1. INTRODUÇÃO
O livro Christ the Eternal Tao, de Hieromonk Damascene (publicado originalmente em 1999 pela Saint Herman of Alaska Brotherhood), propõe uma tese ambiciosa: a de que o Daodejing de Laozi conteria, em forma velada, uma antecipação da revelação cristã, e que o 道 (dào) abordado por Laozi seria, em última instância, o mesmo Logos encarnado em Jesus Cristo. A obra baseia-se substancialmente em traduções e ensinamentos não publicados de Gi-ming Shien, professor de filosofia chinesa do Pe. Seraphim Rose (1934-1982), cujos estudos sobre o Tao Teh Ching nos anos 1960 forneceram o alicerce intelectual do projeto. O texto que analisamos aqui, correspondente aos §§30-33 sob o cabeçalho “Prayer to the Tao”, representa uma porção do livro em que a tese geral é aplicada à prática devocional: Laozi é apresentado como alguém que mantinha comunhão pessoal com o Tao, que praticava uma forma proto-cristã de vigilância espiritual, e que ensinara princípios, como a retribuição do bem pelo mal, posteriormente confirmados por Cristo.
A análise que se segue parte de um princípio metodológico simples: toda afirmação atribuída a Laozi ou ao Daodejing deve ser confrontada com o texto chinês em sua forma mais antiga atestada e com a tradição hermenêutica chinesa.
2. OS QUATRO TÍTULOS ANALISADOS E A TESE GERAL DE DAMASCENE
Os quatro títulos que constituem nossa análise são os seguintes: §30 “Personal Communion”, §31 “Words Are Only a Support”, §32 “Confessing Lapses” e §33 “‘Self-Forgetting’ in Prayer”. Todos aparecem sob o cabeçalho “Prayer to the Tao”, e todos articulam, em graus diversos, a tese central do livro: a de que a oração ao Tao, agora compreendido como Cristo encarnado, representa o cumprimento da intuição espiritual de Laozi.
No §30, Damascene afirma que “Lao Tzu, it may be said, had a relationship with this Absolute Being even before He revealed Himself to the world in Jesus Christ” e que “because of his spirit of humble yearning, Lao Tzu was given to intuit the presence of the Tao as he sat at attention”. Ele cita o Daodejing 25: “I do not know its name; ‘Way’ is the byname that we give it”. A passagem é mobilizada para sugerir que Laozi ouvira uma “voz silenciosa” do Tao, sem contudo conhecer a identidade daquele que falava. Damascene então equipara o Tao ao Logos joanino: “with the coming of the Tao in the flesh, we do know Who it is that speaks in our spirits”, citando João 1:14. A vigilância (nepsis) que Laozi supostamente praticava é apresentada como uma forma de oração, agora plenamente realizada na invocação do Tao encarnado.
O §31, “Words Are Only a Support”, desenvolve uma doutrina da oração além das palavras, citando São Teófano, o Recluso, São João Clímaco e Santo Inácio (Brianchaninov). O conteúdo é primariamente derivado da tradição filocálica e não contém afirmações substanciais sobre Laozi ou o Daodejing, servindo antes como uma ponte entre a intuição de Laozi e a prática hesicasta.
O §32, “Confessing Lapses”, trata da confissão das faltas na prática da vigilância. Novamente, o conteúdo é quase integralmente patrístico e filocálico, com citações de Santo Ambrósio de Óptina, São Gregório do Sinai, Santo Hesíquio e Santo Inácio. A menção a Laozi é indireta, mediada pela noção de metanoia.
O §33, “‘Self-Forgetting’ in Prayer”, é o título mais rico em afirmações sobre Laozi. Damascene escreve: “The virtue of self-forgetting, which Lao Tzu discerned as a quality of Divinity and which Christ manifested in Himself, can be cultivated by us through heartfelt prayer for others.” Mais adiante, afirma: “it was Lao Tzu who first taught the doctrine of returning good for evil. Christ later enunciated this in the commandment, ‘Love your enemies.’” Estas são afirmações históricas e filosóficas fortes, que exigem exame detalhado.
A tese geral de Damascene, tal como se manifesta nestes quatro títulos, pode ser reconstruída da seguinte forma:
- Laozi manteve uma relação pessoal com o Tao, compreendido como um ser transcendente;
- a prática espiritual de Laozi, descrita como “vigilância”, é formalmente análoga à nepsis da tradição filocálica;
- princípios éticos atribuídos a Laozi, como o esquecimento de si e a retribuição do bem pelo mal, prefiguram os ensinamentos de Cristo;
- a encarnação de Cristo cumpre e supera a intuição de Laozi, transformando a vigilância em oração pessoal ao Tao-Logos.
3. RECONSTRUÇÃO DOS ARGUMENTOS
3.1. §30 — Personal Communion
A afirmação central deste título é dupla. Primeiro, Damascene sustenta que Laozi tinha uma “relação” com o “Ser Absoluto” antes da revelação de Cristo. A estrutura argumentativa é a seguinte: Laozi usou o termo 道 (dao) para designar algo que ele intuiu mas não pôde nomear adequadamente; essa intuição constitui uma forma de comunhão pessoal com o Absoluto; o Tao assim intuído é o mesmo Logos que se encarnou em Cristo; portanto, a prática de Laozi prefigura a oração cristã.
3.2. §31 — Words Are Only a Support
Este título não faz afirmações diretas sobre Laozi. Seu conteúdo é a sustentação de uma doutrina da oração breve e espontânea, derivada da tradição filocálica. A premissa implícita, que conecta este título ao anterior, é de que a prática meditativa de Laozi, caracterizada pelo silêncio e pela atenção, prefigura a oração do coração da tradição ortodoxa. Damascene não cita o Daodejing neste título, mas a estrutura do argumento depende da associação estabelecida no §30 entre a prática de Laozi e a tradição hesicasta.
