia quântica possui propriedades sem correspondente na noção aristotélica. A potência aristotélica é princípio de determinação regido pela forma da substância; a função de probabilidade quântica descreve uma indeterminação que não se resolve em direção a um único fim determinado pela forma, mas em direção a um resultado estatístico governado por leis probabilísticas que não são teleológicas. A potentia de Heisenberg é “quase-heisenbergiana”, como observa Graham em sua tese de Toronto, inspirada em Aristóteles, mas com propriedades ontológicas distintas.
O ponto mais delicado, contudo, é a afirmação de que a substância “permanece idêntica antes, durante e depois da medição”. Esta é uma asserção metafísica apresentada como evidente, mas que é precisamente o que está em jogo. A questão não é apenas se posição e momento são acidentes indeterminados, o que de fato poderia ser acomodado dentro do hilemorfismo, mas se o princípio de individuação aristotélico dá conta de fenômenos como:
(a) Superposição: antes da medição, um elétron em estado de superposição de spin não está simplesmente em potência para um dos estados; está, segundo a interpretação padrão, em uma combinação linear de ambos. A potência aristotélica é sempre potência para um determinado ato, regida pela forma da substância. A superposição é potência para múltiplos atos simultâneos, sem que nenhum seja privilegiado pela forma. Spencer (2016), no Journal of Analytic Theology, examina exatamente esta tensão e argumenta que ela é genuína, não meramente terminológica.
(b) Dualidade onda-partícula: o mesmo ente se comporta como onda (distribuição estendida no espaço) em um contexto e como partícula (localização pontual) em outro. No hilemorfismo, a forma é única e determina o modo de ser da substância. A dualidade onda-partícula é a manifestação de modos de ser mutuamente exclusivos regidos pelo contexto experimental, o que problematiza a noção de forma como princípio único de determinação.
(c) Não-separabilidade: em sistemas emaranhados, o estado de uma partícula não pode ser descrito independentemente da outra, por maior que seja a distância. Isto desafia o princípio de individuação, pois as propriedades do sistema não são redutíveis às propriedades das partes individuais:
O “todo” tem propriedades que suas “partes” não possuem, o que tensiona a noção aristotélica de substância como composto de matéria e forma individuantes.
A referência à epigenese do ovo de galinha (De Generatione Animalium II-III) é pertinente, mas limitada. Aristóteles observou que a gema começa como matéria não-formada, com os órgãos emergindo progressivamente. Contudo, essa emergência é teleológica, posto que cada etapa é dirigida pelo fim imposto pela forma do animal adulto. A potencialidade aristotélica é sempre teleológica: a potência do ovo é potência para a galinha, não para uma distribuição estatística de galinhas e não-galinhas. A indeterminação é constitucional e destituída de fim, distante sobremaneira da teleologia. A analogia entre a epigenese aristotélica e a superposição quântica é superficial precisamente no ponto em que deveria ser profunda: na relação entre potência e forma.
Dos Pontos 3, 4 e 5
3.3. Sobre os saltos quânticos e a mutatio (Ponto 3)
O Professor Paulo sustenta que os saltos quânticos discretos se enquadram “com exatidão totaliter” na categoria aristotélica de mutatio (mudança instantânea), distinta de kinesis (mudança gradual e contínua), e que isso “já estava previsto e contemplado na física aristotélica há mais de dois milênios”.
A distinção entre kinesis e mutatio em Física VI e De Generatione et Corruptione é correta. O problema está na alegação de encaixe “com exatidão totaliter“. A mutatio aristotélica é a passagem de não-ser a ser (geração) ou de ser a não-ser (corrupção) de uma substância ou, em certos casos, mudança qualitativa instantânea. O salto quântico entre níveis de energia num átomo não é geração nem corrupção de substância; é transição entre estados de um mesmo ente. O elétron antes e depois do salto é o mesmo elétron, pertencente ao mesmo átomo, na mesma substância. Se o Professor Paulo quer classificar isso como mutatio, está usando o termo em sentido ampliado que extravasa o corpus aristotélico.
Ademais, a mutatio aristotélica, ainda que instantânea, é teleologicamente determinada: a geração do fogo a partir da madeira ocorre porque a matéria estava em potência para a forma do fogo e a causa eficiente (o calor) atualizou essa potência. O salto quântico, ao contrário, é governado por uma lei probabilística: não há, dentro do formalismo quântico, uma causa que determine por que o salto ocorreu em tal instante e não em outro. A frequência do salto é estatisticamente determinada; a ocorrência individual não é. Se o Professor Paulo insiste que isso se encaixa “com exatidão” na mutatio, está ignorando a diferença entre uma mudança teleologicamente determinada e uma transição probabilisticamente governada. A diferença que é, precisamente, o que está em jogo.
