
“Sobre os limites” (Über die Grenzen) é o título de uma obra que reúne cinco conversas realizadas com Friedrich Dürrenmatt pouco antes de sua morte. O título não foi escolhido por mero gosto editorial, como se tratasse apenas de uma fórmula elegante para adornar a capa de um livro. Segundo o relato de Michael Haller, responsável pela edição, o próprio Dürrenmatt concordou com ele porque três dessas conversas deveriam abordar precisamente aquilo que havia de transgressor, de fronteiriço, em seu modo de pensar. “Ultrapassar limites”, era uma característica bastante concreta de sua atitude diante do conhecimento: Dürrenmatt desconfiava das fronteiras que separavam os campos do saber e, sobretudo, desconfiava do escritor que se instalava confortavelmente dentro delas.
Uma das entrevistas permite compreender com particular clareza o que ele tinha em mente quando falava de um pensamento capaz de atravessar essas fronteiras. Em determinado momento, Dürrenmatt comenta que costuma ler sobretudo “coisas relacionadas às ciências naturais ou à filosofia”. Seu interlocutor, Sven Michaelsen, observa então que um escritor interessado pelas ciências naturais constitui uma exceção. A observação parece quase banal, mas Dürrenmatt a recebe com uma espécie de espanto indignado, como quem se depara com um hábito coletivo que, de tão disseminado, acabou sendo tomado por normalidade:
“Isso sempre me surpreende, pois hoje não é possível apreender o mundo dramaturgicamente sem se ocupar de ciência. Afinal, o que transforma o mundo não é a política nem a arte, mas justamente a ciência. A segunda cultura, a cultura das ciências naturais, é hoje o fator decisivo. A política vem atrás. Não consigo compreender os escritores que, deliberadamente, permanecem ignorantes em relação às ciências naturais. Quem se recolhe à experiência puramente privada deixa escapar uma quantidade enorme de coisas.”
Há nessa passagem uma concepção bastante exigente da função do escritor. Dürrenmatt tenta nos ensinar: se a ciência passou a modificar a própria estrutura da realidade humana, ignorá-la significa também ignorar uma parte essencial do mundo que o escritor pretende compreender e representar.
É nesse sentido que a expressão “duas culturas” ganha importância. Dürrenmatt reconhece que existe uma separação histórica entre a cultura literária e humanística, de um lado, e a cultura científica, de outro, mas não aceita que essa divisão deva ser tratada como uma espécie de lei natural. Ao contrário, parece-lhe particularmente estranha a atitude do escritor que se orgulha de desconhecer aquilo que acontece nos laboratórios, nas universidades e nas teorias científicas, como se a ignorância pudesse funcionar como certificado de autenticidade artística. Há uma ironia involuntária nessa situação: o escritor deseja falar sobre o mundo inteiro, mas reserva para si o direito de desconhecer justamente uma das atividades intelectuais que mais profundamente transformaram esse mundo.
A posição de Dürrenmatt é compreendida melhor se distinguirmos duas questões. A primeira diz respeito aos efeitos práticos da ciência, isto é, às máquinas, às tecnologias e às transformações sociais produzidas pela aplicação do conhecimento científico. A segunda, muito mais importante para o pensamento de Dürrenmatt, diz respeito ao conteúdo das próprias teorias científicas e à nova imagem da realidade que elas introduziram.
Sua afirmação de que a cultura das ciências naturais constitui “o fator decisivo” de seu tempo poderia, à primeira vista, ser entendida como uma referência ao poder da tecnologia. Nesse caso, bastaria dizer que automóveis, aviões, televisão, energia nuclear, computadores e inúmeras outras invenções modificaram profundamente a sociedade moderna. Mas essa interpretação seria insuficiente. Dürrenmatt está interessado em algo anterior à máquina e mais perturbador do que ela: interessa-lhe a transformação da própria maneira pela qual o homem compreende aquilo que chama de realidade.
A ciência, nessa perspectiva, não apenas produz coisas novas; ela produz novas possibilidades de pensamento. Uma teoria científica não permanece confinada ao laboratório, como um animal exótico dentro de uma jaula acadêmica. Quando uma determinada concepção científica modifica nossa compreensão do espaço, do tempo, da matéria, da causalidade ou da relação entre observador e fenômeno observado, ela inevitavelmente repercute sobre as demais formas pelas quais o homem tenta compreender sua existência. O escritor pode fingir que nada disso lhe diz respeito, mas o mundo sobre o qual escreve já foi alterado por essas descobertas, quer ele tenha tomado conhecimento delas, quer não.