3.3. §32 — Confessing Lapses
Novamente, o conteúdo é quase integralmente patrístico. A premissa relevante para nossa análise é a de que a metanoia cristã, a conversão do coração, o reconhecimento das faltas, o apelo à misericórdia divina, corresponde a algo que Laozi teria intuído ou praticado. Damascene não explicita esta correspondência no §32, mas ela é o pressuposto que permite inserir ensinamentos filocálicos sob o cabeçalho “Prayer to the Tao”, como se a prática cristã fosse o desenvolvimento natural da sabedoria de Laozi.
3.4. §33 — “Self-Forgetting” in Prayer
Este título contém as afirmações mais contestáveis. A primeira é que Laozi “discerniu” o esquecimento de si “como uma qualidade da Divindade”. A segunda é que “Lao Tzu who first taught the doctrine of returning good for evil”. A terceira é que “Christ later enunciated this in the commandment, ‘Love your enemies’”. A estrutura argumentativa é: Laozi ensinou a abnegação e a retribuição do bem pelo mal; Cristo confirmou e elevou estes ensinamentos; portanto, a prática cristã da oração pelos outros e pelos inimigos cumpre a intuição de Laozi.
4. ANÁLISE TEXTUAL E FILOLÓGICA DAS FONTES CHINESAS
A passagem central mobilizada por Damascene é do capítulo 25 do Daodejing. Apresentamos o texto chinês, o pinyin e a tradução portuguesa, seguidos de análise filológica.
原文(道德经第二十五章):
有物混成,先天地生。寂兮寥兮,独立不改,周行而不殆,可以为天下母。吾不知其名,字之曰道,强为之名曰大。大曰逝,逝曰远,远曰反。
Pinyin:
Yǒu wù hùn chéng, xiān tiān dì shēng. Jì xī liáo xī, dú lì bù gǎi, zhōu xíng ér bù dài, kě yǐ wéi tiān xià mǔ. Wú bù zhī qí míng, zì zhī yuē dào, qiǎng wéi zhī míng yuē dà. Dà yuē shì, shì yuē yuǎn, yuǎn yuē fǎn.
Tradução:
“Há algo confusamente formado, que nasceu antes do céu e da terra. Silencioso! Vazio! Permanece sozinho e não muda, circunda e não cessa; pode ser considerado a mãe do mundo sob o céu. Não sei o seu nome; denomino-o ‘Dao’; forço-me a nomeá-lo ‘Grande’. Grande significa aquilo que se afasta; aquilo que se afasta significa distante; distante significa retorno.”
A análise filológica desta passagem revela vários pontos críticos para a avaliação das afirmações de Damascene. O primeiro concerne ao verbo 字 (zì), que Damascene traduz como “is the byname that we give it” (zì). A palavra 字, usada como verbo no chinês clássico, designa o ato de conferir um zi (字), ou “nome de cortesia”, um nome secundário atribuído a uma pessoa ao atingir a maioridade, distinto do ming (名), o nome pessoal próprio. No Daodejing 25, a frase 吾不知其名,字之曰道 tem sua tradução mais correta: “Não sei o seu ming (nome próprio); atribuo-lhe um zi (designação) e o chamo Dao.” A distinção entre ming e zi é social e protocolar no uso chinês antigo: o ming é o nome que identifica a essência de alguém; o zi é uma designação convencional, usada em contexto social. O que o texto diz é que o autor não conhece a verdadeira essência do ente descrito, seu ming e, portanto, usa uma designação provisória, zi, ara se referir a ele: “Dao”. A tradução de Damascene como “byname” preserva parcialmente a noção de nome secundário, mas perde a especificidade técnica do termo 字 (zì), que implica um reconhecimento da inadequação fundamental de qualquer nome.
A frase seguinte, 強為之名曰大 (qiǎng wéi zhī míng yuē dà), reforça esta leitura. O verbo 強 (qiǎng) significa “forçar”, “esforçar-se relutantemente”. O texto diz que Laozi o fez com relutância, reconhecendo a impossibilidade de capturá-lo em palavras. A sequência “Não sei seu nome; denomino-o Dao; forço-me a nomeá-lo Grande” fazuma hierarquia de inadequação crescente: o zi “Dao” é a melhor designação disponível, mas o ming “Grande” é um acréscimo forçado, quase uma concessão à necessidade de falar sobre o que resiste à linguagem.
Damascene lê esta passagem como evidência de que Laozi ouvira a “voz silenciosa” do Tao. O texto, porém, não descreve uma experiência auditiva ou de revelação pessoal. O capítulo 25 descreve uma entidade cósmica 有物混成, “algo confusamente formado”, que existe antes do céu e da terra, que é silenciosa e vazia, que circunda sem cessar. Esta entidade é apresentada como objeto de observação e reflexão, não como interlocutor. O silêncio do ente (寂兮寥兮, “silencioso! vazio!”) é uma característica ontológica, sem qualquer personalidade. Laozi não diz que o Tao falou com ele; diz que o Tao é silencioso e a inferência de Damascene, de que o silêncio do Tao é uma “voz silenciosa” dirigida a Laozi, inverte o sentido do texto: o que o Daodejing atribui ao Tao é a ausência de voz, não uma voz inaudível.
