A Escolástica Quântica de Wolfgang Smith: Quando a Filosofia Entra no Laboratório pela Porta dos Fundos

1. Introdução

Wolfgang Smith, matemático e físico formado em instituições como Cornell e Purdue, tem se destacado, desde a publicação de The Quantum Enigma (1995), como um dos mais audaciosos pensadores a tentar reconciliar os achados da física contemporânea com a ontologia aristotélico-tomística. Sua palestra proferida na Gonzaga University em 1998, posteriormente publicada como capítulo de Ancient Wisdom and Modern Misconceptions, sintetiza com notável elegância retórica o núcleo de seu projeto intelectual: demonstrar que os paradoxos da mecânica quântica encontram resolução natural e imediata na metafísica de São Tomás de Aquino, na qual Smith identifica uma estrutura conceitual capaz de acomodar sem tensão os fenômenos que confundem os físicos desde 1925.

A força aparente desse argumento é considerável e merece ser reconhecida desde o início. Smith possui formação técnica em matemática e física, o que confere a seu discurso uma autoridade que filósofos sem formação em exatas dificilmente alcançam ao tratar de mecânica quântica. Ele evita o facilismo das analogias superficiais entre ciência e religião, optando por uma estratégia conceitualmente mais ambiciosa: reconstruir a estrutura ontológica da física a partir de uma distinção entre o domínio corpóreo (o mundo da experiência sensível) e o domínio físico (o mundo descrito pela física matemática), para em seguida mapear essa distinção sobre as categorias aristotélicas de potência e ato, matéria e forma, e o ato-de-ser tomístico. O resultado é um sistema que parece, à primeira vista, resolver de modo elegante o problema da medição, o paradoxo do gato de Schrödinger e a estranheza da superposição quântica, tudo isso sem recorrer a hipóteses como os muitos mundos ou o colapso objetivo.

Examinaremos sistematicamente cada componente do argumento smithiano: sua leitura da mecânica quântica e do problema da medição, sua interpretação das reflexões de Heisenberg sobre potentia, sua caracterização da bifurcação cartesiana da natureza, sua distinção entre objetos corpóreos e físicos, e seu recurso à filosofia de Eddington e à obra de Roy Frieden. Em cada caso, proceder-se-á à verificação das afirmações factuais, históricas e interpretativas, confrontando-as com fontes primárias e com a literatura acadêmica especializada.

Defenderemos que o argumento de Smith, embora intelectualmente estimulante, repousa sobre uma série de pressupostos não demonstráveis, inferências inválidas e, em alguns casos, deturpações verificáveis das posições dos autores citados. Smith apresenta como resolução ontológica o que é, em última análise, uma projeção metafísica sobre a física: uma leitura seletiva e frequentemente imprecisa dos achados quânticos, concebida para sustentar uma conclusão metafísica prévia, sem fundamento da evidência científica.

2. A Reconstrução do Argumento de Smith

2.1 A tese principal

A tese central de Smith pode ser enunciada do seguinte modo: os fenômenos quânticos, quando interpretados sem o que ele chama de “crostas cientificistas”, isto é, sem o pressuposto cartesiano da bifurcação da natureza, ajustam-se perfeitamente à ontologia tomística, de modo que os paradoxos quânticos desaparecem espontaneamente. Como Smith formula: “the quantum facts, divested of scientistic encrustations, fit perfectly into a very ancient and venerable ontology: the Thomistic, namely, which as you know, traces back to Aristotle” (Smith, 1999, p. 15). A mecânica quântica, nesta leitura, seria uma confirmação da metafísica clássica: suas anomalias são sintomas de que a física rompeu com uma ontologia inadequada, enquanto cura consiste em recuperar a ontologia que Galileu e Descartes rejeitaram.

2.2 As teses secundárias

O argumento de Smith articula-se através de várias teses subsidiárias, cada uma das quais sustenta uma porção do edifício:

a) A ciência moderna opera com uma ontologia falha. Smith sustenta que a física, desde Descartes, pressupõe a “bifurcação da natureza”, a saber: a divisão da realidade em res extensae (coisas extensas, desprovidas de qualidades sensíveis, descritíveis em termos puramente matemáticos) e res cogitantes (entidades pensantes, às quais foram relegadas as qualidades sensíveis). Esta bifurcação, que Smith identifica com Whitehead, constitui o “postulado filosófico decisivo que subjaz e determina nossa interpretação costumeira da física” (Smith, 1999, p. 20). A consequência é que o mundo exterior, na concepção cartesiana, torna-se imperceptível: a maçã vermelha que percebemos existe na mente, não no mundo externo.

b) A mecânica quântica revela a inadequação dessa ontologia. O argumento segue que, enquanto a física clássica tolerava o erro ontológico da bifurcação, a mecânica quântica não o tolera. A teoria quântica, por sua própria estrutura, distingue entre o sistema físico e seus observáveis e essa distinção reflete, segundo Smith, a distinção ontológica entre os planos físico e corpóreo. O paradoxo quântico é, portanto, a recusa da Natureza em se acomodar a uma filosofia espúria.