É por essa razão que o interesse de Dürrenmatt pelas ciências naturais passa diretamente pela relação entre ciência, pensamento e representação da realidade. Se a ciência moderna passou a descrever um universo que já não corresponde facilmente às imagens fornecidas pela experiência cotidiana, então também a literatura precisa enfrentar as consequências dessa ruptura. O escritor encontra-se diante de uma realidade que, em muitos aspectos, deixou de ser intuitiva e isso produz consequências inevitáveis para a dramaturgia e para a própria concepção de conhecimento.
Um discurso pronunciado por Dürrenmatt em 1979, dedicado a Albert Einstein, torna essa preocupação ainda mais evidente. Segundo Dürrenmatt, tornou-se necessário que também os leigos se ocupem desse problema porque “hoje a matemática, as ciências naturais e a filosofia estão de tal maneira entrelaçadas” que já não podem ser tratadas como territórios completamente independentes.
A expressão empregada por Dürrenmatt, o “nó górdio” que também o leigo precisa enfrentar, é particularmente apropriada. Na antiga narrativa, o nó górdio era tão complicado que Alexandre, em vez de tentar desfazê-lo pacientemente, resolveu cortá-lo com a espada. O problema contemporâneo descrito por Dürrenmatt é de natureza diferente, embora possua a mesma aparência de emaranhado: matemática, física e filosofia penetraram umas nas outras de tal maneira que já não é possível determinar com facilidade onde termina uma e começa a outra.
Para Dürrenmatt, o escritor encontra-se diante de uma situação histórica peculiar. Durante séculos, podia parecer razoável imaginar que o filósofo refletia sobre a realidade, enquanto o cientista investigava seus mecanismos e o poeta produzia imagens capazes de expressar a experiência humana. A modernidade científica tornou essa divisão muito menos confortável. O físico passou a fazer perguntas que possuem consequências filosóficas, a matemática tornou-se uma linguagem indispensável para pensar determinados aspectos da realidade e a própria ciência começou a revelar estruturas do universo que desafiam as categorias fornecidas pelo senso comum.
É nesse ponto que a exigência de Dürrenmatt assume seu verdadeiro alcance. O escritor não precisa tornar-se um cientista profissional, assim como o físico não precisa escrever tragédias em versos para justificar sua existência intelectual. O que se exige é o abandono daquela velha compartimentalização segundo a qual cada homem pode ignorar tranquilamente aquilo que acontece no território vizinho. Para Dürrenmatt, o escritor que se refugia exclusivamente em sua experiência privada corre o risco de transformar sua própria limitação em método.
A experiência individual continua sendo matéria legítima da literatura, evidentemente, mas ela já não basta para compreender uma realidade na qual forças científicas e tecnológicas passaram a determinar as condições da existência coletiva. O escritor que se fecha no pequeno universo de suas lembranças, paixões e dramas pessoais pode continuar produzindo literatura, mas, aos olhos de Dürrenmatt, terá deixado de perceber uma parte considerável daquilo que está acontecendo diante de seus olhos.
É justamente por isso que a relação entre Dürrenmatt e a física moderna não deve ser procurada apenas em obras como “Os Físicos”, onde o assunto aparece explicitamente no palco. A questão é muito mais ampla. A física interessa a Dürrenmatt porque ela representa uma transformação profunda na própria estrutura do pensamento ocidental. E, se essa transformação modifica aquilo que entendemos por realidade, ela inevitavelmente modifica também as condições dentro das quais o escritor pode pensar, imaginar e construir suas próprias obras.
A aproximação entre ciência e literatura coloca em jogo é algo mais interessante: compreender de que maneira uma nova imagem do universo pode alterar a consciência daquele que escreve.
É precisamente nesse ponto que a investigação de Dürrenmatt sobre a física moderna começa a aproximar-se de sua concepção de dramaturgia. Para compreender o mundo contemporâneo, o escritor precisa compreender também as formas de pensamento que tornaram esse mundo possível. E, entre essas formas, a física ocupa um lugar privilegiado, porque não apenas acrescentou novos fatos ao nosso conhecimento, mas colocou em questão algumas das categorias mais elementares com que costumávamos organizar a realidade.
A convicção de que filosofia e ciências naturais pertenciam, de algum modo, a um mesmo campo de investigação não surgiu em Dürrenmatt apenas quando Einstein passou a ocupar o centro de suas reflexões. Essa ideia era anterior e, na verdade, parece constituir uma das linhas subterrâneas de seu pensamento. Já em 1956, ao tratar da relação entre filosofia e ciência natural, Dürrenmatt levantava uma hipótese bastante provocadora: talvez a ciência natural tivesse assumido, na época moderna, uma função que tradicionalmente pertencia à filosofia.