Wang Bi (226-249), em seu comentário a este capítulo, observa que Dao é a designação para aquilo que não pode ser nomeado, mas que é a origem de todas as coisas. Segundo a análise de Rudolf Wagner em A Chinese Reading of the Daodejing (SUNY Press, 2003), Wang Bi enfatiza a dimensão lógico-ontológica do conceito, afastando-se da leitura cosmológica de Heshanggong. Para Wang Bi, o Dao é o princípio não-substancial (无, wú) que fundamenta a realidade, sem qualquer característica de um deus pessoal ou alvo de relação. A leitura de Damascene, que personifica o Tao e o trata como alguém que “fala” no espírito de Laozi, está mais próxima de uma leitura religiosa heterodoxa, como a do Xiang’er (Séc. II), que deifica Laozi, do que da leitura filosófica dominante na tradição chinesa.
O capítulo 25 do Daodejing está atestado nos manuscritos de Guodian (c. 300 a.C.), na seção A, conforme indicado pela Stanford Encyclopedia of Philosophy (edição Fall 2024, entrada “Laozi”, por Alan Kam Leung Chan). A presença do capítulo 25 em Guodian atesta sua antiguidade, mas o texto guodiano apresenta variações de caracteres que não alteram substancialmente o sentido da passagem que nos interessa. Nos manuscritos de Mawangdui (c. 168 a.C.), o capítulo 25 também está presente, com variações menores. Não há, portanto, motivo filológico para supor que a passagem descreve uma experiência de revelação pessoal: em nenhuma das versões textuais atestadas o Tao fala ou é apresentado como interlocutor.
5. O CONCEITO DE 道 (dào)
A análise do conceito de 道 (dào) no Daodejing exige uma distinção que Damascene sistematicamente desconsidera: a distinção entre os múltiplos sentidos que o termo assume em diferentes contextos textuais e a tradição interpretativa que os articula. A Stanford Encyclopedia of Philosophy, em sua entrada “Laozi” (edição Fall 2024, por Alan Kam Leung Chan), observa que a etimologia do grafema 道 (dào) sugere um caminho, uma direção a ser seguida. Na literatura chinesa antiga, dào designava geralmente uma via ampla, uma estrada para carruagens e, em alguns contextos. o ato de guiar ou conduzir. O Daodejing amplia este sentido ordinário para designar o princípio fundamental do cosmos, mas esta ampliação não é uniforme: em algumas passagens, 道 (dào) é a origem não-substancial de todas as coisas (como no capítulo 25, onde é descrito como 有物混成, “algo confusamente formado”); em outras, é o padrão natural que as coisas seguem espontaneamente (como no capítulo 25 final, 人法地,地法天,天法道,道法自然, “O homem modela-se pela terra, a terra modela-se pelo céu, o céu modela-se pelo Dao, o Dao modela-se pela espontaneidade natural”); em outras ainda, dao é usado no sentido ordinário de “caminho” ou “método”.
A interpretação dominante na tradição chinesa, conforme documentada por Chan na mesma entrada da Stanford Encyclopedia, é de que Dao representa a fonte do qi (氣) primordial, não-diferenciado, o “Um”, que por sua vez produz as forças cósmicas yin e yang. Esta leitura, associada sobretudo ao comentário de Heshanggong, entende Dao como uma realidade cosmológica substancial. Wang Bi, por contraste, interpreta Dao como não-substancial (无, wú): o princípio lógico-ontológico que fundamenta a realidade sem ser ele mesmo uma entidade.
Damascene utiliza o termo “Tao” em um sentido que não corresponde a nenhuma destas leituras. No §30, ele escreve que Laozi “was given to intuit the presence of the Tao as he sat at attention” e que “He heard the Tao’s silent voice”. O Tao aqui é tratado como um interlocutor: um ser que fala, que pode ser ouvido, com quem se pode manter “communion”. Esta personificação do Tao não encontra respaldo nem na leitura cosmológica de Heshanggong, nem na leitura lógico-ontológica de Wang Bi, nem nos textos dos Reinos Combatentes. O capítulo 25 do Daodejing, que Damascene cita, descreve o Dao como silencioso (寂兮寥兮), exatamente o oposto de um ser que fala. O silêncio é um atributo ontológico do Dao e, na hermenêutica chinesa, algo impossível de comunicação. A inferência de Damascene transforma a ausência de voz em uma “voz silenciosa”, invertendo o sentido literal do texto.
A personificação do Tao tem, contudo, um precedente na história chinesa: o movimento dos Mestres Celestiais (天師道), fundado por Zhang Daoling no século II d.C., que deificou Laozi e tratou o dào como uma divindade pessoal. O comentário Xiang’er (想爾), associado a este movimento e geralmente datado de aproximadamente 200 d.C., é a fonte principal desta leitura religiosa. Chan, na Stanford Encyclopedia, observa que “compared with the Xiang’er, Wang Bi’s Laozi commentary could not be more different. There is no reference to ‘immortals’; no deified Laozi.” A leitura de Damascene, que personifica o Tao e o trata como alguém que “speaks in our spirits”, aproxima-se mais da leitura do Xiang’er: uma interpretação minoritária, religiosa e relativamente tardia, distante das leituras filosóficas que dominaram a tradição chinesa. Damascene não identifica esta fonte, nem discute o fato de que a personificação do Tao pertence a um movimento religioso específico, distinto da tradição filosófica do Daodejing.
6. 德 (dé) E OUTROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS
O conceito de 德 (dé) é central para a avaliação das afirmações de Damascene no §33, especialmente no que concerne à passagem do Daodejing 63 que contém a frase 報怨以德 (bào yuàn yǐ dé). Apresentamos o texto chinês do capítulo 63 em sua forma recebida:
原文(道德经第六十三章):
为无为,事无事,味无味。大小多少,报怨以德。图难于其易,为大于其细;天下难事,必作于易;天下大事,必作于细。是以圣人终不为大,故能成其大。夫轻诺必寡信,多易必多难。是以圣人犹难之,故终无难矣。
Pinyin:
Wéi wúwéi, shì wúshì, wèi wúwèi. Dà xiǎo duō shǎo, bào yuàn yǐ dé. Tú nán yú qí yì, wéi dà yú qí xì; tiān xià nán shì, bì zuò yú yì; tiān xià dà shì, bì zuò yú xì. Shì yǐ shèng rén zhōng bù wéi dà, gù néng chéng qí dà. Fū qīng nuò bì guǎ xìn, duō yì bì duō nán. Shì yǐ shèng rén yóu nán zhī, gù zhōng wú nán yǐ.
