Desabafo Melancólico

Chegando aos 42 anos, cumpre-me fazer um desabafo melancólico.

Too Old to Rock ’n’ Roll: Too Young to Die, do Jethro Tull, é uma dessas canções que sempre amei, mas que, desde tempos imemoriais da minha própria existência, me suscitava uma sensação de melancolia difícil de precisar, como se encerrasse em sua melodia uma espécie de vaticínio acerca de uma condição que eu ainda não sabia se haveria de conhecer: será que isto, um dia, poderá acontecer comigo? Pois aconteceu. E eis-me aqui, quarenta e dois anos depois, contemplando com certa perplexidade a confirmação daquele antigo pressentimento.

É coisa singular ser um roqueiro velho. E o cenário evocado pela canção adquiriu, com o passar dos anos, uma coloração ainda mais lúgubre, porquanto sucedeu ao Rock coisa muito pior do que a morte: ele não morreu. Se tivesse morrido, talvez lhe coubesse a dignidade magnífica dos cadáveres ilustres, a glória póstuma daqueles que perecem no apogeu de sua força e permanecem eternamente jovens na memória dos homens. Mas o Rock não teve semelhante privilégio. Sobreviveu; e, sobrevivendo, foi domesticado, assepsiado, regulamentado, profissionalizado e reduzido a uma caricatura bem-comportada de sua antiga ferocidade. Confesso que, diante de semelhante destino, às vezes me parece que lhe teria sido mais decoroso morrer.

Como está o Rock hodiernamente? Os concertos principiam e cessam com a pontualidade de um ofício cartorial; tudo se processa segundo horário previamente estabelecido, como se a música tivesse sido submetida ao regime disciplinar dos relógios de ponto. Os setlists são previamente conhecidos, divulgados, examinados e até antecipados pelo público; os artistas comparecem sóbrios, compostos, diligentes, executam escrupulosamente o repertório contratado e retiram-se do palco com a serenidade de quem acaba de cumprir uma obrigação profissional. Já não há o abandono, o imprevisto, o escândalo, o risco de que alguma coisa se precipite no abismo do ridículo ou do sublime. O artista cumpre o contrato como um cabeça-de-área burocrático de uma agremiação futebolística qualquer: entra, faz aquilo que lhe compete, recebe o que lhe é devido e retira-se, deixando atrás de si a sensação algo burocrática de que uma prestação de serviço foi devidamente executada. Diletos confrades, o Rock virou o Márcio Araújo.

E qual era, afinal, o grande tesão dos espetáculos de Rock? Eram precisamente os atrasos, os cancelamentos, os músicos embriagados, os artistas que se esqueciam das letras, erravam os acordes, desafinavam instrumentos e, por vezes, pareciam prestes a converter o concerto numa catástrofe. Era o perigo, a contingência, a possibilidade do desastre; era a sensação de que, naquela noite, alguma coisa poderia efetivamente acontecer e de que nem o público nem os músicos tinham completo domínio sobre o curso dos acontecimentos. Havia nisso uma espécie de espírito dionisíaco, uma embriaguez do instante, uma suspensão provisória das conveniências ordinárias da existência, em que a desordem, o excesso e o improviso constituíam precisamente a substância do espetáculo. Hoje, ao contrário, o Rock parece ter aprendido a mais antirrockiana de todas as virtudes: a previsibilidade.

E o público? Quase todos os quarentões do Rock, nos dias que correm, professam com admirável constância o novo catecismo de “Deus, Pátria e Milícia”, abandonaram as velhas camisetas puídas em favor das vestimentas sociais, recolhem-se cedo ao leito, levantam-se cedo para o treinamento em busca da forma física apolínea, submetem-se religiosamente às liturgias da academia, ingerem suplementos, peptídeos e toda sorte de substâncias destinadas a conservar o organismo dentro dos parâmetros de uma juventude administrada. Sim, ainda frequentam os concertos de Rock e por algumas horas retiram do armário alguma antiga camisa de banda, como quem desenterra uma relíquia de juventude, para então promover uma espécie Dionísio em uma apresentação à família de sua amada, uma transgressão previamente autorizada e cuidadosamente circunscrita ao intervalo entre a abertura dos portões e o último acorde. Depois, porém, regressam à existência ordinária: mulher, filhos, família, responsabilidades, compromissos, academia, boletos e toda a maquinaria respeitável da maturidade.