3.4. Sobre Bell, não-localidade e causalidade (Ponto 4)
O Professor Paulo sustenta que a “causalidade local” refutada pelo teorema de Bell não é princípio metafísico aristotélico, mas postulado físico de Einstein (argumento EPR), e que as quatro causas de Aristóteles “não fazem nenhuma afirmação sobre limites de velocidade na propagação de influências físicas”. Chamar isso de “refutação da causalidade tomista” seria, segundo ele, falácia de equivocação.
O argumento tem força e reconheço sua procedência parcial. A “causalidade local” no sentido técnico do teorema de Bell é, de fato, um postulado da física do século XX vinculado à relatividade especial. As quatro causas de Aristóteles não operam com a categoria de limite de velocidade luminar.
Contudo, o Professor Paulo comete o erro oposto ao que denuncia: trata a causalidade aristotélica como se fosse inteiramente indiferente à questão da localização espacial da causa. Aristóteles, em Física VII, 243a, discute explicitamente se algo pode ser movido por algo distante e sustenta que o motor e o movido devem estar em contato: não no sentido newtoniano de contato físico, mas no sentido de que a causalidade eficiente exige uma relação de aproximação entre causa e efeito. Nihil movetur a longinquo, como formula a tradição escolástica a partir do texto aristotélico. “Não é necessário, portanto, que aquilo que é movido seja sempre movido por outra coisa que, por sua vez, esteja em movimento; haverá, portanto, um termo na série. Assim, o primeiro movido será movido ou por algo que esteja em repouso, ou moverá a si mesmo.” (Física VIII, 255a-257a). A causalidade aristotélica, portanto, não é tão alheia à questão da localização quanto o Professor Paulo sugere.
O emaranhamento quântico desafia precisamente este ponto: correlações instantâneas entre partículas separadas por distâncias arbitrárias, sem mediação de meio contínuo, sem propagação de sinal. Dizer que “as partículas emaranhadas continuam tendo uma causa comum”, a interação que as emaranhou, é correto, mas não resolve o problema. A existência de uma causa comum não explica como a correlação se manifesta instantaneamente à distância sem mediação. O Professor Paulo desloca a questão: em vez de explicar a não-localidade, observa que ela tem uma causa. Mas o problema não é se há causa; é se o modo de causação desafia a estrutura conceitual aristotélica de causa eficiente como algo que opera por contato ou mediação.
Reconheço, entretanto, que o termo “causalidade local” é potencialmente ambíguo e que o Professor Paulo tem razão ao apontar que se deve distinguir entre o sentido técnico-relativístico e o sentido metafísico. A distinção é legítima. O que nego é que ela seja suficiente para encerrar a questão. A não-localidade quântica coloca um problema genuíno para a noção aristotélica de causalidade eficiente como operante por proximação, e este problema não se dissolve pela mera observação de que as partículas tiveram uma causa comum.
3.5. Sobre as Cinco Vias e o determinismo (Ponto 5)
O Professor Paulo argumenta que a Primeira Via de Santo Tomás não exige determinismo clássico, pois o princípio “nada passa de potência a ato a não ser por algo que já esteja em ato” é compatível com atualização probabilística como o decaimento radioativo e o colapso da função de onda.
O argumento é interessante e tem mérito. Se um núcleo instável decai, algo que estava em potência (o núcleo como apto a decair) foi atualizado (decaiu), e a pergunta metafísica, “por que esta potência se atualizou e não permaneceu mera potência”, permanece de pé. A física quântica troca o tipo de lei, não a necessidade explicativa.
A dificuldade está no que a mecânica quântica diz sobre o decaimento espontâneo: segundo a interpretação padrão, o decaimento é um evento genuinamente acausal no nível individual. O núcleo decai espontaneamente, sem causa eficiente discernível e sem ser atingido por qualquer coisa. A taxa de decaimento é estatisticamente determinada, mas a ocorrência individual não tem causa. Masi (2023), no Journal of Consciousness Studies, examina precisamente esta questão e observa que o indeterminismo quântico abre a possibilidade conceitual de eventos sem causa eficiente o que, se confirmado, não “troca o tipo de lei”, mas elimina a lei.
O Professor Paulo pode responder que “sem causa discernível” não significa “sem causa”, e que a metafísica postula uma causa mesmo onde a física não a encontra. Esta é uma resposta metafísica legítima, mas é uma postulação, não uma demonstração, e a tensão continua: se a metafísica postula causalidade onde a física não a encontra, e depois declara que a física não pode refutar essa postulação porque está em outro nível de abstração, criou-se um círculo protetor insondável. A metafísica está sempre certa porque qualquer desafio empírico é declarado irrelevante por pertencer a outro nível. Este é um expediente defensivo, não argumentativo.
