A Semântica dos Organismos e a Fábula do Código

O vocabulário do mistério

Há um gênero de argumento que prospera menos pela força de suas premissas do que pela imprecisão de seu vocabulário. Quando se diz que um códon “significa” glicina, a palavra significa carrega um peso que nenhuma definição técnica suporta, e é exatamente esse peso que o argumento precisa para funcionar. A frase tem a aparência de uma observação molecular e a substância de uma tese metafísica disfarçada de constatação de laboratório. O que se faz ao afirmar que “processos aleatórios não produzem semântica” é tomar emprestada, de um só golpe, a autoridade da teoria matemática da informação, a gravidade da filosofia da linguagem e a aura do mistério da origem da vida, sem pagar por nenhuma delas. O ensaio que se segue é uma tentativa de cobrar essa dívida.

O primeiro passo é desfazer a confusão entre três coisas que o argumento trata como se fossem uma só. A informação matemática, no sentido de Shannon, é tão somente uma medida da improbabilidade de uma sequência de símbolos: um texto perfeitamente aleatório contém, por essa métrica, mais informação do que um poema, porque cada um de seus caracteres era menos previsível [1]. A informação funcional, por sua vez, designa a relação entre uma sequência e um efeito biológico mensurável, como a capacidade de uma proteína de catalisar uma reação ou de se dobrar numa conformação estável [2]. A informação semântica, enfim, é o conceito cotidiano, o significado que uma mensagem tem para um intérprete, também é o único dos três que não tem um lugar definido na biologia molecular. O argumento de Meyer, Gitt e de seus epígonos depende de deslizar continuamente entre essas três acepções, usando a precisão da primeira para emprestar respeitabilidade à terceira.

Vale a pena insistir nesse ponto porque ele determina tudo o que vem depois. A teoria de Shannon mede surpresa, não sentido; um ruído branco é, sob essa ótica, uma fonte inesgotável de informação, o que já deveria bastar para despertar desconfiança em quem quer usar essa métrica para provar que os organismos são mensagens cifradas [3]. A informação funcional, embora seja um conceito legítimo e útil, não pressupõe nenhum emissor inteligente: uma proteína que se dobra e catalisa carrega informação funcional no mesmo sentido em que um cristal carrega ordem, e ninguém precisa de um autor para explicar a simetria de um floco de neve.

 A informação semântica, por fim, é uma categoria que pertence ao domínio dos agentes que interpretam e transferi-la para o DNA exige exatamente a demonstração que o argumento não fornece: a prova de que o genoma é uma mensagem dirigida a um intérprete, e não apenas uma molécula cuja estrutura foi moldada por seleção.

O exemplo que abre a tese — GGU → glicina — é instrutivo precisamente porque parece óbvio e não é. Dizer que o códon GGU “significa” glicina é descrever, de forma condensada, uma relação bioquímica tripla: o anticódon de um tRNA pareia com GGU, uma aminoacil-tRNA sintetase liga esse tRNA à glicina, e o ribossomo incorpora a glicina na cadeia peptídica em crescimento. Não há nenhum “significado” pairando sobre esse processo; há uma maquinaria molecular cujas partes se reconhecem por afinidade química e cuja especificidade foi refinada por bilhões de anos de seleção. A palavra significa é uma metáfora pedagógica que o argumento literaliza sem aviso.

A origem histórica desse mapeamento é, ela própria, objeto de uma literatura científica ativa e sofisticada, que o trata como um problema a ser explicado por mecanismos naturais: estereoquímica, coevolução, acidente congelado, otimização adaptativa e não como um dado bruto que exigiria um autor [4].

É aqui que a analogia entre código genético e linguagem começa a rachar. Uma língua é um sistema convencional: a relação entre o som cão e o animal é arbitrária, estabelecida por uma comunidade de falantes e transmitida por aprendizado. O código genético, ao contrário, é quase universal, não é ensinado a ninguém, e sua relação com os aminoácidos tem componentes estereoquímicos e biosintéticos que nada têm de arbitrários [5]. A semelhança superficial (ambos são sistemas de símbolos que mapeiam uma classe de elementos em outra) esconde uma diferença ontológica decisiva: a linguagem pressupõe falantes que estabelecem convenções, enquanto o código genético é um produto da história química e evolutiva.