Tradução:
“Aja sem agir, faça sem fazer, saboreie sem saborear. No grande, no pequeno, no muito, no pouco: retribua o ressentimento com dé. Enfrente o difícil enquanto é fácil; realize o grande enquanto é pequeno. As coisas difíceis do mundo certamente surgem do fácil; as grandes coisas do mundo certamente surgem do pequeno. Por isso o sábio nunca tenta ser grande, e por isso pode realizar sua grandeza. Promessas levianas geram pouca confiança; muita facilidade gera muita dificuldade. Por isso o sábio ainda as trata como difíceis, e por isso nunca encontra dificuldade.”
A frase 報怨以德 (bào yuàn yǐ dé) é a passagem que Damascene mobiliza no §33 para sustentar que “it was Lao Tzu who first taught the doctrine of returning good for evil.” A análise filológica desta frase revela problemas significativos nesta leitura. O termo 報 (bào) significa “retribuir”, “pagar de volta”, “responder”. 怨 (yuàn) designa “ressentimento”, “queixa”, “inimizade”, “ódio”. 以 (yǐ) é uma preposição que indica o instrumento ou meio: “com”, “por meio de”. 德 (dé) é o termo mais complexo. A palavra 德 (dé) tem uma história semântica extensa no chinês antigo. Na tradição confuciana, dé é frequentemente traduzido como “virtude” no sentido moral, a qualidade interna do junzi (君子, o homem nobre). No Daodejing, porém, dé assume um sentido distinto. A Stanford Encyclopedia observa que, na leitura cosmológica de Heshanggong, dé representa a emanação do qi do Dao, uma espécie de poder ou energia que as coisas recebem do Dao. Na leitura de Wang Bi, dé é aquilo que é “genuíno” ou “autêntico” (真, zhēn) nos seres humanos, a realização natural da própria natureza, não uma virtude moral no sentido ocidental.
A tradução de 報怨以德 como “retribuir o mal com bem” depende de uma tradução de dé como “virtude moral” ou “bondade”. Esta tradução, embora comum em versões populares, é filologicamente problemática. D.C. Lau, em sua tradução do Daodejing (Penguin Classics, 1963, revisada em 1989), traduz a frase como “requite hatred with virtue”. Arthur Waley, em The Way and Its Power (Grove Press, 1958), oferece uma tradução semelhante. Roger Ames e David Hall, porém, em sua tradução Daodejing: “Making This Life Significant” (Ballantine Books, 2003), adotam uma abordagem diferente, traduzindo dé não como “virtude” moral, mas como “eficácia” ou “potência”, o poder característico que algo manifesta quando está em conformidade com o Dao.
O capítulo 63 inicia com a tríade 為無為,事無事,味無味 — “aja sem agir, faça sem fazer, saboreie sem saborear”, que articula o princípio do wuwei (無為, ação sem esforço). A frase 大小多少,報怨以德 vem imediatamente após esta tríade e deve ser lida em conexão com ela. O contexto é o do wuwei: lidar com o grande e o pequeno, o muito e o pouco, retribuindo o ressentimento não com uma virtude moral ativa, mas com a espontaneidade natural do dé, a eficácia que emerge quando se age em conformidade com o Dao. A retribuição não é um ato moral deliberado de bondade, mas uma resposta que brota da conformidade com o padrão natural das coisas.
A controvérsia em torno desta passagem é bem documentada. O comentário confuciano preserva um diálogo no Lunyu (Analectos) 14.34 que aparentemente responde diretamente à doutrina do Daodejing:
原文(论语·宪问第十四·三十四章):
或曰:「以德报怨,何如?」子曰:「何以报德?以直报怨,以德报德。」
Pinyin:
Huò yuē: “Yǐ dé bào yuàn, hé rú?” Zǐ yuē: “Hé yǐ bào dé? Yǐ zhí bào yuàn, yǐ dé bào dé.”
Tradução:
“Alguém perguntou: ‘Que pensais de retribuir o ressentimento com dé?’ O Mestre respondeu: ‘Com que, então, retribuiríeis o dé? Retribuí o ressentimento com retidão (zhí); retribuí o dé com dé.’”
Esta passagem dos Analectos é significativa por várias razões. Primeiro, Confúcio (ou a tradição que o representa) rejeita explicitamente a doutrina de retribuir o ressentimento com dé, que é exatamente a doutrina do Daodejing 63. Segundo, Confúcio propõe em seu lugar 以直報怨 “retribuir o ressentimento com retidão” (zhí). A resposta de Confúcio implica que retribuir o ressentimento com dé é um excesso de generosidade que distorce as relações recíprocas. A crítica confuciana revela que a passagem do Daodejing foi interpretada, já na antiguidade, como uma doutrina ética de retribuição generosa, e que esta interpretação era controversa.
A terceira razão pela qual os Analectos 14.34 são relevantes para a refutação de Damascene é cronológica. A datação do Daodejing e dos Analectos é objeto de debate intenso na sinologia. Os manuscritos de Guodian (c. 300 a.C.) atestam que passagens correspondentes a vários capítulos do Daodejing já circulavam no século IV a.C. A entrada “Laozi” da Stanford Encyclopedia confirma que o capítulo 63 está presente no Grupo A dos textos de Guodian. A passagem de Analectos 14.34, que cita e critica a fórmula 以德報怨, atesta que esta doutrina circulava e era debatida no período dos Reinos Combatentes. A afirmação de Damascene de que “it was Lao Tzu who first taught the doctrine of returning good for evil” não pode ser verificada: a fórmula 報怨以德 pode ter circulado como um provérbio anterior ao Daodejing, incorporado pelo texto.