A pergunta era ainda mais incômoda porque atingia diretamente a confiança depositada na chamada “filosofia da palavra”. Dürrenmatt perguntava se a filosofia contemporânea não deveria ser procurada justamente nas ciências naturais; se não estaríamos cometendo uma espécie de equívoco histórico ao tentar conservar, sob novas roupagens, uma forma de pensamento filosófico que já não corresponderia à estrutura intelectual de seu tempo; e, finalmente, se os primeiros indícios de uma nova filosofia não deveriam ser procurados em Einstein e Heisenberg, em vez de Heidegger.
A provocação merece atenção, sobretudo porque Dürrenmatt não estava fazendo essas considerações diante de uma plateia reunida para discutir filosofia. Seu discurso tinha como título “Sobre o sentido da poesia em nosso tempo”. A escolha do contexto é reveladora. Filosofia e ciência natural aparecem ali como partes de um problema que diz respeito diretamente à literatura e, mais especificamente, à situação do escritor diante de uma realidade que a ciência moderna havia tornado progressivamente mais estranha, abstrata e difícil de representar por meio das categorias tradicionais da linguagem.
Temos, portanto, três elementos que se encontram: ciência natural, filosofia e poesia. E o encontro não é meramente temático. Para Dürrenmatt, as transformações ocorridas na ciência alteravam também as condições intelectuais nas quais a filosofia e a literatura precisavam operar. O escritor que pretendesse compreender seu próprio tempo já não poderia se refugiar confortavelmente no pequeno território da experiência individual, como se o mundo continuasse sendo constituído apenas pelas relações humanas imediatamente perceptíveis. Enquanto o escritor olha pela janela e vê uma rua, a física está dizendo que, por trás daquela aparência tranquila, existe uma realidade que não se deixa apreender pelos sentidos e que exige equações para ser pensada. A literatura, goste ou não, passou a morar nesse mesmo planeta.
Por isso, reaparece aqui uma exigência que Dürrenmatt havia formulado na entrevista anteriormente mencionada: o escritor precisa se ocupar das ciências naturais. As ciências naturais haviam alterado a própria imagem que o homem fazia da realidade e, consequentemente, haviam modificado o terreno intelectual sobre o qual filosofia e literatura construíam suas interpretações do mundo.
A questão ganha ainda mais força quando se observa que Dürrenmatt não se limitou a defender essa aproximação em termos abstratos. Há evidências de que ele próprio procurou cumprir a exigência que formulava para os demais escritores. Indicações autobiográficas, referências às suas leituras e informações provenientes do Arquivo Dürrenmatt mostram que seu interesse pelas ciências naturais fazia parte de seu próprio fundamento noético. As recordações de seu amigo, o físico Marc Eichelberg, reforçam essa impressão e permitem perceber que a ciência ocupava, de fato, um lugar significativo em seu horizonte intelectual.
Esse dado é particularmente importante quando se procura compreender a possível influência da física moderna sobre sua concepção literária: saber se determinados conceitos e problemas colocados pela ciência moderna contribuíram para modificar sua maneira de compreender a realidade, o conhecimento e, por consequência, a própria tarefa da literatura.
Nesse ponto, dois nomes assumem especial importância: Arthur Stanley Eddington e Karl Raimund Popper. Ele próprio os mencionou entre as fontes intelectuais que tiveram importância em sua formação. A presença desses autores é especialmente significativa porque tanto Eddington quanto Popper se encontravam profundamente envolvidos com os problemas filosóficos suscitados pela física moderna, embora o fizessem a partir de perspectivas bastante diferentes.
Segundo Heinz Ludwig Arnold, a obra de Eddington intitulada “Filosofia e ciência natural” teria sido um dos livros preferidos de Dürrenmatt. Arnold também observa uma proximidade entre o pensamento de Dürrenmatt e a teoria da falsificação desenvolvida por Popper em “Lógica da pesquisa”. Essas informações ganham peso quando colocadas em conjunto com o percurso intelectual reconstruído neste estudo.
As transformações provocadas pela física do século XX colocavam em questão conceitos aparentemente elementares sobre matéria, causalidade, observação, realidade e conhecimento. A mecânica quântica, sobretudo, obrigava o pensamento a lidar com uma realidade que frequentemente resistia às imagens fornecidas pela experiência cotidiana.
É justamente essa transformação que torna Eddington particularmente relevante para Dürrenmatt. Sua reflexão sobre a física procura compreender o que esses resultados revelam sobre as condições do próprio conhecimento científico. A física moderna passa a funcionar também como um problema epistemológico: ao investigar a natureza, o homem descobre, em certa medida, as formas através das quais ele próprio é capaz de pensar a natureza.