Usar a linguagem como modelo do código é fazer o trabalho de convencer o leitor de que o que precisa ser provado já está provado, porque a linguagem, por definição, tem um autor.

O acaso que não é o acaso

A tese a examinar comete um erro que é ao mesmo tempo lógico e retórico: confunde a descrição de uma etapa do processo com a descrição do processo inteiro. Quando a biologia diz que a mutação é aleatória, ela afirma algo preciso e modesto: que a ocorrência de uma mutação não é orientada pela necessidade do organismo, que não há um mecanismo que produza a mutação que seria útil. Não afirma, de modo algum, que o resultado cumulativo da mutação mais seleção seja aleatório. A seleção natural é, por definição, o oposto do acaso: é um filtro não aleatório que amplifica sistematicamente as variantes que aumentam a aptidão e elimina as que a diminuem.

A deriva genética, por sua vez, é o componente estocástico que opera em populações finitas. Descrever a variação como estocástica e concluir que o produto da evolução é aleatório é como observar que as cartas são embaralhadas ao acaso e concluir que o resultado de uma partida de pôquer é imprevisível ignorando que, depois do embaralhamento, há regras, apostas e decisões que determinam quem ganha.

O argumento de que “variação estocástica não gera semântica” só parece profundo porque opera com uma noção caricatural de aleatoriedade, na qual cada passo é um lançamento de dados independente e o resultado é a soma de lançamentos sem direção. A evolução por seleção natural é um processo de dois estágios: a geração de variantes, que pode ser estocástica, e a retenção diferencial dessas variantes, que é determinística na direção que impõe. A “semântica” dos organismos, isto é, a relação entre sequência e função, pode ser acumulada incrementalmente, passo a passo, por um processo que a cada geração preserva o que funciona e descarta o que não funciona.

A improbabilidade de uma proteína funcional completa, calculada a partir do espaço de todas as sequências possíveis, é irrelevante para um processo que não precisa sortear a proteína completa de uma vez, mas pode construir a função por uma série de pequenos passos, cada um deles favorecido por seleção.

A literatura experimental é contundente a esse respeito. A evolução dirigida demonstra na prática que a combinação de variação estocástica e seleção determinística é capaz de produzir funções moleculares novas e complexas [6]. Não se trata de uma analogia remota: é a mesma arquitetura lógica da evolução natural, comprimida no tempo e com a seleção imposta pelo experimentador. Se um processo de variação e seleção gera, em laboratório, enzimas que catalisam reações que não catalisavam antes, então a afirmação de que processos naturais são “ontologicamente incapazes” de gerar função nova é falsa por demonstração direta, não por autoridade.

Há ainda o fenômeno das proteínas de novo: genes que nascem de sequências que antes não codificavam nada e adquirem função. A revisão recente da literatura documenta dezenas de casos em que sequências órfãs, sem homologia com genes conhecidos, produzem proteínas funcionais que conferem vantagens aos organismos que as carregam [7]. Experimentos com Escherichia coli mostraram que genes de novo podem promover a sobrevivência bacteriana modulando vias de homeostase proteica [8] e a evolução in vitro demonstrou que proteínas funcionais podem emergir de sequências aleatórias por seleção [9]. O espaço de sequências proteicas, longe de ser um deserto é uma paisagem densamente povoada de sequências funcionalmente relevantes, conectadas por redes neutras que permitem a exploração evolutiva sem perda de função [10]. A improbabilidade que o argumento invoca é, em grande medida, um artefato de se calcular a probabilidade de um alvo específico, quando a evolução não mira em alvos: ela explora regiões do espaço onde qualquer função que aumente a aptidão é retida.

Meyer e a aritmética do impossível

Stephen Meyer não é um autor que se refute por desdém e qualquer ensaio que o trate como um mero apologista de ocasião estaria perdendo o alvo. Seu argumento, no que tem de mais forte, pode ser reconstruído assim: a origem da vida exige a origem da informação biológica; a informação biológica, na acepção que ele emprega, é uma propriedade das sequências de DNA que não pode ser explicada por causas materiais cegas; as únicas causas conhecidas capazes de gerar informação são causas inteligentes; logo, a informação biológica aponta para uma causa inteligente [11 e 12]. A estrutura é limpa, e é precisamente essa limpeza que merece escrutínio, porque cada um de seus termos carrega uma decisão oculta.