A afirmação de Damascene de que Laozi foi o “primeiro” a ensinar a retribuição do bem pelo mal é, portanto, historicamente insustentável por duas razões: primeiro, porque a fórmula 報怨以德 pode ser anterior ao Daodejing; segundo, porque a interpretação desta fórmula como “retribuir o mal com bem” depende de uma tradução de dé como “bondade” que é filologicamente controversa. O dé do Daodejing não é a agape cristã: é a eficácia natural que brota da conformidade com o Dao, não uma virtude moral deliberada de amar o inimigo.
7. LAOZI E A TRADIÇÃO FILOSÓFICA CHINESA
A figura histórica de Laozi é objeto de debate permanente na sinologia. A tradição chinesa, refletida no Shiji (史記) de Sima Qian (c. 145-86 a.C.), identifica Laozi como um arquivista da corte Zhou, contemporâneo de Confúcio. A Stanford Encyclopedia observa que “according to some modern scholars, however, Laozi is entirely legendary; there was never an historical Laozi.” A própria natureza do Daodejing, uma antologia de ditos compilados ao longo do tempo, como observado pela Indiana University ScholarWorks, sugere que o texto é o produto de uma tradição intelectual de diversos autores.
Damascene trata Laozi como uma figura histórica individual, alguém que “sat at attention” e que “heard the Tao’s silent voice.” Esta apresentação não discute a controvérsia sobre a historicidade de Laozi nem a natureza composta do Daodejing. A Internet Encyclopedia of Philosophy, em sua entrada “Laozi”, observa que “Laozi is the name of a legendary Daoist philosopher, the alternate title of the early Chinese text better known in the West as the Daodejing, and the moniker of a deity in the pantheon of organized Daoism.” A tripla designação, autor legendário, título textual e divindade religiosa indica a complexidade do problema. Damascene opera com uma concepção pré-crítica de autoria, tratando o Daodejing como a expressão direta da experiência pessoal de um indivíduo nomeável.
A distinção entre Laozi, o Daodejing, Zhuangzi (莊子) e o taoismo religioso posterior é igualmente relevante. O Zhuangzi, geralmente datado do século IV-III a.C., é o outro texto formativo da tradição taoista, mas difere do Daodejing em estilo, ênfase e, em alguns pontos, em conteúdo filosófico. A tradição Huang-Lao, atestada nos manuscritos de Mawangdui, representa uma síntese de taoismo e legalismo que dominou a corte Han inicial. O taoismo religioso (daojiao), que emerge como movimento organizado a partir do século II d.C. com os Mestres Celestiais, desenvolve instituições, liturgias e doutrinas que não têm paralelo no Daodejing. Damascene não distingue entre estas camadas, projetando sobre “Laozi” (tratado como autor individual) concepções que pertencem a tradições posteriores.
A prática da “vigilância” que Damascene atribui a Laozi no §30, “the watchfulness that Lao Tzu practiced”, não encontra correspondência no Daodejing. O termo nepsis (vigilância), central na tradição filocálica, designa a atenção sóbria aos pensamentos e a guarda do coração contra as paixões. O capítulo 16 do Daodejing diz: 致虚极,守静笃 (Zhì xū jí, shǒu jìng dǔ) “Alcança o extremo do vazio; mantém a quietude firme.” A passagem descreve um estado de quietude e vazio interior, muito diferente vigilância ativa sobre os pensamentos invasores dos santos padres orientais. A diferença é conceitual: a nepsis filocálica é uma luta ativa contra os logismoi (pensamentos invasores), uma guerra espiritual contra as paixões e demônios; a quietude do Daodejing é um estado de não-intervenção, de deixar ser e de conformidade com o padrão natural. A identificação que Damascene faz entre estas duas práticas é uma equivalência fenomenológica superficial que ignora uma diferença fundamental de orientação: a nepsis é combativa e pessoal; a quietude do Daodejing é não-combativa e impessoal.
8. DAO E LOGOS
A comparação entre 道 (dào) e λόγος (logos) é o núcleo argumentativo do projeto de Damascene. No §30, ele articula esta equivalência ao citar João 1:14 — “We beheld His glory, the glory as of the only begotten of the Father”, imediatamente após a citação do Daodejing 25, sugerindo que o Tao intuído por Laozi é o mesmo Logos encarnado em Cristo.
No lado grego, o termo logos tem uma história complexa. Em Heráclito (c. 535-475 a.C.), logos designa o princípio racional que governa o cosmos. No estoicismo, logos é a razão cósmica, o princípio ordenador que permeia a matéria. Em Fílon de Alexandria (c. 20 a.C.-50 d.C.), logos é o intermediário entre Deus e o mundo, o instrumento da criação. No prólogo do Evangelho de João (João 1:1-18), logos é a Palavra divina, preexistente, mediadora da criação, que se encarna em Jesus Cristo.
As diferenças entre Dao e Logos podem ser sistematizadas da seguinte forma. Primeiro, o Logos joanino é pessoal: é um ser que “se fez carne” (Jo 1:14), que tem vontade, que fala, que revela. O Dao do Daodejing é impessoal: é descrito como algo (有物, “há algo”), não como alguém; não fala, não revela e não se encarna. Segundo, o Logos é criador: “Todas as coisas foram feitas por ele” (Jo 1:3). O Dao, no Daodejing, é assaz diferente de um deus criador: o capítulo 42 descreve um processo cosmológico espontâneo e impessoal. Terceiro, o Logos joanino é encarnável: a encarnação é o evento central do cristianismo. O Dao, na tradição chinesa, não se encarna.