Popper, por sua vez, oferecia a Dürrenmatt outro instrumento importante: a ideia de que o conhecimento científico repousa sobre teorias que devem permanecer abertas à crítica e à possibilidade de serem refutadas. A ciência aparece, desse modo, como uma atividade permanentemente exposta ao erro. E isso se aproxima bastante da desconfiança de Dürrenmatt diante das grandes certezas filosóficas e das tentativas de transformar a literatura em tribunal supremo da realidade.
Eddington e Popper, portanto, representam duas vias diferentes de acesso ao mesmo território problemático: a relação entre ciência, conhecimento e realidade. Ambos perceberam que a física moderna havia produzido consequências que ultrapassavam os limites da física propriamente dita. Suas teorias exigiam uma reconsideração das categorias utilizadas para pensar o mundo e o próprio ato de conhecê-lo.
Dürrenmatt acompanha esse movimento, mas acrescenta um terceiro elemento. Seu interesse está em saber o que acontece com a literatura quando a ciência transforma profundamente a imagem que o homem possui da realidade. A questão deixa de ser apenas “o que a física descobriu?” e passa a incluir uma pergunta muito mais desconfortável para o escritor: “como escrever num mundo que já não se deixa representar pelas antigas imagens com que aprendemos a compreendê-lo?”
É nesse sentido que filosofia, ciência natural e poesia convergem em seu pensamento. A ciência fornece uma nova experiência da realidade; a filosofia procura compreender as consequências dessa experiência para o conhecimento e a poesia precisa encontrar uma maneira de criar diante de uma realidade que já não pode ser simplesmente copiada ou reproduzida pela linguagem.
Dürrenmatt, nesse aspecto, segue Eddington e Popper até certo ponto, mas não pretende simplesmente transformar a literatura em uma extensão da epistemologia científica. Seu movimento é mais curioso: ele toma da ciência moderna a consciência de que nossas imagens do mundo são construções intelectuais e leva essa consciência para o território da criação literária. O escritor passa então a enfrentar um problema semelhante ao do cientista: ambos precisam construir modelos capazes de produzir inteligibilidade. A diferença está na natureza desses modelos e nas regras que governam sua construção.
É justamente nesse ponto que a relação entre física e poesia começa a adquirir, em Dürrenmatt, uma dimensão verdadeiramente original. A ciência havia descoberto que a realidade não precisava corresponder às imagens intuitivas que o homem fazia dela. Dürrenmatt percebe que a literatura também não precisava permanecer prisioneira da obrigação de reproduzir a realidade cotidiana. Se o físico podia abandonar a imagem familiar do mundo para construir modelos matemáticos capazes de revelar estruturas que os sentidos não alcançavam, o escritor poderia, por sua vez, construir mundos ficcionais que não fossem cópias da realidade e que, justamente por serem inventados, permitissem enxergar alguma coisa da realidade que a simples imitação deixaria escapar.
A partir daqui, a influência da física moderna sobre Dürrenmatt deixa de ser apenas uma questão de temas científicos presentes em seus textos. Ela começa a atingir sua própria concepção do que significa representar o mundo. E é nesse ponto que a leitura de Eddington se torna especialmente esclarecedora, pois sua filosofia da ciência fornece uma chave para compreender por que Dürrenmatt atribui tanta importância à matemática, à estrutura, à lógica e à construção de mundos possíveis.
“Um mundo próprio lógico não pode simplesmente cair para fora do nosso mundo.”²²
A conferência “Sobre o sentido da poesia em nosso tempo”, já mencionada, é particularmente importante para compreender a maneira pela qual Dürrenmatt articula três atividades que, à primeira vista, parecem pertencer a territórios completamente distintos: a filosofia, as ciências naturais e a poesia. Em seu pensamento, porém, elas se encontram diante de um mesmo problema, que é talvez um dos problemas intelectuais centrais da modernidade: como pensar e representar uma realidade que deixou de se comportar como esperávamos que ela se comportasse?
A questão começa com uma suspeita bastante radical de Dürrenmatt. Ele admite a possibilidade de que a antiga filosofia fundada na palavra precise ceder lugar a uma filosofia inspirada pelas ciências naturais e pela matemática. A razão dessa hipótese está na própria transformação do pensamento moderno. Segundo ele, nosso pensamento teria “cada vez mais e necessariamente saído do domínio da palavra e se tornado matematicamente abstrato”.
A frase pode parecer, à primeira vista, uma daquelas profecias grandiosas que os escritores gostam de fazer quando resolvem explicar o destino da humanidade, mas Dürrenmatt procura dar a ela um fundamento bastante concreto. Ele identifica três fatores principais responsáveis por essa transformação.