c) A distinção entre objeto corpóreo (X) e objeto físico (S_X). Smith propõe que todo objeto corpóreo X está associado a um objeto físico S_X do qual deriva seus atributos quantitativos. Os dois pertencem a planos ontológicos diferentes: X é o objeto percebido, S_X é o objeto conhecido apenas através dos métodos da física. A bifurcação cartesiana comete o erro de identificar X com S_X, reduzindo o corpóreo ao físico. A mecânica quântica, ao contrário, insiste na distinção.

d) A medição como transição ontológica. O ato de medição, na economia da mecânica quântica, realiza uma transição do domínio físico ao domínio corpóreo. A evolução de Schrödinger opera dentro do domínio físico (um processo “horizontal”), enquanto a projeção, o colapso do vetor de estado, refere-se a uma transição do físico ao corpóreo (um processo “vertical”). Esta diferença explica por que a medição requer duas “leis” diferentes: a evolução determinística de Schrödinger e a projeção aparentemente aleatória.

e) A forma substancial como diferencial. O que distingue o objeto corpóreo X de S_X é precisamente sua forma substancial, conceito aristotélico-tomístico que confere a X sua natureza corpórea e sua essência específica. Esta forma substancial não é uma estrutura matemática; se o fosse, X e S_X coincidiriam. S_X compreende tudo em X que é quantitativo ou redutível a estrutura matemática. As formas substanciais são, portanto, inacessíveis a uma ciência matemática.

f) Heisenberg reconheceu a natureza potencial dos quanta. Smith cita a descrição de Heisenberg das partículas quânticas como “uma estranha entidade física exatamente no meio entre possibilidade e realidade” e observa que Heisenberg as compara às potentiae aristotélicas. Smith usa essa citação para legitimar sua identificação do domínio físico com o reino da potência em relação ao domínio corpóreo.

g) O apelo a Eddington e Frieden. No capítulo sobre Eddington, Smith busca corroborar sua tese com a filosofia da ciência de Sir Arthur Eddington e com o trabalho de Roy Frieden sobre a informação de Fisher. Eddington defendeu que as leis da física podem ser deduzidas da estrutura do “aparato de medição”, e Frieden, em Physics from Fisher Information (1998), parece ter realizado essa dedução, derivando as leis da física a partir de princípios informacionais. Smith toma isso como evidência de que “o interacionismo entre o instrumento de medição e o sistema medido” é o que fundamenta as leis da física, o que sustentaria sua tese da primazia ontológica do corpóreo.

2.3 As premissas fundamentais

Sob essas teses, identificam-se as seguintes premissas estruturais:

1. Premissa ontológica: A realidade compreende dois planos ontologicamente distintos: o corpóreo (perceptível) e o físico (imperceptível, acessível apenas pela ciência). Esta distinção é apresentada como uma descoberta, mas funciona, na prática, como um pressuposto.

2. Premissa histórica: Descartes introduziu uma “bifurcação” que deslocou as qualidades sensíveis do mundo externo para a mente, e esta bifurcação tem sido o pressuposto não examinado da física moderna desde então.

3. Premissa hermenêutica: Os paradoxos quânticos surgem porque a física tenta interpretar fenômenos que pertencem a um plano ontológico intermediário (o físico) usando categorias derivadas de uma ontologia inadequada (a cartesiana).

4. Premissa tomística: A metafísica de São Tomás, com suas categorias de potência e ato, matéria e forma, e o ato-de-ser, fornece a estrutura conceitual adequada para compreender a relação entre os planos físico e corpóreo.

5. Premissa epistemológica: A ciência física, sendo estritamente positivista, não pode determinar por si mesma a ontologia dos fenômenos que descreve; a interpretação ontológica deve vir de fora da ciência.

2.4 A estrutura inferencial

A estrutura do argumento pode ser esquematizada da seguinte forma:

1. A mecânica quântica apresenta paradoxos (superposição, colapso do vetor de estado, gato de Schrödinger).
2. Esses paradoxos surgem porque a teoria é interpretada através da bifurcação cartesiana.
3. A bifurcação cartesiana é filosoficamente falha (Whitehead demonstrou isso).
4. Sem a bifurcação, distinguem-se dois planos ontológicos: corpóreo e físico.
5. O ato de medição é uma transição do físico ao corpóreo.
6. A ontologia tomística (potência/ato, forma substancial) explica essa transição.
7. Portanto, a ontologia tomística resolve os paradoxos quânticos.

Cada uma dessas inferências será examinada nas seções que se seguem. A análise demonstrará que a inferência de (1) para (2) é questionável, pois pressupõe que os paradoxos quânticos são essencialmente ontológicos e não formais; que a inferência de (3) para (4) envolve uma extrapolação indevida, pois a crítica de Whitehead não implica necessariamente a distinção entre corpóreo e físico nos termos de Smith; que a inferência de (4) para (5) atribui à medição uma propriedade ontológica que a teoria quântica não exige; e que a inferência de (5) para (6) constitui uma projeção metafísica sobre a física, confundindo níveis de descrição.