E, antes mesmo de comprar o ingresso, fazem aquilo que outrora seria quase uma profanação: consultam o orçamento doméstico e a agenda, ponderam as despesas, cotejam compromissos e calculam se a última turnê do Black Sabbath é compatível com sua situação financeira ou se, talvez, fosse mais prudente destinar aquela noite e aquele dinheiro a alguma palestra de coach empresarial. Eis a suprema ironia: o antigo rebelde, que outrora desprezava a prudência pequeno-burguesa, agora precisa verificar a planilha antes de decidir se pode comprar o ingresso para assistir à banda que amou na juventude. A rebeldia tornou-se uma despesa discricionária; a transgressão, um item eventual do orçamento familiar.

Até Ian Anderson, do Jethro Tull, entregou-se às inexoráveis vicissitudes da idade e converteu-se num próspero, responsável e respeitável empresário do ramo de pescados. Sim, Ian Anderson: o próprio Ian Anderson, aquela criatura que um dia parecia saída de algum bestiário medieval, empunhando uma flauta transversal como quem brandia um instrumento de feitiçaria contra a normalidade burguesa, terminou por encontrar seu lugar na respeitável ordem econômica das coisas, dedicando-se aos pescados e aos negócios. Há, confesso, uma poesia involuntariamente cruel nessa imagem. Se até Ian Anderson tornou-se empresário de pescados, que esperança resta para o Rock?

E eu fiquei como o remanescente de uma minoria talvez já extinta, um resíduo anacrônico de uma espécie que ninguém se lembrou de declarar oficialmente desaparecida. Cheguei aos quarenta ainda envergando camisa de banda, inclusive quando me apresento para realizar ofícios fúnebres na condição de sacerdote taoísta, como se jamais tivesse aprendido que cada circunstância da vida exige sua respectiva indumentária, seu decoro, sua compostura e seu pequeno uniforme social. Não tenho hora para dormir, nem para despertar, nem para comer; ignoro quanto gasto e quanto ganho; desconheço o preço do quilograma do pão ou da manteiga e, no que concerne a criptomoedas, ações, investimentos e demais artifícios da moderna alquimia financeira, poderia perfeitamente ser tomado por algum anacoreta recém-descido de uma montanha chinesa, inteiramente alheio às maquinações pecuniárias do século.

Não possuo, portanto, a menor das virtudes que a idade aparentemente deveria ter-me conferido. Não me tornei prudente, organizado, financeiramente responsável ou particularmente interessado em conservar a aparência de normalidade que se presume adequada aos homens de quarenta anos. Permaneci, de certo modo, numa espécie de adolescência metafísica, enquanto o restante da minha geração foi sendo progressivamente absorvido pela grande máquina da respeitabilidade. Eles constituíram famílias, adquiriram hábitos, organizaram finanças, disciplinaram o corpo, administraram carreiras e aprenderam, enfim, a habitar com dignidade e eficiência o mundo dos adultos. E talvez seja precisamente aí que resida a verdadeira melancolia de Too Old to Rock ’n’ Roll: Too Young to Die. Eu imaginava que a tragédia consistiria em envelhecer e descobrir que já não se é jovem o bastante para o Rock; jamais me ocorreu que o próprio Rock haveria de envelhecer antes de mim, abandonando a desordem, o excesso, a insolência, a embriaguez e o perigo para converter-se numa instituição previsível, profissional e perfeitamente compatível com a existência de homens respeitáveis.

O Rock não morreu, meus amigos. Coisa alguma lhe teria sido mais honrosa. Ele simplesmente envelheceu, engordou, fez investimentos, passou a tomar peptídeos, aprendeu a administrar o próprio patrimônio e descobriu que amanhã é dia de acordar cedo.

It’s over, amigos. Não sobra nada para o rockinha.

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