O primeiro diz respeito à relação do homem com os objetos que o cercam. O mundo moderno colocou o indivíduo diante de uma quantidade crescente de coisas que ele sabe utilizar, controlar e colocar a serviço de seus objetivos, embora frequentemente já não saiba explicar de que maneira elas funcionam. O homem moderno tornou-se extraordinariamente hábil em apertar botões e extraordinariamente ignorante acerca do que acontece depois que os aperta. A distância entre manipular e compreender tornou-se, para Dürrenmatt, uma das marcas características da modernidade.
Esse fenômeno não se restringe às máquinas. A própria organização da sociedade moderna tornou-se progressivamente mais difícil de apreender por meio das categorias da experiência individual. O segundo fator apontado por Dürrenmatt é justamente a passagem do universo dos “pequenos números” para o dos “grandes números”. Com isso, ele não está simplesmente falando de uma mudança quantitativa, como se o problema fosse apenas contar pessoas, objetos ou acontecimentos em quantidades maiores: o problema agora é a transformação das próprias formas sociais e políticas.
As sociedades modernas passaram a funcionar por meio de estruturas cada vez mais vastas, burocráticas e impessoais. O indivíduo encontra-se submetido a instituições cuja dimensão ultrapassa largamente sua experiência imediata e cujas decisões podem afetar milhões de pessoas sem que essas pessoas sequer conheçam os mecanismos pelos quais tais decisões foram tomadas. O mundo social, assim como o mundo físico, começa a escapar da escala humana ordinária.
Mas há ainda um terceiro fator, e este é, para Dürrenmatt, o mais importante, porque de certo modo está por trás dos dois anteriores. Trata-se da transformação operada pela própria física moderna, especialmente de sua tendência a abandonar progressivamente a “intuição, a imagem, o modelo”.
Aqui começa uma das partes mais interessantes de sua argumentação. Durante séculos, compreender a natureza significou, em grande medida, conseguir formar alguma imagem dela. O homem imaginava corpos, movimentos, forças, substâncias e mecanismos e procurava explicar os fenômenos naturais por meio dessas representações. A ciência moderna, sobretudo a física dos séculos XIX e XX, começou a avançar para uma região em que esse procedimento se tornava cada vez menos satisfatório.
Para Dürrenmatt, a matemática possui precisamente a vantagem de não depender da imagem. Ela permite operar com relações entre conceitos sem exigir que esses conceitos correspondam a objetos que possam ser imaginados pelos sentidos. Seu poder está na precisão do pensamento e na possibilidade de construir sistemas nos quais as relações entre os elementos sejam rigorosamente determinadas por uma lógica interna.
É nesse sentido que Dürrenmatt afirma que um espaço multidimensional ou um átomo podem constituir um absurdo para a percepção sensível, sem que por isso sejam um absurdo matemático. O que os sentidos recusam como estranho ou impossível pode perfeitamente encontrar lugar dentro de uma estrutura matemática coerente, isto é, o que parece impossível para os sentidos não é necessariamente impossível para o pensamento. E a física moderna havia começado justamente a explorar essa região desconfortável em que nossas imagens habituais da realidade já não são capazes de acompanhar aquilo que as estruturas matemáticas permitem formular.
O pensamento baseado em palavras, por outro lado, permanece ligado à imagem. Quando falamos de um objeto, uma situação ou um acontecimento, a linguagem cotidiana normalmente nos conduz a alguma forma de representação intuitiva. As palavras geram pensamentos sobre coisas, cenas, movimentos, personagens e experiências. Mesmo quando tratamos de conceitos abstratos, nossa linguagem conserva uma relação profunda com aquilo que pode ser imaginado.
A matemática pode escapar dessa exigência, pois pode operar com entidades e relações cuja existência não encontra qualquer equivalente imediato na experiência cotidiana. É justamente essa capacidade de abandonar a imagem que, para Dürrenmatt, explica sua crescente importância para a física.
Seria um erro, entretanto, interpretar essa oposição como uma tentativa de Dürrenmatt de declarar a superioridade da matemática sobre a literatura. Ele não está dizendo que o pensamento matemático seja verdadeiro e o pensamento literário seja uma espécie de brincadeira para aqueles que não conseguiram aprender álgebra. Sua intenção é muito mais inquietante: mostrar que a ciência moderna passou a produzir conhecimentos sobre a realidade que não podem mais ser adequadamente traduzidos pelas antigas imagens intuitivas.
Por isso, Dürrenmatt critica o hábito de considerar os resultados das ciências naturais como informações meramente técnicas acerca de uma realidade mecânica e espiritualmente insignificante. Há nessa atitude uma curiosa espécie de preconceito: aceita-se a ciência enquanto ela produz máquinas úteis, mas suas consequências intelectuais são tratadas como se fossem assunto reservado a especialistas. Para Dürrenmatt, isso equivale a não perceber justamente a parte mais importante da revolução científica.