A primeira decisão oculta está no conceito de informação. Meyer distingue entre informação estatística, na acepção de Shannon, e informação semântica ou funcional, e insiste que a biologia precisa da segunda [13]. A distinção é legítima e até útil: a teoria de Shannon, de fato, não captura o que torna uma sequência biologicamente significativa [14]. Mas a legitimidade da distinção não autoriza a conclusão que Meyer extrai dela. Que a informação funcional não seja redutível à métrica de Shannon não implica que ela exija um emissor inteligente; implica apenas que precisamos de um conceito mais rico, e a literatura sobre informação biológica oferece exatamente isso, tratando a informação funcional como uma propriedade emergente de sistemas moleculares moldados por seleção, não como um vestígio de um autor [15]. Meyer salta da insuficiência de um conceito para a necessidade de outro, sem demonstrar o elo.

O argumento da improbabilidade de Meyer depende de calcular a probabilidade de uma proteína funcional específica emergir por acaso, e de concluir que essa probabilidade é tão baixa que exclui causas materiais [16]. O defeito é conhecido e tem nome: a evolução não sorteia proteínas específicas. Ela explora um espaço de sequências no qual as sequências funcionais não são pontos isolados, mas regiões conectadas por redes de neutralidade, nas quais uma sequência pode mudar sem perder função e, ao mudar, alcançar novas funções [17].

A literatura sobre espaço de sequências proteicas mostra que a fração de sequências com alguma funcionalidade é muito maior do que a contabilidade de um alvo único sugere, e que a evolução pode atravessar paisagens de aptidão por caminhos de passos viáveis [18].

A terceira decisão oculta é a mais importante e a mais fácil de perder de vista: a confusão entre insuficiência explicativa e impossibilidade ontológica. Meyer documenta, com algum direito, que a origem da informação biológica não tem hoje uma explicação causal completa e consensual [19]. Dessa lacuna ele conclui que nenhum processo natural pode produzi-la. A passagem é ilegítima: a ausência de uma explicação completa é uma propriedade do nosso conhecimento, não do mundo; ela diz o que ainda não sabemos, não o que não pode existir. A história da ciência está repleta de fenômenos que pareceram, em seu tempo, ontologicamente impossíveis e que se revelaram explicáveis por mecanismos naturais. A distinção entre “não conhecemos a explicação” e “nenhuma explicação natural é possível” é exatamente o terreno em que Meyer constrói seu edifício e é exatamente o terreno em que o edifício não se sustenta.

Gitt e a gramática do engano

Werner Gitt opera num registro diferente e a diferença é reveladora, pois onde Meyer argumenta com a retórica da improbabilidade, Gitt argumenta com a retórica da linguagem: o DNA é um código, todo código pressupõe um codificador, logo o DNA pressupõe um codificador. O argumento tem a elegância de um silogismo e a fragilidade de uma analogia mal verificada. A questão não é se o DNA se parece com uma linguagem: parece, e a metáfora é heurística e útil, mas se as propriedades que fazem da linguagem humana um produto de agentes inteligentes podem ser transferidas, sem demonstração adicional, para um sistema molecular.

A transferência falha em pelo menos dois pontos. Conforme já afirmamos, a linguagem humana é convencional e arbitrária: a relação entre significante e significado é estabelecida por uma comunidade e não tem fundamento na natureza das coisas. O código genético, ao contrário, tem componentes estereoquímicos e biosintéticos que ligam certos aminoácidos a certos códons por afinidade química e por história metabólica, e a sua quase universalidade sugere uma origem única e antiga, não uma convenção renegociada [20]. Segundo, a linguagem exige um intérprete que atribua significado; o código genético é um conjunto de interações moleculares que funcionam sem que ninguém as interprete. A “semântica” do código é, na verdade, uma relação causal entre moléculas, e chamá-la de semântica é emprestar à bioquímica um vocabulário que ela não pediu.