A força do paralelo entre Dao e Logos é, portanto, predominantemente analógica. Há semelhanças formais: ambos são princípios cósmicos fundamentais, ambos são associados à origem das coisas e ambos são em certo sentido inefáveis. Mas estas semelhanças formais não estabelecem identidade histórica nem equivalência ontológica. A transformação desta analogia em identidade, “the Tao made flesh”, é uma operação teológica, não filológica ou histórica. Damascene realiza esta operação sem demonstrar as etapas que a justificariam: ele não mostra que o Dao, no Daodejing, é pessoal, criador ou encarnável; ele pressupõe estas características e as projeta sobre o texto.
A influência de Gi-ming Shien e Seraphim Rose nesta equivalência deve ser considerada. O site OrthodoxWiki, em sua entrada sobre Christ the Eternal Tao, confirma que o livro “draws from the unpublished translations and teachings of Fr. Seraphim’s Chinese philosophy teacher, Gi-ming Shien.” As traduções e ensinamentos de Shien não foram publicados em forma acadêmica revisada e sua formação específica e método interpretativo não são documentados em fontes acadêmicas verificáveis. A ausência de publicação acadêmica das fontes primárias de Damascene impossibilita a verificação independente das escolhas tradutórias e interpretativas que fundamentam a equivalência Dao-Logos.
9. COMENTÁRIOS TRADICIONAIS E HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO
A história da interpretação do Daodejing na China é longa e multifacetada. A Stanford Encyclopedia of Philosophy documenta que existem aproximadamente setecentos comentários ao Daodejing ao longo da história chinesa, conforme contagem de Wing-tsit Chan (1963). Entre estes, quatro comentários exerceram influência dominante: o de Heshanggong (河上公), o de Yan Zun (嚴遵), o de Wang Bi (王弼) e o Xiang’er (想爾).
Heshanggong oferece a leitura cosmológica mais influente do Daodejing na tradição chinesa anterior à dinastia Song. Seu comentário entende o Dao como a fonte do qi primordial. O Xiang’er, associado ao movimento dos Mestres Celestiais e geralmente datado de aproximadamente 200 d.C., deifica Laozi e trata o Dao como uma entidade divina pessoal. Wang Bi (226-249), cujo comentário constitui a base do texto recebido do Daodejing utilizado pela maioria dos tradutores modernos, oferece uma leitura diametralmente oposta à do Xiang’er: não há referência a “imortais”; não há Laozi deificado.
A leitura de Damascene não corresponde a nenhuma destas tradições interpretativas de forma consistente. Sua personificação do Tao aproxima-se do Xiang’er, mas sem identificar esta fonte. Ao mesmo tempo, sua ênfase na inefabilidade do Tao aproxima-o da leitura de Wang Bi, mas sem incorporar a dimensão lógico-ontológica. O resultado é uma leitura híbrida, que combina elementos de tradições distintas sem reconhecer suas incompatibilidades.
A descoberta dos manuscritos de Guodian (1993) e Mawangdui (1973) transformou os estudos sobre o Daodejing. Os textos de Guodian, datados de aproximadamente 300 a.C., contêm material correspondente a 19 capítulos do texto recebido, incluindo o capítulo 25 e o capítulo 63. Os manuscritos de Mawangdui, datados de aproximadamente 168 a.C., contêm todos os 81 capítulos, mas em ordem parcialmente diferente: ambos os manuscritos começam com o Dejing (capítulos 38-81) e não com o Daojing (capítulos 1-37). A relevância destes achados é dupla: primeiro, a presença dos capítulos 25 e 63 em Guodian atesta a antiguidade destas passagens, mas também revela que o texto não era estável; segundo, a ordem invertida em Mawangdui sugere que a ênfase do texto primitivo podia ser diferente daquela do texto recebido.
10. ANÁLISE CRÍTICA DETALHADA DO PRIMEIRO TÍTULO: §30 — PERSONAL COMMUNION
A primeira afirmação a examinar é: “Lao Tzu, it may be said, had a relationship with this Absolute Being even before He revealed Himself to the world in Jesus Christ.” O termo “relação” implica reciprocidade: dois polos que se reconhecem mutuamente. O Daodejing descreve o Dao como algo que o sábio observa, segue e imita, mas não como um interlocutor. Segundo, a expressão “Absolute Being” é uma categoria da teologia ocidental, não do Daodejing. Wang Bi interpreta o Dao como wu (無, não-ser): aquilo que não é uma entidade. Transformar o Dao em um “Absolute Being” é realizar uma operação metafísica que inverte a leitura de Wang Bi.
A segunda afirmação é: “because of his spirit of humble yearning, Lao Tzu was given to intuit the presence of the Tao as he sat at attention.” O Daodejing não descreve Laozi sentado em atitude de atenção contemplativa, pois o capítulo 16 diz 致虛極,守靜篤, isto é, um estado a ser cultivado, também muito longe da experiência pessoal do ascetismo cristão. O verbo “was given to intuit” implica uma concessão divina, o que pressupõe um concedente divino e um receptor humano, uma estrutura teológica sem correspondência no Daodejing.