2.5 Conceitos técnicos empregados

Smith emprega uma mistura de conceitos da física quântica e da metafísica aristotélico-tomística. Do lado físico: vetor de estado, espaço de Hilbert, princípio da superposição, evolução de Schrödinger, projeção (colapso do vetor de estado), observáveis, estados próprios (eigenstates), medição. Do lado filosófico: potência e ato, matéria prima, forma substancial, ato-de-ser (esse), substância e acidentes, bifurcação da natureza. Do lado teológico: criação, causalidade divina, amor como fonte da causalidade. A articulação entre esses dois conjuntos conceituais constitui o núcleo do argumento e também, como se demonstrará, seu ponto mais vulnerável.

2.6 Os pressupostos filosóficos e teológicos

Smith opera com vários pressupostos que não são demonstrados no texto, mas assumidos como dados: que a metafísica tomística é uma “filosofia verdadeira” (Smith admite que “pode haver mais de uma”, mas declara a tomística “a mais segura e mais eficaz” para a “retificação intelectual libertadora”); que a mecânica quântica, por sua estrutura formal, aponta para uma ontologia específica que é, no mínimo, controversa na filosofia da ciência contemporânea; que a medição quântica envolve uma descontinuidade ontológica e não apenas uma descontinuidade formal ou dinâmica; que a tradição perenialista fornece um acesso privilegiado à verdade metafísica que precede e transcende a filosofia ocidental; e que o cristianismo “exige uma capacidade sacramental da matéria” que é “categoricamente inconcebível em termos cartesianos”, um pressuposto teológico que funciona como conclusão disfarçada de premissa.

3. A Leitura da Mecânica Quântica: Superposição, Medições e Paradoxos

3.1 A apresentação do problema da medição

Smith apresenta o problema da medição com clareza e precisão técnica. Descreve corretamente o formalismo de von Neumann: o estado de um sistema físico é representado por um vetor em um espaço de Hilbert complexo; o princípio da superposição permite que combinações lineares de estados sejam também estados; a evolução temporal é governada pela equação de Schrödinger, que é linear e determinística; no ato de medição, esta evolução é substituída por uma projeção que seleciona um dos estados próprios do observável medido, aparentemente sem causa determinável. A descrição é, do ponto de vista técnico, adequada para uma apresentação de divulgação acadêmica.

O problema surge quando Smith passa da descrição formal à interpretação ontológica. Ele afirma que a descontinuidade entre as duas leis quânticas, a evolução de Schrödinger e a projeção, “espelha uma descontinuidade ontológica”, e que o colapso do vetor de estado é “inexplicável em bases físicas porque resulta do ato de uma entidade corpórea” (Smith, 1999, p. 22). Esta inferência, contudo, contém uma petitio principii: assume-se que a medição envolve uma transição ontológica entre domínios distintos para em seguida usar o caráter enigmático do colapso como evidência dessa transição. A circularidade é palpável.

3.2 A decoerência e o problema da medição

A omissão mais conspícua do texto de Smith é a ausência de qualquer menção à teoria da decoerência, desenvolvida principalmente por Wojciech Zurek a partir da década de 1980 e que constitui, hoje, o quadro teórico mais influente para a compreensão da transição do quântico ao clássico. A decoerência descreve o processo pelo qual a interação de um sistema quântico com seu ambiente elimina seletivamente as coerências de superposição, produzindo uma matriz de densidade efetivamente diagonal na base dos observáveis robustos, isto é, os “estados ponteiro” (pointer states) que correspondem aos estados clássicos percebidos (Zurek, 2003, DOI: 10.1103/RevModPhys.75.715).

O ponto crucial para a avaliação do argumento de Smith é o seguinte: a decoerência fornece um mecanismo físico, derivado da própria formalidade quântica, para explicar por que não observamos superposições macroscópicas. A pergunta de Penrose, que Smith cita como evidência de que a teoria quântica “não fornece uma resposta satisfatória” para o problema dos corpos macroscópicos em superposição, possui hoje uma resposta técnica substancial: sistemas macroscópicos interagem inevitavelmente com um número colossal de graus de liberdade ambientais, e essa interação suprime as interferências quânticas em tempos extraordinariamente curtos — da ordem de   segundos para um corpo macroscópico em condições ambientes (Schlosshauer, 2004, DOI: 10.1103/RevModPhys.76.1267).

Smith escreve como se a física estivesse ainda na situação de 1989, ano de publicação de The Emperor’s New Mind de Penrose, quando a decoerência era um programa de pesquisa incipiente e suas implicações ainda não haviam sido plenamente elaboradas. Em 1998, ano da palestra de Smith, a revisão semanal de Zurek já havia sido publicada (Zurek, 2003, originalmente 1991) e o trabalho de Schlosshauer estava em preparação. A omissão não é necessariamente um erro, pois Smith pode ter considerado a decoerência insuficiente, mas a ausência de qualquer discussão é significativa, especialmente porque a decoerência mina diretamente a premissa de que a distinção entre os domínios corpóreo e físico é exigida pela própria estrutura da teoria.