O erro de Gitt é o mesmo de Meyer, com outra roupagem: tomar uma analogia heurística como uma identidade ontológica. A analogia entre DNA e código é útil porque nos ajuda a pensar, não porque prova algo sobre a origem. Quando a analogia é usada para inferir um codificador, se torna uma petição de princípio porque já pressupõe, na escolha do vocabulário, exatamente a conclusão que pretende demonstrar. A teoria matemática da informação, que Gitt invoca com reverência, não contém nenhum teorema que diga que informação implica inteligência; ela contém teoremas sobre a medida da improbabilidade e da redundância, que nada dizem sobre a origem dos sistemas que a exibem [20].

Sanford e a entropia do “Samba do Crioulo Doido”

John Sanford propõe uma tese que tem a virtude de ser empiricamente testável, o que a distingue das anteriores: a “entropia genética”. A ideia é que as populações acumulam mutações deletérias mais rápido do que a seleção natural consegue purgá-las, e que esse acúmulo condena as espécies à degeneração ao longo do tempo. A tese é apresentada com modelagem computacional e com um apelo à intuição de que a seleção, sendo imperfeita, não pode conter o dilúvio de mutações.

O primeiro problema é a suposição de que a seleção purificadora é impotente diante da carga mutacional. A literatura sobre genética de populações mostra que a eficiência da purgação depende de parâmetros que os modelos de Sanford tratam de forma favorável à sua conclusão como tamanho populacional, taxa de recombinação, distribuição dos efeitos de aptidão das mutações. Em populações grandes, com recombinação, a seleção purificadora remove mutações deletérias de forma eficaz, e a carga mutacional se estabiliza em vez de crescer sem limite. A evolução experimental oferece um teste direto: experimentos de longo prazo com linhagens bacterianas e com organismos multicelulares mostram que a aptidão pode ser mantida ou até aumentar ao longo de centenas de gerações, o que é incompatível com a previsão de degeneração inevitável [21].

O segundo problema é a negligência da recombinação e do papel da variação vantajosa. A entropia genética trata as mutações como um acúmulo unidirecional de dano, ignorando que a recombinação embaralha os alelos e permite que a seleção atue sobre combinações favoráveis, e que mutações benéficas, embora raras, são capturadas e espalhadas. A evolução experimental recente demonstrou que a seleção, inclusive a seleção sexual, pode purgar a carga mutacional sem erodir a diversidade genética, reduzindo a vulnerabilidade à extinção [22]. A imagem de um genoma que se deteriora inexoravelmente é uma caricatura do que a genética de populações e a evolução experimental mostram: um sistema dinâmico em que a seleção, a deriva e a recombinação interagem de maneiras que os modelos simplificados de Sanford não capturam.

O modelo de Sanford  depende de premissas como purgação ineficaz, recombinação ausente ou fraca, efeitos de aptidão distribuídos de certa forma que entram em conflito com a evidência empírica e com a teoria estabelecida. A tese da entropia genética é uma hipótese científica que a evidência não sustenta e é assim que deve ser tratada: como uma hipótese testada e reprovada, não como um mistério a ser venerado.

A razão de ser e o que está em jogo

O argumento da complexidade irredutível, na formulação de Michael Behe e na adaptação que Meyer faz dela, merece um tratamento próprio, porque é o mais concreto dos argumentos e, por isso, o mais testável. A tese é que certos sistemas biológicos são compostos de partes que só funcionam em conjunto, de modo que a remoção de qualquer parte inutiliza o todo, e que tal sistema não pode ter sido montado por etapas funcionais intermediárias.

O caso clássico é a maquinaria de transporte de proteínas mitocondrial: as peças que a compõem existem, em bactérias, em arranjos mais simples e com funções próprias, e a conversão desses arranjos simples em uma máquina de transporte exigiria relativamente pouca mutação. O que parecia um todo indivisível revela-se, sob exame filogenético, uma reunião de peças com histórias independentes, cooptadas para uma função nova, que é exatamente o que a teoria da exaptação prevê [23].