Reconheço que a Primeira Via não exige determinismo no sentido laplaciano. Mas a questão não é se a Primeira Via é compatível com o indeterminismo quântico; é se o indeterminismo quântico coloca uma tensão real no princípio de causalidade que a sustenta. E a resposta, sugiro, é que coloca, não no sentido de refutá-lo, mas no sentido de forçar a metafísica a reformular o que entende por “causa eficiente” em contextos em que nenhum agente discernível opera.
Dos problemas conceituais, da refutação e da conclusão
4. Dos problemas conceituais e metodológicos
O texto do Professor Paulo apresenta três problemas estruturais que comprometem sua argumentação.
Primeiro: apresentação de uma posição como consenso. A literatura sobre mecânica quântica e aristotelismo é dividida em pelo menos três correntes, como demonstrei no estado da questão. O Professor Paulo adota a posição de Feser, Wolfgang Smith e Maritain como se fosse a única leitura possível, sem reconhecer as objeções de Jaeger (2017), Spencer (2016) e Masi (2023). A apresentação de uma posição filosófica controversa como se fosse consensual constitui, do ponto de vista metodológico, um vício de argumentação.
Segundo: uso seletivo de Heisenberg. O fato de Heisenberg ter usado vocabulário aristotélico é apresentado como prova de que a mecânica quântica confirma a metafísica aristotélica. Mas a apropriação heisenbergiana é analógica e parcial. Heisenberg não afirmou que a função de probabilidade quântica é a potentia aristotélica; observou que ela evoca o conceito. A diferença entre “evocar” e “ser” é precisamente onde a argumentação do Professor Paulo deveria ser mais cuidadosa e onde é mais superficial. Graham, em sua tese de Toronto, demonstra isso com minúcia conceitual.
Terceiro: o silogismo final é inválido. A conclusão do Professor Paulo apresenta o seguinte silogismo:
Premissa maior: Se um instrumento de investigação é incapaz de alcançar uma conclusão metafísica (a causa primeira), então é, a fortiori, incapaz de alcançar as categorias metafísicas mais fundamentais das quais essa conclusão depende.
Premissa menor: A física é incapaz de alcançar a conclusão metafísica da causa primeira.
Conclusão: Logo, a física é incapaz de refutar as categorias metafísicas de substância, essência, ato, potência e causalidade.
O argumento é um a fortiori que falha porque a relação entre a conclusão última (causa primeira) e as categorias intermediárias (substância, ato, potência) não é de dependência simples. As categorias metafísicas são conceitos que têm aplicabilidade e testabilidade independente em seu próprio nível. Uma analogia: o fato de um telescópio não conseguir ver a estrela mais distante do universo não significa que ele não possa ver estrelas mais próximas e descobrir que algumas delas não são o que pensávamos. A física pode não alcançar a causa primeira e, ainda assim, desafiar a adequação das categorias aristotélicas para descrever fenômenos que ela pode alcançar, como a superposição, o emaranhamento e o decaimento espontâneo.
O a fortiori só funcionaria se as categorias metafísicas fossem exclusivamente acessíveis através do raciocínio que leva à causa primeira, como se fossem degraus de uma escada que só pode ser subida desde a base, mas não é assim que funciona. As categorias de substância, ato e potência são aplicadas a fenômenos empíricos, como o ovo de galinha que o próprio Professor Paulo cita, a vela que se acende e a madeira que se transforma em fogo. Se essas categorias são aplicadas a fenômenos empíricos, então fenômenos empíricos podem, em princípio, desafiar sua adequação. Não se pode usar as categorias para interpretar a experiência e, simultaneamente, declarar a experiência incompetente para questioná-las.
5. Da refutação acadêmica
Reconheço, como o Professor Paulo observa em sua conclusão, que em determinado momento do vídeo afirmei que a física quântica não pode provar nem refutar a existência de Deus. Esta concessão é correta e mantenho-a. O Professor Paulo a usa como premissa menor de seu silogismo: mas problema não está na premissa; está na inferência.
Da constatação de que a física não alcança a causa primeira não se segue que ela seja incapaz de problematizar categorias metafísicas intermediárias. A mecânica quântica não refuta a existência de Deus, nem nunca o pretendeu, mas apresenta fenômenos (superposição, emaranhamento, decaimento espontâneo, não-localidade) que desafiam a adequação das categorias aristotélicas de substância, potência, forma e causalidade eficiente para descrever a realidade física. Este tensão é real, não é falácia de equivocação e não se resolve pela invocação dos graus de abstração.