É importante ser justo com a complexidade do debate.

A literatura especializada reconhece que a decoerência, por si só, não resolve integralmente o problema da medição. Schlosshauer, em sua revisão exhaustiva, afirma explicitamente: “decoherence by itself does not yet solve the measurement problem” (Schlosshauer, 2004, p. 1270). A decoerência explica por que certas bases são preferidas e por que as superposições macroscópicas são suprimidas, mas não explica por que um resultado específico é selecionado entre os vários possíveis: o chamado “problema do resultado único” (problem of outcomes). Esta limitação é real e foi extensamente debatida na literatura (Schlosshauer, 2004, pp. 1270-1275; Zurek, 2003, pp. 749-752).

Contudo, a decoerência altera radicalmente o panorama argumentativo. Smith sustenta que a existência de superposições macroscópicas (o gato de Schrödinger) constitui evidência de que a teoria quântica exige uma distinção ontológica entre os planos físico e corpóreo. A decoerência demonstra que, do ponto de vista físico, a transição do quântico ao clássico possibilita sua compreensão como um processo dinâmico contínuo, resultante da interação com o ambiente, sem necessidade de postular uma descontinuidade ontológica. O fato de esse processo não resolver todos os problemas filosóficos da medição não autoriza a conclusão de que se requer uma ontologia tomística para preencher a lacuna. A inferência de Smith comete uma falácia do tipo argumentum ad ignorantiam: a incompletude de uma explicação física não implica a necessidade de uma explicação metafísica específica, ainda mais uma tão elaborada e distante do formalismo quântico quanto a distinção entre forma substancial e matéria física.

3.3 A interpretação da distinção sistema/observável

Smith afirma que a mecânica quântica, “por sua estrutura, isto é, em sua distinção categórica entre o sistema físico e seus observáveis, afirma à sua maneira a distinção ontológica entre os planos físico e corpóreo” (Smith, 1999, p. 22). Esta afirmação interpreta uma característica formal da teoria: a separação entre o estado quântico (vetor em espaço de Hilbert) e os observáveis (operadores autoadjuntos) como evidência de uma distinção ontológica entre dois domínios de ser.

Esta leitura é contestável por várias razões. Primeiro, a distinção entre estado e observável na mecânica quântica é uma característica matemática do formalismo e não uma tese ontológica. O estado quântico codifica as probabilidades de resultados de medição para vários observáveis e os observáveis são representados por operadores porque a teoria é construída em um espaço de Hilbert. Esta estrutura é compatível com múltiplas interpretações ontológicas: desde o realismo estrutural até o instrumentalismo, desde a interpretação de muitos mundos até o QBism. Mas a teoria, em si, não privilegia nenhuma delas: uma pesquisa recente publicada na Nature em 2025 mostrou que, mesmo um século após a formulação da mecânica quântica, os físicos não chegaram a um consenso sobre sua interpretação, pois a interpretação de Copenhagen foi selecionada por apenas 36% dos entrevistados, com outros favorecendo muitos mundos, mecânica bohmiana e abordagens epistêmicas como QBism (Nature, 2025).

Segundo, a afirmação de Smith de que “o ato de medição termina evidentemente no corpóreo: no estado perceptível, a saber, de um instrumento corpóreo” (Smith, 1999, p. 22) confunde o nível fenomenológico com o nível ontológico. É verdade que, na prática experimental, o resultado de uma medição é registrado em um instrumento macroscópico perceptível. Mas isto é uma constatação sobre as condições de acessibilidade epistêmica dos resultados e não uma evidência de que existam dois domínios ontológicos distintos. A física trabalha continuamente com entidades imperceptíveis (quarks, campos quânticos, flutuações do vácuo) cujos efeitos são mediados por cadeias de instrumentos até se tornarem perceptíveis. A perceptibilidade do resultado final não implica que o processo inteiro atravesse uma fronteira ontológica entre domínios de ser.

Terceiro, a própria noção de que a evolução de Schrödinger é “horizontal” (operando dentro do domínio físico) e a projeção é “vertical” (operando uma transição entre domínios) é uma metáfora metafísica sem correspondência no formalismo. Na teoria quântica padrão, tanto a evolução unitária quanto a projeção são operações matemáticas definidas no mesmo espaço de Hilbert. A diferença entre elas é dinâmica:

  1. uma é contínua e determinística;
  2. a outra é descontínua e probabilística e não chega nem perto da discussão ontológica.

Atribuir a essa diferença dinâmica uma significação ontológica é uma inferência que excede o que a teoria estabelece.

4. A Interpretação de Heisenberg: Potentia e a Apropriação Seletiva

4.1 A citação de Heisenberg em seu contexto

Um dos pilares argumentativos de Smith é o recurso à autoridade de Werner Heisenberg, cujas reflexões filosóficas sobre a mecânica quântica, especialmente em Physics and Philosophy (1958), continham uma referência explícita ao conceito aristotélico de potentia. Smith cita Heisenberg descrevendo as partículas quânticas como “uma estranha entidade física exatamente no meio entre possibilidade e realidade” e observa que Heisenberg as compara às potentiae aristotélicas (Smith, 1999, p. 25-26). Esta citação é apresentada como endosso, por um dos fundadores da mecânica quântica, da tese de que o domínio físico constitui um reino ontológico intermediário entre a potência e o ato.