O erro conceitual do argumento da irredutibilidade é o mesmo que atravessa todo o ensaio: a confusão entre a impossibilidade de imaginar um caminho e a impossibilidade de existir um caminho. Behe e Meyer afirmam não conseguir conceber uma série de passos funcionais que leve de um sistema simples a um sistema complexo, e dessa incapacidade de imaginação concluem que tal série não existe. A evidência empírica, a existência de sistemas intermediários, a co-opt ação de peças, a evolução dirigida, os genes de novo, mostra que a imaginação dos autores é o limite relevante, não a natureza. A história da biologia é, em grande medida, a história da descoberta de que sistemas que pareciam irredutíveis eram, na verdade, redutíveis, uma vez que se encontravam as peças e as etapas [25].

Chegamos, enfim, ao que o argumento teleológico realmente pede. A tese de que os organismos exibem uma “razão de ser”, isto é, que suas partes existem para um fim, é uma das mais antigas da filosofia natural e tem um núcleo legítimo: os organismos exibem aquilo que os biólogos chamam de teleonomia, a organização orientada a um fim que a seleção natural produz. A questão é se essa teleonomia exige um agente que a tenha projetado ou se é um produto emergente de um processo sem propósito. A resposta da biologia evolutiva é inequívoca: a seleção natural produz, por um mecanismo puramente mecânico, organismos cujas partes parecem projetadas para um fim e essa aparência de design é exatamente o que a teoria explica sem recorrer a um designer. A teleonomia é real, mas é um efeito, não uma causa; é o que a seleção produz, não o que a seleção pressupõe.

O que está em jogo  é o método. Meyer, Gitt e Sanford propõem, cada um à sua maneira, que certas propriedades dos organismos, informação, código e complexidade  são ontologicamente inacessíveis aos processos naturais e, portanto, exigem uma causa externa. A ciência responde com um procedimento diferente: investiga, passo a passo, se os processos naturais são capazes de produzir as propriedades observadas. A evidência acumulada converge para uma conclusão: as propriedades que os autores declaram impossíveis são, na verdade, produzidas por processos naturais, em laboratório e na natureza. O argumento da impossibilidade ontológica não sobrevive ao contato com a evidência.

Há uma diferença decisiva entre um problema em aberto e uma impossibilidade demonstrada. A origem da informação biológica é um problema em aberto, com hipóteses ativas, dados crescentes e mecanismos plausíveis em investigação. A tese da impossibilidade é uma conclusão que excede a evidência, construída sobre equívocos conceituais, quie a confusão entre as acepções de informação, a caricatura da aleatoriedade, o cálculo da improbabilidade de alvos que a evolução não mira, a transferência ilegítima da analogia linguística, a negligência da recombinação e da exaptação, a confusão entre lacuna explicativa e impossibilidade ontológica, cuja resposta é sempre “um deus criador”. Cada um desses equívocos, examinado, cede.

O que resta é uma série de perguntas científicas legítimas que a ciência continua a responder com os métodos que sempre usou: hipóteses, experimentos, modelos e a disposição de corrigir o que estiver errado.

A fábula do código, em suma, é uma história bem contada sobre um vocabulário mal empregado. A semântica dos organismos é o nome que damos à relação, moldada por bilhões de anos de seleção, entre sequência e função. Confundir isso com um mistério divino é agir como o selvagem que enxergava que enxergava num raio, numa enchente ou na morte de uma criança uma ação sobrenatural.

Desfazer essa confusão não diminui o espanto diante da vida; apenas o transfere do mistério fabricado para o problema real, que é mais interessante e mais difícil. E é aí, no problema real, que a investigação deve continuar.

A humildade que paralisa e a soberba que acusa

A objeção que se levanta contra o que foi dito até aqui merece ser tratada com a seriedade que merece, porque ela não é um erro banal: é um erro ilustre, que atravessa séculos de filosofia e reaparece, sempre com a mesma cara, sempre que alguém se recusa a aceitar que o conhecimento humano possa dizer algo definitivo sobre a natureza. A objeção afirma que o cientista, ao julgar a necessidade ou a funcionalidade de certas partes do corpo, assume de antemão que seu juízo particular é epistemologicamente suficiente para fazer afirmações últimas sobre essas partes e que isso é falso, porque o cientista não está em posição de dizer nada sobre isso.