A terceira afirmação é: “He heard the Tao’s silent voice, but he did not know Who it was that spoke.” Esta é a afirmação mais problemática do §30, porque inverte diretamente o sentido do texto citado. O capítulo 25 descreve o Dao como silencioso (寂兮寥兮). Damascene transforma este silêncio em uma “voz silenciosa”, uma voz que fala sem som. A passagem não diz que o Tao falou; diz que o Tao é silencioso
A quarta afirmação é a equiparação entre o Tao intuído por Laozi e o Logos joanino. Esta equiparação transforma uma analogia formal em identidade ontológica. Damascene não demonstra esta identidade: ele a pressupõe, apoiando-se na autoridade de Gi-ming Shien e Seraphim Rose, cujos trabalhos não foram publicados em forma acadêmica revisada.
Uma defesa possível apelaria para a noção de “semente do Verbo” da teologia patrística. Esta defesa é teologicamente legítima dentro do cristianismo, mas não resolve o problema filológico: a noção de “semente do Verbo” é uma categoria teológica que interpreta tradições não-cristãs a partir da revelação cristã, não uma categoria filológica que analisa os textos em seu próprio contexto.
11. ANÁLISE CRÍTICA DETALHADA DO SEGUNDO TÍTULO: §31 — WORDS ARE ONLY A SUPPORT
O §31 não faz afirmações diretas sobre Laozi. Seu conteúdo é quase integralmente derivado da tradição filocálica. O problema central é a pressuposição de que a doutrina filocálica da oração além das palavras corresponde a algo que Laozi praticou ou ensinou.
É possível reconhecer que o Daodejing contém uma dimensão de valorização do silêncio e da insuficiência da linguagem. O capítulo 1 diz 道可道,非常道;名可名,非常名 “O Dao que pode ser dito não é o Dao constante; o nome que pode ser nomeado não é o nome constante.”. O capítulo 56 diz 知者不言,言者不知 “Aquele que conhece não se pronuncia; aquele que se pronuncia não conhece.”. O capítulo 5 diz 多言數窮,不如守中 “Muitas palavras conduzem repetidamente ao esgotamento; melhor é guardar o Centro.” Estas passagens expressam uma desconfiança em relação à linguagem que tem paralelo formal com a tradição apofática do cristianismo oriental.
O paralelo, porém, é formal e não estrutural. A apofática cristã nega a capacidade da linguagem de capturar a essência divina porque Deus é infinitamente superior à criação. A valorização do silêncio no Daodejing tem uma base diferente: não é o silêncio de quem reconhece a transcendência de um Deus pessoal, mas o silêncio de quem reconhece a inefabilidade de um princípio impessoal.
12. ANÁLISE CRÍTICA DETALHADA DO TERCEIRO TÍTULO: §32 — CONFESSING LAPSES
O §32 tem conteúdo quase integralmente patrístico. A premissa relevante é a de que a metanoia cristã corresponde a algo que Laozi teria intuído. A metanoia cristã pressupõe uma antropologia da queda, uma teologia da graça e uma relação pessoal entre o pecador e Deus. Nenhuma destas pressuposições tem correspondência no Daodejing.
O Daodejing não contém uma doutrina do pecado, da queda, ou da redenção. O capítulo 18 diz 大道廢,有仁義 “Quando o Grande Dao é abandonado, surgem a benevolência e a retidão.” uma crítica à moralidade artificial. O capítulo 48 diz 為學日益,為道日損 “Quem se dedica ao aprendizado acumula cada dia mais; quem se dedica ao Dao elimina cada dia mais”, uma descrição do caminho do Dao como redução progressiva do artifício. A estrutura é diferente da metanoia: não é o pecador que se converte apelando a um Deus pessoal, mas o sábio que se despoja do excesso para conformar-se ao padrão natural.
13. ANÁLISE CRÍTICA DETALHADA DO QUARTO TÍTULO: §33 — “SELF-FORGETTING” IN PRAYER
13.1. O “esquecimento de si” como qualidade da Divindade
Damascene escreve: “The virtue of self-forgetting, which Lao Tzu discerned as a quality of Divinity and which Christ manifested in Himself, can be cultivated by us through heartfelt prayer for others.” A passagem mais plausível é o capítulo 7 do Daodejing:
原文(道德经第七章):
天长地久。天地所以能长且久者,以其不自生,故能长生。是以圣人后其身而身先;外其身而身存。非以其无私邪?故能成其私。
Pinyin:
Tiān cháng dì jiǔ. Tiān dì suǒ yǐ néng cháng qiě jiǔ zhě, yǐ qí bù zì shēng, gù néng cháng shēng. Shì yǐ shèng rén hòu qí shēn ér shēn xiān; wài qí shēn ér shēn cún. Fēi yǐ qí wú sī xié? Gù néng chéng qí sī.
Tradução:
“O céu é duradouro e a terra é perene. A razão pela qual o céu e a terra podem ser duradouros e perenes é que não geram a si mesmos; por isso podem perdurar. Por isso o sábio coloca seu corpo atrás e seu corpo vai à frente; mantém seu corpo fora e seu corpo se preserva. Não é porque não tem si (interesse próprio)? Por isso pode realizar seu si.”
O termo central é 私 (sī), que designa aquilo que é próprio, privado, particular, pois o capítulo 7 descreve a ausência de auto-geração (不自生) como a característica do céu e da terra enquanto entidades cósmicas e sem quaisquer características divinas ou pessoais. A expressão “self-forgetting” não corresponde a nenhum termo específico do Daodejing. O conceito mais próximo, 無私 (wú sī), significa “ausência de interesse privado”, não “esquecimento de si” no sentido devocional cristão.
13.2. Laozi como “primeiro” a ensinar a retribuição do bem pelo mal
A afirmação é falsa por duas razões independentes: primeiro, porque a prioridade temporal de Laozi não pode ser demonstrada e é contradita pela evidência dos Analectos 14.34; segundo, porque a própria interpretação da fórmula como “retribuir o mal com bem” é filologicamente problemática, dado que dé não significa “bem” no Daodejing.