A verificação da citação revela uma situação mais complexa do que Smith sugere. A passagem de Heisenberg encontra-se no capítulo 10 de Physics and Philosophy, intitulado “The Relation of Quantum Theory to Other Parts of Natural Science”, onde Heisenberg escreve que a função de probabilidade quântica “combines in itself objective and subjective elements” e que o conceito de probabilidade “is closely related to the concept of possibility, the ‘potentia’ of the natural philosophy of the ancients such as Aristotle; it is, to a certain extent, a transformation of the old ‘potentia’ concept from a qualitative to a quantitative idea” (Heisenberg, 1962, p. 53-54). A passagem sobre entidades “midway between the idea of an event and the actual event” aparece no mesmo contexto, descrevendo a função de probabilidade como “something standing in the middle between the idea of an event and the actual event, a strange kind of physical entity just in the middle between possibility and reality” (Heisenberg, 1962, p. 41).

A literatura acadêmica especializada, contudo, é unânime em reconhecer que a apropriação de Heisenberg da noção aristotélica é qualificada e limitada. O artigo de revisão publicado nos Philosophical Transactions of the Royal Society A por Robert Kastner (2017) oferece a análise mais detalhada disponível sobre o conceito de potentia em Heisenberg. Kastner observa que Heisenberg descreveu sua referência a potentia como “uma versão quantitativa do antigo conceito de ‘potentia’ na filosofia aristotélica”, mas que “a relação de seu potentia com o de Aristóteles não foi explicada por Heisenberg em grande detalhe, além de descrevê-la como aquele aspecto do ser de um sistema que reflete sua capacidade de estar posteriormente em um certo estado físico” (Kastner, 2017, DOI: 10.1098/rsta.2016.0390).

4.2 O desacordo dos especialistas sobre a conexão Heisenberg-Aristóteles

Smith trata a referência de Heisenberg a potentia como uma validação direta de sua tese ontológica. A literatura especializada, contudo, é consideravelmente mais cautelosa. Vários autores de renome na filosofia da física expressaram reservas significativas sobre a profundidade da conexão entre o conceito de Heisenberg e o de Aristóteles: F. S. C. Northrop, em sua introdução à edição original de Physics and Philosophy, escreveu que Heisenberg ofereceu “algo análogo ao conceito aristotélico de potencialidade” e não uma identificação direta (Northrop, in Heisenberg, 1962, p. 16). Patrick Heelan, em seu estudo monográfico Quantum Mechanics and Objectivity: A Study of the Physical Philosophy of Werner Heisenberg (1965), foi ainda mais incisivo: “a configuração filosófica do pensamento de Heisenberg é tão inteiramente estrangeira à de Aristóteles que dificilmente vale a pena compará-los” (Heelan, 1965, citado em Kastner, 2017). Kristian Camilleri, em seu estudo sobre a interpretação de Heisenberg, descontou igualmente a relação com Aristóteles, vendo a potencialidade como decorrente da necessidade de mudança de modos de descrição devido a restrições linguísticas, e não como uma tese ontológica no sentido aristotélico (Camilleri, 2009, citado em Kastner, 2017). Abner Shimony observou especificamente que “não se encontra Aristóteles dizendo que uma propriedade se torna indefinida por causa de observação e que as probabilidades de todos os resultados possíveis são bem determinadas” (Shimony, citado em Kastner, 2017).

4.3 A inferência inválida de Smith

A relevância dessas reservas para o argumento de Smith é direta, pois Smith trata a citação como validação autoritativa de uma tese ontológica específica: a de que as partículas quânticas e seus agregados “ocupam uma posição, ontologicamente falando, entre a matéria prima e o domínio corpóreo” (Smith, 1999, p. 26). Esta é uma afirmação consideravelmente mais forte do que qualquer coisa que Heisenberg tenha escrito. Heisenberg descreveu as probabilidades quânticas como relacionadas à noção aristotélica de potentia em um sentido quantitativo e analógico; Smith as desloca para uma estrutura ontológica completa, com planos hierarquizados de ser, matéria-prima, forma substancial e ato-de-ser, que Heisenberg jamais endossou.

Mais importante ainda: Smith acusa Heisenberg de uma inconsistência que revela, na verdade, a própria incoerência do argumento smithiano. Smith observa que “quando se trata do domínio macroscópico, isto é, de agregados de partículas fundamentais que constituem o S_X de um objeto corpóreo X, Heisenberg identifica X e S_X sem o menor escrúpulo, como se a mera agregação de átomos pudesse efetuar uma transição da potência ao ato!” (Smith, 1999, p. 26). A acusação pressupõe que Heisenberg estaria obrigado, por sua própria lógica, a manter a distinção entre potência e ato no nível macroscópico. Mas isto é exatamente o que a literatura sobre decoerência e a interpretação de Copenhagen sugerem ser desnecessário: a transição do quântico ao clássico é um processo físico contínuo, e não uma transição metafísica entre categorias de ser. Heisenberg, ao tratar os corpos macroscópicos como entidades clássicas, seguia uma prática teórica consistente, e não um erro filosófico.