As ciências naturais ampliaram o alcance de nossas ações e, sobretudo, transformaram profundamente o horizonte do nosso pensamento e, talvez, tenham modificado também aquilo que podemos chamar de realidade.
É nesse ponto que o pensamento de Dürrenmatt ganha uma tonalidade quase filosófica, embora ele próprio desconfie profundamente da tentação de transformar o escritor em filósofo. Quanto mais rigorosamente pensamos sobre o mundo, mais descobrimos que nosso conhecimento é limitado. A investigação científica pode revelar estruturas extremamente precisas e, ao mesmo tempo, aumentar a consciência acerca daquilo que permanece desconhecido.
Dürrenmatt admite, portanto, que um pensamento rigoroso e honesto talvez nos permita alcançar apenas alguns poucos vislumbres do funcionamento de uma força primordial que permanece eternamente misteriosa. O paradoxo é importante: quanto mais exato se torna o conhecimento, mais nítidos podem aparecer os limites desse conhecimento.
Daí surge uma consequência quase desconcertante para a filosofia. Se aquilo que podemos estabelecer com segurança sobre a realidade é tão limitado, o filósofo talvez tenha diante de si uma quantidade enorme de coisas sobre as quais não pode falar legitimamente. O silêncio aparece, então, não como fracasso absoluto do pensamento, mas como reconhecimento de seus próprios limites.
Dürrenmatt chega a uma hipótese particularmente interessante: talvez a imagem física do mundo seja extremamente precisa justamente porque consegue mostrar com extraordinária clareza aquilo que ainda ignoramos. A ciência não seria necessariamente a conquista definitiva da realidade, mas uma maneira rigorosa de delimitar o campo daquilo que podemos afirmar.
Isso explica também sua hesitação diante da ideia de que toda realidade verdadeira deva ser intuitivamente compreensível. Se a física moderna nos obriga a aceitar estruturas que não podem ser representadas adequadamente por imagens derivadas da experiência cotidiana, talvez devêssemos abandonar a expectativa de que o real tenha sempre a aparência que nossa imaginação espontaneamente lhe atribui.
Dürrenmatt deixa aberta uma possibilidade bastante radical: talvez o matemático-abstrato possua um conteúdo de realidade maior do que aquilo que conseguimos visualizar. A realidade poderia ser menos parecida com as imagens que fazemos dela e mais parecida com as estruturas que somos capazes de formular.
E é justamente aqui que o problema da ciência retorna ao problema da poesia.
O escritor trabalha com palavras e sua matéria-prima continua sendo a linguagem, a linguagem permanece profundamente ligada à imagem, à experiência e à representação. Ao mesmo tempo, ele vive em um mundo cuja estrutura intelectual está sendo progressivamente determinada por formas de pensamento que escapam à linguagem intuitiva e alcançam um grau de abstração que a literatura não consegue simplesmente reproduzir.
Dürrenmatt encontra-se, então, diante de uma espécie de paradoxo. Se a antiga filosofia da palavra já não é capaz de acompanhar adequadamente a realidade revelada pela ciência moderna, e se a literatura também está condenada a trabalhar com palavras, qual poderá ser o seu lugar?
Essa é a pergunta que dá sentido ao título da conferência: “Sobre o sentido da poesia em nosso tempo”.
A resposta, contudo, não será encontrada na tecnologia. Dürrenmatt não acredita que o escritor esteja ameaçado simplesmente porque existem rádio, televisão ou outros meios de comunicação capazes de transmitir imagens e informações com uma velocidade muito maior. Seria uma explicação fácil demais, e justamente por isso pouco dürrenmattiana. O problema verdadeiro encontra-se em outro lugar.
O perigo surge quando o escritor, diante do enfraquecimento da filosofia tradicional e da transformação científica da imagem do mundo, aceita uma função que não lhe pertence. É nesse momento que Dürrenmatt começa a formular sua crítica ao escritor que pretende transformar a literatura em substituta da filosofia e é também aí que se abre o caminho para sua concepção das “Eigenwelten”, os mundos próprios ou mundos autônomos que constituirão o centro de sua teoria da criação literária.
O escritor é facilmente induzido a desempenhar um papel que não lhe cabe. A filosofia, ao fracassar, entregou-lhe o cetro. Agora procura-se nele aquilo que não foi encontrado nela; mais ainda, espera-se que ele substitua a religião que falta. Se antigamente o escritor escrevia sobre coisas, agora escreve acerca das coisas.