O conhecimento humano é limitado, e a biologia, em particular, é uma ciência de fronteiras abertas: não sabemos tudo sobre a função de cada gene, de cada proteína, de cada estrutura anatômica e a história da disciplina é a história de funções que foram atribuídas por engano e corrigidas depois. A humildade epistêmica é uma virtude científica genuína e qualquer ensaio que pretendesse que a biologia possui a palavra final sobre tudo seria tão tolo quanto a objeção que o critica. Mas a objeção nos pediu paralisia.

Entre a humildade e a paralisia há uma diferença que a objeção se recusa a reconhecer e nosso interlocutor operou com uma lógica de tudo-ou-nada, na qual qualquer afirmação sobre a função de uma parte só seria legítima se fosse acompanhada de uma certeza absoluta sobre a totalidade das causas e dos fins dessa parte.

Como essa certeza é inatingível, a objeção conclui que nenhuma afirmação é legítima. Mas esse padrão, se levado a sério, não condena apenas a biologia: condena toda forma de conhecimento, incluindo a própria objeção. Quem afirma que o cientista “não está em posição de dizer nada” está fazendo uma afirmação sobre o que o cientista pode ou não saber: essa afirmação exige, para ser sustentada, exatamente o tipo de acesso epistêmico à totalidade que a objeção nega ao cientista. A objeção é, portanto, contraditória: ela só pode ser verdadeira se a própria posição que ela critica for possível e se essa posição for impossível, a objeção não pode ser enunciada.

Esse é o primeiro e mais decisivo golpe e vale a pena insistir nele. A objeção diz que o cientista não tem autoridade para fazer afirmações últimas sobre as partes do corpo. Mas quem tem autoridade para afirmar que o cientista não tem essa autoridade? A objeção presume que seu próprio juízo: o juízo de que certas afirmações excedem a competência do cientista suficiente para uma afirmação última sobre os limites do conhecimento científico. Ela comete, contra si mesma, exatamente o pecado que imputa ao cientista. Não há como escapar dessa simetria: ou ninguém está em posição de fazer afirmações últimas e então a objeção se dissolve junto com a ciência; ou alguém está e então não há razão para excluir o cientista desse alguém. A objeção quer ocupar as duas posições ao mesmo tempo, negando ao outro a autoridade que reserva para si. Isso não é epistemologia. É soberba disfarçada de humildade.

O segundo golpe é mais concreto e diz respeito ao que a objeção chama de “juízo particular”. A objeção sugere que, quando a biologia afirma que tal parte é necessária para tal função, ela está confiando na opinião privada de um cientista sobre o que é ou não funcional. Nada poderia estar mais longe da prática real. A “necessidade” de uma parte do corpo não é determinada pela intuição de ninguém: é determinada por experimento. Quando se quer saber se um gene é necessário para a sobrevivência, elimina-se o gene e observa-se o que acontece; quando se quer saber se uma proteína é funcional, remove-se sua função e mede-se a perda; quando se quer saber se uma estrutura é indispensável, compara-se organismos que a possuem com organismos que não a possuem.

O juízo de funcionalidade é uma conclusão que se paga com o trabalho de produzir evidência. Chamá-lo de “juízo particular” é confundir a fonte da hipótese com a justificação da conclusão: é como dizer que a teoria da gravidade é a “opinião particular” de Newton porque foi ele quem a formulou.

O terceiro golpe diz respeito à distinção que a objeção apaga e que o ensaio inteiro se esforçou por manter: a distinção entre afirmações funcionais e afirmações últimas. A biologia faz afirmações funcionais sobre o que uma parte faz e sobre como essa função pôde surgir. A pergunta “para que serve o coração?” tem uma resposta biológica (bombear sangue) que nada tem a ver com a pergunta última “qual é o fim do coração?”, que pertence a outro domínio. A objeção funde as duas perguntas e, ao fundi-las, exige que a biologia responda à segunda para poder responder à primeira. É uma exigência ilegítima.

A biologia pode perfeitamente dizer que uma parte é funcional em um sentido preciso e empírico sem se comprometer com nenhuma tese sobre o sentido último dessa função. A objeção quer que a impossibilidade de responder à pergunta última contamine a possibilidade de responder à pergunta funcional. Não há nenhuma razão lógica para isso e há uma razão prática fortíssima contra: é exatamente assim que o conhecimento avança, por afirmações funcionais parciais que se corrigem umas às outras, sem jamais esperar a permissão de uma metafísica que nunca chega.