4.4 A questão da teleologia

Kastner (2017) demonstra que uma das razões pelas quais comentadores como Shimony desvalorizaram a conexão com Aristóteles foi a suposição de que a potentia aristotélica carrega um componente teleológico: a noção de que a potência tende naturalmente a sua atualização. Shimony argumentou que a mecânica quântica não exibe teleologia, pois as probabilidades quânticas não indicam uma tendência direcional para um resultado específico. Kastner, contudo, mostra que “potentia para Aristóteles não precisa sempre ser construída teleologicamente em situações físicas, por mais que o tenha sido em suas explicações biológicas” (Kastner, 2017). Esta é uma contribuição valiosa para a literatura, mas seu alcance é limitado: demonstra que a conexão Heisenberg-Aristóteles não estabelece que essa conexão justifique a ontologia tomística completa que Smith pretende derivar dela.

5. A Bifurcação Cartesiana: Precisão Histórica e Implicações Filosóficas

5.1 Whitehead e o conceito de bifurcação

A crítica de Smith à bifurcação cartesiana da natureza é um dos aspectos mais eloquentes de seu argumento, e repousa substancialmente na autoridade de Alfred North Whitehead. Smith cita as Tarner Lectures de Whitehead (1919) e a obra Nature and Life (1968) para sustentar que a bifurcação, isto é, a divisão do objeto em uma “conjectura” (a coisa externa, matematicamente descrita) e um “sonho” (a qualidade sensível, relegada à mente), constitui “o postulado filosófico decisivo que subjaz e determina nossa interpretação costumeira da física” (Smith, 1999, p. 20). A citação de Whitehead é precisa: “The result is a complete muddle in scientific thought, in philosophic cosmology, and in epistemology” (Whitehead, Nature and Life, 1968, p. 6).

5.2 A exatidão da atribuição a Descartes

A questão que se coloca é se a caracterização de Smith da posição de Descartes é historicamente precisa. Smith afirma que, para Descartes, “a maçã vermelha que percebemos existe, não no mundo externo, como a humanidade acreditara durante todo esse tempo, mas na mente, a res cogitans; em suma, é um fantasma mental que ingenuamente tomamos por uma entidade externa” (Smith, 1999, p. 20). A literatura acadêmica sobre a teoria das qualidades em Descartes é consideravelmente mais matizada. A Stanford Encyclopedia of Philosophy observa que “Descartes não formula uma distinção explícita entre qualidades primárias e secundárias, mas doutrinas familiares às quais ele está comprometido apontam para uma” (SEP, 2022). Laura Keating (1993) demonstrou que a posição de Descartes é mais complexa: para Descartes, as qualidades secundárias são sensações na mente, mas essas sensações são causadas por estados objetivos dos corpos. O poder de produzir a sensação de vermelho é uma propriedade real do corpo, mesmo que a sensação de vermelho exista apenas na mente. A “bifurcação” cartesiana, portanto, é uma teoria da representação perceptiva que, embora problemática, é mais refinada do que Smith admite.

5.3 A questão da primazia dos dados sensíveis

A crítica de Whitehead à bifurcação, que Smith endossa, possui uma base filosófica legítima: a ideia de que os dados da percepção sensível deveriam ser tratados como dados da própria natureza, e não como estados subjetivos projetados sobre uma natureza “real” situada por trás das aparências. Contudo, a inferência de Smith vai muito além da crítica de Whitehead. Whitehead propôs a superação da bifurcação através de sua própria filosofia do organismo, na qual os eventos perceptivos são fatos da própria natureza. Smith, contudo, desvia a crítica bifurcationista para a ontologia tomística, alegando que “a negação da bifurcação é a afirmação da realidade objetiva da entidade percebida: a maçã vermelha é novamente reconhecida como um objeto externo real” (Smith, 1999, p. 21). Smith comete aqui uma falácia de falsa alternativa: apresenta a escolha como se fosse entre a bifurcação cartesiana e a ontologia tomística, quando na realidade existe um espectro de posições intermediárias e alternativas.

5.4 A atribuição do erro a Galileu e Descartes

Smith atribui a introdução da bifurcação a “Galileu e Descartes”, tratando-os como protagonistas de um “mecanismo universal” que rejeitou as formas substanciais e baniu as qualidades sensíveis do mundo externo. A questão histórica é mais complexa. A rejeição das formas substanciais e das qualidades reais foi um processo gradual que envolveu múltiplos pensadores, incluindo Boyle, Locke, Newton e Hobbes. A apresentação de Smith, que concentra a responsabilidade em dois pensadores e trata a rejeição das formas substanciais como um ato deliberado de “expulsão da essência do ser corpóreo”, é uma simplificação historiográfica que serve à sua narrativa de queda e redenção, mas não corresponde à complexidade do processo histórico real.