Mais uma vez, Dürrenmatt alude aqui ao fracasso da filosofia. Embora considere possível encontrar em Einstein ou Heisenberg os primeiros elementos de uma nova filosofia, rejeita veementemente a ideia de que a poesia ocupe o lugar da filosofia.
Do seu ponto de vista, é uma “superestimação da arte” quando o escritor se coloca diante do mundo acreditando ser capaz de dizer algo sobre ele, em vez de exercer uma atividade criadora.
Para Dürrenmatt, o fracasso da filosofia reside no fato de ela ainda permanecer no domínio da palavra, da imagem, e, por isso, já não ser adequada. A poesia, por sua própria natureza ligada à palavra, consequentemente não é capaz de substituir a filosofia.
Como explica Dürrenmatt, nem mesmo o trabalho sobre a linguagem pode modificar essa incapacidade:
O escritor percebe que hoje nos deparamos com uma realidade que está além da linguagem, e isso não pelo caminho do misticismo, mas pelo caminho da ciência. Ele vê que a linguagem é limitada, mas, ao constatar isso, comete frequentemente um erro lógico. Não percebe que a limitação é algo natural, porque a linguagem precisa necessariamente estar ligada à imagem, se quiser continuar sendo linguagem, mas tenta ampliá-la para além de sua limitação ou, por assim dizer, dissolvê-la. Ora, a linguagem é algo inexata, que só adquire exatidão por meio do conteúdo preciso. A exatidão, o estilo da linguagem, é determinado pelo grau de lógica imanente de seu conteúdo. A linguagem encontra sua verdadeira elaboração no pensamento, e é por meio da própria linguagem que o pensamento pode ser trabalhado, refinado e levado à máxima precisão.
Se tivessem sido apresentadas a Dürrenmatt as propostas mencionadas no quarto capítulo, de procurar novos conceitos de linguagem tendo em vista a moderna visão de mundo da física, ou mesmo de promover uma destruição da linguagem, elas provavelmente teriam encontrado pouca compreensão de sua parte.
Ao contrário da linguagem da matemática, a linguagem do escritor, segundo sua concepção, não pode se desprender da imagem e assumir o grau de abstração e exatidão que seria necessário para falar sobre a nova realidade alcançada por meio da ciência.
Isso, naturalmente, não significa para Dürrenmatt que o escritor possa abrir mão da exatidão. O esforço pela exatidão, porém, não deve dirigir-se à linguagem, mas ao conteúdo.
Apesar da divergência que Dürrenmatt afirma existir entre matemática e poesia, por trás dessa ideia esconde-se uma relação entre essas duas atividades do espírito.
No início da conferência, Dürrenmatt observa que a matemática possui uma lógica imanente segura, que contribui essencialmente para a precisão do pensamento matemático.
Também a exatidão da linguagem poética é determinada, segundo Dürrenmatt, por uma lógica imanente, “pelo grau de lógica imanente de seu conteúdo”.
Essa correspondência exige uma leitura atenta de Dürrenmatt. À primeira vista, ela pode parecer um detalhe secundário, perdido no desenvolvimento da conferência, mas ocupa um lugar importante em sua concepção de poesia.
O ponto central está no sentido que Dürrenmatt atribui à ideia de uma lógica “imanente”. Tanto a matemática quanto a poesia possuem uma ordem que nasce de suas próprias relações internas. Os elementos de um sistema matemático precisam guardar entre si determinadas relações; da mesma maneira, os elementos de uma obra literária precisam encontrar seu lugar dentro da estrutura que o escritor construiu.
Matemática e poesia podem, portanto, afastar-se bastante da experiência cotidiana e ainda conservar sua coerência. Uma construção intelectual ganha consistência pelas relações que estabelece em seu próprio interior. A realidade cotidiana fornece materiais ao pensamento e à imaginação, mas cada construção pode organizá-los segundo uma ordem própria.
O pensamento matemático oferece a Dürrenmatt um exemplo particularmente claro. Um espaço multidimensional ou um átomo podem causar estranheza à percepção sensível e, ainda assim, possuir plena consistência matemática.⁴ A experiência comum encontra dificuldade para imaginá-los; a matemática consegue pensá-los porque trabalha segundo relações que independem daquilo que os sentidos conseguem representar.
É justamente essa diferença entre a representação sensível e a coerência do pensamento que interessa a Dürrenmatt. Uma construção pode escapar às imagens habituais que fazemos do mundo e continuar rigorosamente organizada. É nesse espaço que sua concepção de poesia começa a ganhar forma: o escritor também pode criar uma realidade própria, desde que essa realidade obedeça à lógica que a constitui.