13.3. A equivalência entre 報怨以德 e “Love your enemies”
O mandamento cristão de amar os inimigos (Mateus 5:44) usa o verbo ἀγαπάω (agapaō), que designa o amor cristão deliberado, volitivo, modelado no amor de Deus. A fórmula 報怨以德 “Retribuir o ressentimento com de” do Daodejing 63 tem uma estrutura diferente: o sábio retribui o ressentimento com a eficácia natural do dé. O paralelo é analógico de sétimo grau, impossível de demonstrar qualquer relação filosófica mínima.
13.4. O capítulo 49 do Daodejing e a universalidade da benevolência
O capítulo 49 descreve uma benevolência universal:
原文(道德经第四十九章):
圣人无常心,以百姓心为心。善者,吾善之;不善者,吾亦善之;德善。信者,吾信之;不信者,吾亦信之;德信。
Pinyin:
Shèng rén wú cháng xīn, yǐ bǎi xìng xīn wéi xīn. Shàn zhě, wú shàn zhī; bù shàn zhě, wú yì shàn zhī; dé shàn. Xìn zhě, wú xìn zhī; bù xìn zhě, wú yì xìn zhī; dé xìn.
Tradução:
“O sábio não tem mente constante; toma a mente do povo como sua mente. Os bons, eu os trato bem; os não-bons, eu também os trato bem; isto é dé em sua bondade. Os confiáveis, eu confio neles; os não-confiáveis, eu também confio neles; isto é dé em sua confiança.”
Esta passagem tem maior força analógica com o mandamento cristão, mas não está entre os títulos fornecidos no material analisado. Sua menção aqui é apenas como material externo ao corpus.
14. SÍNTESE DOS PROBLEMAS HISTÓRICOS, FILOLÓGICOS E CONCEITUAIS
Problemas filológicos: (1) A tradução de 字 (zì) como “byname” perde a especificidade técnica da distinção entre ming e zi. (2) A tradução plural “we give it” para o que no original é um ato singular (吾). (3) A tradução de 報怨以德 ““Retribuir o ressentimento com de“ como “returning good for evil” depende de uma tradução de dé controversa. (4) O termo “self-forgetting” não corresponde a nenhum termo do Daodejing.
Problemas conceituais:
- A personificação do Tao não encontra respaldo no Daodejing nem na tradição interpretativa dominante.
- A identificação entre a quietude do Daodejing e a nepsis filocálica é uma equivalência fenomenológica superficial.
- A transformação da analogia formal entre Dao e Logos em identidade ontológica é uma operação teológica não demonstrada.
- A atribuição a Laozi de uma doutrina do “esquecimento de si como qualidade da Divindade” projeta uma categoria teológica cristã.
- A equivalência entre 報怨以德 e o mandamento de amar os inimigos é um paralelo analógico de sétimo grau.
Problemas históricos:
- A afirmação de que Laozi foi o “primeiro” a ensinar a retribuição do bem pelo mal é historicamente insustentável.
- O tratamento de Laozi como autor individual ignora a controvérsia sobre a historicidade e a natureza composta do Daodejing.
- A ausência de discussão sobre as fontes manuscritas impede a avaliação crítica.
- A influência de Gi-ming Shien e Seraphim Rose, cujos trabalhos não foram publicados academicamente, impossibilita a verificação independente.
15. CONCLUSÃO
A análise dos mencionados quatro pontos de Christ the Eternal Tao revela um projeto intelectual que, embora teologicamente coerente dentro do horizonte da apologética ortodoxa, apresenta problemas filológicos, conceituais e históricos substanciais quando avaliado à luz das fontes chinesas primárias e da literatura sinológica especializada.
Damascene opera com uma metodologia que poderíamos descrever como analogia transformada em identidade. Ele identifica semelhanças formais entre o Daodejing e a tradição cristã: a inefabilidade do Dao e a apofática cristã, a quietude interior e a nepsis filocálica, a retribuição do ressentimento com dé e o mandamento de amar os inimigos e, sem demonstrar as etapas intermediárias que justificariam a transição da analogia à identidade, declara que estas semelhanças revelam uma mesma verdade subjacente.
O problema central desta metodologia é que ela trata a analogia como evidência de identidade, quando a analogia é, por definição, a constatação de semelhança entre coisas distintas. O Dao do Daodejing é impessoal, silencioso, não-interventor; o Logos joanino é pessoal, falante, encarnado. A quietude do Daodejing é conformidade com o padrão cósmico; a nepsis filocálica é combate espiritual dirigido a um interlocutor divino. A retribuição do ressentimento com dé é expressão da eficácia natural; o amor aos inimigos é imitação do amor de Deus.
O reconhecimento dos pontos em que Damascene acerta é igualmente importante. O Daodejing contém uma valorização do silêncio e da insuficiência da linguagem com paralelo formal com a tradição apofática cristã. O capítulo 49 descreve uma benevolência universal com paralelo formal ao amor cristão. O capítulo 7 descreve a ausência de auto-geração com paralelo formal à abnegação cristã. Estes paralelos formais são reais e merecem estudo. O erro de Damascene está tratá-los como evidência de identidade ontológica e histórica, saltando da analogia à equivalência sem a demonstração intermediária que a metodologia comparada responsável exige.
A precisão documental tem prioridade absoluta sobre a fluência literária e sobre a coerência teológica interna. Quando o Daodejing diz que o Dao é silencioso, não se pode dizer que o Tao falou. Quando o Daodejing diz 報怨以德, não se pode dizer que Laozi ensinou a retribuição do mal com bem sem qualificar dé adequadamente. Quando a tradição chinesa interpreta o Dao como princípio impessoal, não se pode apresentar o Tao como interlocutor divino sem identificar a fonte minoritária que sustenta esta leitura.
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