6. A Distinção Corpóreo/Físico e a Forma Substancial

6.1 A distinção X/S_X como hipótese metafísica

O núcleo construtivo do argumento de Smith é a distinção entre o objeto corpóreo X e o objeto físico S_X. Esta distinção é apresentada como uma consequência da rejeição da bifurcação: se a entidade percebida é um objeto externo real, e se a física descreve um domínio de entidades imperceptíveis, então há dois tipos de objetos externos: os corpóreos, percebidos, e os físicos, conhecidos apenas pela ciência. A afirmação de que “X e S_X pertencem a diferentes planos ontológicos: a diferentes mundos, poder-se-ia quase dizer” (Smith, 1999, p. 21) é a pedra angular do sistema. Esta distinção, embora apresentada como uma descoberta, é de fato uma hipótese metafísica independente. O realismo direto é perfeitamente compatível com a tese de que os objetos percebidos são compostos de entidades físicas que a ciência descreve, sem necessidade de postular que a maçã e suas moléculas pertencem a “diferentes mundos”.

6.2 A atribuição da distinção à mecânica quântica

Smith sustenta que a própria mecânica quântica confirma essa distinção: “a nova física distingue entre X e S_X; ela insiste nessa distinção, o que é precisamente o que perplexa o físico” (Smith, 1999, p. 22). Esta afirmação envolve uma confusão entre a estrutura formal da teoria e uma tese ontológica. Na mecânica quântica, a distinção entre o estado quântico e os observáveis é uma característica do formalismo matemático. A teoria não diz que o estado pertence a um plano ontológico e o observável a outro. A alegação de Smith de que a estrutura formal da teoria “afirma à sua maneira” a distinção entre corpóreo e físico é uma petição de princípio: assume que a teoria exige uma ontologia específica (a tomística) para em seguida interpretar a estrutura formal como evidência dessa ontologia.

6.3 A forma substancial como diferencial ontológico

Smith propõe que o que distingue X de S_X é a “forma substancial”, conceito aristotélico-tomístico que confere a X sua natureza corpórea e essência específica. S_X compreende “tudo em X que é ‘quantitativo’ ou redutível a estrutura matemática no sentido mais amplo” (Smith, 1999, p. 26). Esta é uma tese metafísica de grande envergadura. Primeiro, a noção de forma substancial é objeto de significativa controvérsia entre os próprios tomistas (Clarke, 2015). Segundo, a irredutibilidade epistemológica não implica a distinção ontológica. Terceiro, a afirmação de que S_X compreende “tudo em X que é quantitativo” é uma tese reducionista disfarçada de antirreducionismo. A resposta de Smith parece ser: tudo o que a física consegue descrever pertence a S_X e tudo o que ela não consegue descrever pertence à forma substancial. Mas isto torna a distinção indefinível operacionalmente e, portanto, empiricamente vazia.

6.4 O problema da interação entre os domínios

Se X e S_X pertencem a planos ontológicos distintos, como interagem? Smith sugere que a medição realiza “uma transição ontológica do domínio físico ao corpóreo” (Smith, 1999, p. 22). Mas se a medição é um processo físico, como pode ela produzir uma transição entre planos ontológicos? A alegação de que essa interação produz uma “transição vertical” do físico ao corpóreo introduz uma propriedade que não tem correspondência no formalismo e que é causalmente misteriosa. A dificuldade é agravada pela afirmação de que o colapso do vetor de estado “resulta do ato de uma entidade corpórea” (Smith, 1999, p. 22). Tem-se, assim, uma causalidade da forma substancial sobre o estado quântico que é totalmente opaca: sem lei, sem mecanismo, sem modelo matemático. Isso mina a pretensão de que a ontologia tomística “resolve” os paradoxos quânticos.

6.5 A explicação dos corpos macroscópicos sem superposição

Smith sustenta que a forma substancial de um corpo macroscópico “restringe” os estados de superposição admissíveis para S_X, impedindo que gatos estejam simultaneamente mortos e vivos. Esta explicação é insatisfatória por ser ad hoc: postula uma restrição sem derivar essa restrição de qualquer princípio formal. A decoerência, em contraste, deriva a supressão de superposições macroscópicas do formalismo quântico aplicado a sistemas abertos. No critério de parcimônia, a explicação de decoerência é superior. Além disso, a ontologia de Smith não oferece critérios para determinar onde a forma substancial “entra em ação”, enquanto a decoerência fornece uma resposta contínua e quantitativa.

7. Eddington e Frieden: A Primazia do Corpóreo e a Informação de Fisher

7.1 A filosofia de Eddington e seu status contemporâneo

O capítulo de Smith sobre Sir Arthur Eddington busca apoio na noção de “subjetivismo seletivo” desenvolvida em The Philosophy of Physical Science (1939). Smith resume corretamente a tese de Eddington: o físico poderia deduzir as leis da física simplesmente a partir da estrutura do aparato de medição. Contudo, o “subjetivismo seletivo” é amplamente considerado descreditado na filosofia da ciência contemporânea. Sauer e Schemmel (2013) mostram que as alegações mais fortes de Eddington foram, desde o início, recebidas com ceticismo pela comunidade científica. Smith admite que as deduções de Eddington são fantásticas, mas argumenta em sua defesa sem demonstração técnica ou análise das deduções matemáticas.