A distinção de objeto formal entre física e metafísica, que o Professor Paulo corretamente invoca com base em In Boethium de Trinitate, q. 5, é legítima e necessária. Mas ela não constitui um escudo que torna a metafísica imune a desafios provenientes da física. A distinção de objeto formal significa que a física estuda o ser móvel enquanto móvel e a metafísica estuda o ser enquanto ser; significa que a metafísica abstrai de toda matéria e a física não. Não significa que a física seja irrelevante para julgar se as categorias metafísicas, quando aplicadas ao mundo físico, descrevem-no adequadamente. Se a categoria de “substância” é usada para interpretar o que é um elétron, e o próprio Professor Paulo a usa ao dizer que “o elétron permanece idêntico antes, durante e depois da medição”, então o comportamento do elétron é evidência relevante para julgar se essa categoria é adequada. Não se pode invocar a distinção de objeto formal como proteção contra o dado empírico e, ao mesmo tempo, usar as categorias metafísicas para interpretar o dado empírico. Isso seria usar a distinção como escudo quando convém e como espada quando convém.
Feser (2019), em Aristotle’s Revenge, defende que a mecânica quântica chega “no máximo” a afirmações equivalentes às da filosofia natural de Aristóteles. Mas “equivalente” é termo que admite gradação: se a mecânica quântica chegasse exatamente onde Aristóteles chegou, não haveria tensão. Há tensão precisamente porque a mecânica quântica chega a um lugar que se parece com Aristóteles em alguns aspectos (indeterminação, potencialidade, descontinuidade) e se afasta em outros (superposição de múltiplos estados, não-localidade, acausalidade individual). Defendo que precisamos reconhecer que a física pode, sim, informar a metafísica, não determinando suas conclusões, mas desafiando suas categorias quando elas são aplicadas ao mundo empírico.
6. Da conclusão
A argumentação do Professor Paulo é erudita, bem estruturada e defendida com paixão contida, virtudes que reconheço e que tornam seu texto digno de resposta séria. Os pontos sobre a mutatio (Ponto 3) e sobre a distinção entre causalidade local einsteiniana e causalidade metafísica (Ponto 4) têm mérito parcial e reconheço-os.
Contudo, a tese central não se sustenta. O erro de fundamento não está no vídeo, mas na premissa de que a distinção de objeto formal entre física e metafísica torna a primeira irrelevante para julgar a adequação das categorias da segunda quando aplicadas ao mundo físico. A mecânica quântica apresenta fenômenos que desafiam categorias como substância, potência, forma e causalidade eficiente de maneiras que a literatura especializada (Jaeger, 2017; Spencer, 2016; Masi, 2023) reconhece como genuínas, não como falácias de equivocação.
O silogismo final é inválido porque a relação entre causa primeira e categorias intermediárias não é de dependência simples que sustente um a fortiori. As categorias metafísicas são aplicadas a fenômenos empíricos; fenômenos empíricos podem, portanto, desafiar sua adequação.
O Professor Paulo inicia seu texto com uma citação de Santo Tomás: “Parvus error in principio magnus est in fine”. Aceito a citação e a devolvo: o pequeno erro de princípio não está em nivelar metafísica com física, mas em supor que a distinção de objeto formal constitui um muro intransponível entre uma e outra.
7. Referências
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ARISTÓTELES. Física. Livros II, VI, VII, VIII.
ARISTÓTELES. De Generatione Animalium. Livros II-III.
ARISTÓTELES. De Generatione et Corruptione.
ARISTÓTELES. Metafísica. Livro XII (Lambda).
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FESER, E. Aristotle’s Revenge: The Metaphysical Foundations of Physical and Biological Science. Neunkirchen-Seelscheid: Editiones Scholasticae, 2019.
GRAHAM, G. On the Ontological Status of Quasi-Heisenbergian Potentia. Tese (Doutorado) — University of Toronto, Institute for the History and Philosophy of Science and Technology.
HEISENBERG, W. Physics and Philosophy: The Revolution in Modern Science. New York: Harper, 1958.
HUISMANN, T. Aristotle on Accidental Causation. Journal of the American Philosophical Association, Cambridge, v. 9, n. 1, p. 1-18, 2023.
JAEGER, G. Quantum potentiality revisited. Philosophical Transactions of the Royal Society A: Mathematical, Physical and Engineering Sciences, v. 375, n. 2106, 2017.
KASTNER, R. E.; KAUFFMAN, S.; EPPERSON, M. Taking Heisenberg’s Potentia Seriously. International Journal of Quantum Foundations, v. 4, n. 2, p. 158-172, 2018.
MASI, M. Quantum Indeterminism, Free Will, and Self-Causation. Journal of Consciousness Studies, v. 30, n. 5-6, p. 32-56, 2023.
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STRUMIA, A. A “Potency-Act” Interpretation of Quantum Physics. Journal of Modern Physics, v. 12, n. 7, p. 959-970, 2021. DOI: 10.4236/jmp.2021.127058.
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TOMÁS DE AQUINO. In libros De caelo et mundo Expositio.

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