Indo ainda mais longe na relação com as descobertas da mecânica quântica, poderíamos acrescentar que a dupla natureza de onda e partícula não constitui, matematicamente, um problema, embora pareça incompatível com nosso mundo da experiência e contrarie os princípios da lógica aristotélica. A importância da lógica imanente dentro da poesia torna-se clara a partir do exemplo que Dürrenmatt apresenta nesse contexto: “As viagens de Gulliver”.
Medido segundo nossa realidade experiencial, aquilo que é descrito em “As viagens de Gulliver” também é absurdo. Dürrenmatt afirma que ali tudo foi inventado e que, de certo modo, foi concebido um mundo de novas dimensões.
Como se depreende da argumentação de Dürrenmatt, o romance de Swif é o “exemplo extremo” de um “mundo próprio”.
Diante do avanço em direção a uma realidade que se encontra além da linguagem e que, portanto, nem sequer pode ser reproduzida linguisticamente; diante de um mundo que se tornou desprovido de imagens, o “sentido da poesia em nosso tempo” não pode, para Dürrenmatt, consistir em reproduzir o mundo.
Consequentemente, ele afirma que aquilo que o escritor faz é uma recriação, uma construção de mundos próprios, nos quais o mundo é utilizado como material, como uma pedreira, “da qual o escritor deve extrair os blocos para construir seu edifício”.
Como Dürrenmatt havia afirmado pouco antes que o escritor não poderia inventar para si um mundo diferente, nesse ponto ele estaria se contradizendo se não tivesse introduzido a ideia da lógica imanente.
Em As viagens de Gulliver, tudo é de fato inventado e um mundo de novas dimensões é construído. Mas, por meio da lógica interna, imanente, tudo volta a se tornar uma imagem do nosso mundo. Um mundo próprio lógico não pode simplesmente cair para fora do nosso mundo. Esse é o segredo: a concordância da arte com o mundo. Temos apenas de trabalhar sobre a matéria e isso basta. Se a matéria estiver correta, a obra também estará correta.
Quando o escritor parte do mundo para criar sua obra, o resultado, para Dürrenmatt, assume uma forma bastante diferente de uma simples reprodução da realidade. O escritor recolhe elementos do mundo, seleciona-os, combina-os e os reorganiza até formar uma realidade inventada, um dos chamados “mundos próprios” (Eigenwelten). Esse mundo pode apresentar situações, personagens e relações que jamais encontramos na experiência cotidiana e, ainda assim, conservar uma ligação profunda com ela, desde que sua estrutura possua coerência e obedeça às leis que o próprio escritor estabeleceu.
É nesse ponto que se esclarece a relação entre poesia e realidade no pensamento de Dürrenmatt. A obra literária pode afastar-se da aparência imediata do mundo e, justamente por isso, oferecer uma maneira mais profunda de percebê-lo. A lógica imanente mantém essa relação de pé: é ela que liga o mundo criado pelo escritor ao mundo da experiência, fazendo com que uma realidade inventada possa lançar luz sobre a realidade em que vivemos.
Por isso, a consciência ocupa em sua concepção um lugar fundamental. O escritor recebe a realidade através da consciência e, a partir dela, constrói relações entre os elementos que irão compor sua obra. Essas relações podem ser extremamente distantes daquilo que encontramos na vida cotidiana, mas, quando obedecem a uma ordem própria e mantêm coerência entre si, produzem um mundo possível.
Essa ideia permite compreender por que a subjetividade do escritor não constitui, por si só, um problema. Seu olhar pode ser parcial, seletivo, excêntrico ou até mesmo profundamente estranho à experiência comum. Ele pode escolher um fragmento da realidade e levá-lo a consequências que ninguém levaria a sério na vida cotidiana. O que importa é o trabalho realizado sobre essa matéria. A imaginação recolhe os elementos, mas a composição lhes dá uma ordem; e é essa ordem que impede a obra de se transformar numa simples manifestação privada do autor.
O escritor pode, portanto, partir de uma visão inteiramente particular do mundo sem ficar preso ao seu próprio universo psicológico. Ao organizar aquilo que imaginou segundo relações precisas, ele transforma uma experiência subjetiva em uma estrutura que pode ser compartilhada por outros. O leitor talvez jamais tenha vivido naquele mundo, mas consegue habitá-lo durante a leitura porque reconhece nele uma coerência.
É nesse ponto que se esclarece a relação entre poesia e realidade no pensamento de Dürrenmatt. A obra literária pode afastar-se da aparência imediata do mundo e, justamente por isso, oferecer uma maneira mais profunda de percebê-lo. A lógica imanente mantém essa relação de pé: é ela que liga o mundo criado pelo escritor ao mundo da experiência, fazendo com que uma realidade inventada possa lançar luz sobre a realidade em que vivemos.

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