7.2 Roy Frieden e a informação de Fisher como fundamento da física

O argumento de Smith recebe o que parece ser sua corroboração empírica mais forte na obra de B. Roy Frieden, Physics from Fisher Information (1998). Frieden afirma ter derivado as leis da física a partir de princípios de informação. Smith usa este resultado para sustentar a tese de Eddington de que “o interacionismo entre o instrumento de medição e o sistema medido” é o que fundamenta as leis da física (Smith, 1999, p. 30). Contudo, a revisão técnica de Cosma Shalizi (2000) oferece uma crítica devastadora: Frieden não maximiza realmente a informação de Fisher; a “informação ligada” J é um termo que ele tira do ar sem significado independente; e o programa de Frieden é, no máximo, matematicamente equivalente à ortodoxia, sem adicionar nada empírico.

7.3 A inferência de Smith a partir de Frieden

O problema para o argumento de Smith é que ele baseia uma inferência metafísica de grande alcance em um resultado técnico cuja validade é contestada. A alegação de que Frieden “essencialmente fez o que Eddington declarou ser factível” (Smith, 1999, p. 30) é uma sobreinterpretação. Mesmo que o programa de Frieden fosse bem-sucedido, a inferência de Smith não se seguiria: derivar as leis da física de princípios informacionais sobre o processo de medição não implica que o domínio corpóreo possui primazia ontológica sobre o domínio físico. A inferência confunde primazia epistemológica com primazia ontológica.

8. Consequências Filosóficas e Epistemológicas

8.1 A confusão entre níveis de descrição

Um problema que perpassa toda a argumentação de Smith é a confusão sistemática entre níveis de descrição. Smith transita livremente entre o nível do formalismo quântico, o nível da interpretação filosófica e o nível da metafísica tomística. Em cada transição, conceitos de um nível são tratados como se pertencessem ao outro. Atribuir à diferença dinâmica entre evolução unitária e projeção uma significação ontológica é uma inferência que excede o que a teoria estabelece. Autores como Tim Maudlin e David Wallace têm enfatizado que a mecânica quântica é compatível com múltiplas interpretações ontológicas e que a escolha entre elas depende de considerações que vão além do formalismo.

8.2 O problema da testabilidade

As teses ontológicas de Smith são, em última análise, empiricamente vazias. Nenhuma dessas teses faz previsões empiricamente testáveis diferentes das previsões da mecânica quântica padrão. Se a forma substancial restringe os estados de superposição, qual é a restrição exata?

A resolução que Smith oferece é um mito que torna os paradoxos compreensíveis dentro de uma visão de mundo específica, mas sem o poder probatório de uma teoria física.

8.3 A questão da coerência entre ciência e teologia

Smith sustenta que “o cristianismo autêntico exige uma capacidade sacramental da matéria que é categoricamente inconcebível em termos cartesianos” (Smith, 1999, p. 27). Smith comete o que pode ser chamado de “falácia da concordância forçada”: toma elementos de uma teoria física e elementos de uma tradição metafísico-teológica e força uma correspondência entre eles. A física não aponta para o tomismo, é a leitura tomística que projetada sobre a física produz a aparência de concordância. A modéstia intelectual de Heisenberg, ao reconhecer a analogia sem transformá-la em identidade, contrasta com a ambição metafísica de Smith, que transforma a analogia em um sistema ontológico completo.

9. Conclusão

O argumento de Wolfgang Smith constitui um projeto intelectual de considerável ambição e sofisticação. Contudo, quando cada componente do argumento é examinado à luz da literatura técnica pertinente, a síntese revela-se construída sobre uma série de inferências inválidas e deturpações verificáveis: a omissão da decoerência, que fornece um mecanismo físico para a supressão de superposições macroscópicas; a apropriação seletiva de Heisenberg, cuja conexão com Aristóteles é meramente analógica; a simplificação historiográfica da bifurcação cartesiana; a distinção X/S_X como hipótese circular e empiricamente vazia; a invocação da forma substancial como explicação ad hoc; a invalidade do recurso a Frieden; e a confusão sistemática entre níveis de descrição.

A conclusão que se impõe é que a leitura tomística da mecânica quântica constitui uma projeção metafísica sobre a física, e não uma interpretação imanente à física. Os fatos quânticos são compatíveis com múltiplas interpretações ontológicas e não exigem nem favorecem especificamente a metafísica de São Tomás de Aquino. A tentativa de Smith de apresentar o tomismo como a “chave” para o “enigma quântico” é, em última análise, um exercício de metáfora filosófica, eloquente e estimulante, mas sem o rigor técnico e o poder probatório que Smith reivindica para sua tese.

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