O quarto golpe é o mais revelador, porque expõe a assimetria de tratamento que a objeção impõe. A objeção exige que a ciência prove, antes de qualquer afirmação, que não há um design oculto, que não há uma causa última, que não há um fim inacessível por trás de cada parte. Em outras palavras, exige que a ciência demonstre um negativo universal: que prove a ausência de algo que, por definição, estaria além de seus métodos. Ao mesmo tempo, a objeção trata sua própria tese positiva, a de que existe algo além que o cientista não pode conhecer como autoevidente, dispensada de qualquer demonstração. Essa assimetria é a marca registrada de um argumento que não quer ser testado: impõe ao adversário um padrão de prova impossível e isenta a si mesmo de qualquer padrão. Se o padrão de prova fosse aplicado simetricamente, a objeção desabaria no instante em que fosse enunciada, pois ela não oferece nenhuma evidência de que existe um domínio inacessível, apenas a afirmação de que ele existe.

Chegamos, assim, ao fundo da questão, que não é científica nem metafísica, mas metodológica. A objeção é uma decisão sobre o que se deve exigir do conhecimento antes de aceitá-lo. Ela decide que nenhuma afirmação funcional é legítima a menos que seja acompanhada de uma garantia última que nenhuma afirmação pode ter. Essa decisão não é imposta pela lógica nem pela evidência; é imposta por um padrão que, se aplicado a tudo, tornaria impossível qualquer conhecimento, inclusive o conhecimento de que o conhecimento é impossível.

A ciência, por contraste, opera com um padrão mais modesto e mais honesto: afirma-se o que a evidência sustenta, corrige-se o que a evidência desmente e reconhece-se, sem drama, o que ainda não se sabe. Esse padrão, e não a pretensão de onisciência que a objeção lhe imputa, que permite dizer, com segurança e sem arrogância, que a origem da informação biológica é um problema em aberto e que os mecanismos naturais são capazes de gerar função.

A fábula do código, examinada de perto, não resiste ao contato com a evidência.

O Deus necessário e o espelho do homem

Toda a arquitetura argumentativa examinada até aqui converge, no fim, para um único ponto de apoio e é esse ponto que precisa ser desmontado por último: a tese de que a origem da informação biológica exige um Deus e a tese, mais sutil, de que essa exigência é evidente porque a biologia, examinada de perto, revela a marca de um autor.

O primeiro passo para desmontá-la é notar que ela não é uma conclusão da evidência, mas uma decisão anterior à evidência: um pressuposto que se disfarça de descoberta. Meyer, Gitt e Sanford não chegam ao Deus necessário porque os dados os obrigam; eles chegam porque já partiram dele, e todo o aparato de improbabilidade, código e entropia é a maquinaria retórica construída para fazer o ponto de partida parecer um ponto de chegada.

O que sustenta essa decisão é o que se pode chamar, com precisão, de antropocentrismo teológico: a projeção, sobre a natureza, de um modelo de agência que é, na verdade, o modelo de uma agência humana.

Quando o argumento diz que a informação exige um informante, que o código exige um codificador, que o design exige um designer, ele está tomando a experiência humana de produzir artefatos e elevando-a a uma categoria universal, da qual Deus seria apenas o caso supremo. O deus que emerge desse raciocínio não é o deus de nenhuma teologia particular; é o homem ampliado, um deus feito à imagem do homem que o invoca e é exatamente por isso que o argumento parece tão convincente: porque nos mostra, no espelho da natureza, a nossa própria imagem ampliada, e nos convida a reconhecer nela a mão de um autor.

O problema é que essa projeção é duplamente ilegítima:

  1. Pressupõe que a única forma de produzir ordem, informação e função é a forma humana de produzi-las deliberadamente, com um fim em vista, por um agente que concebe o resultado antes de realizá-lo. Mas a natureza está repleta de ordem, informação e função que não foram produzidas por nenhum agente deliberado: a simetria dos cristais, a auto-organização das estruturas dissipativas, a emergência de padrões em sistemas físicos e químicos sem nenhum planejador.  A ordem é uma propriedade que sistemas podem exibir por causas inteiramente mecânicas. O argumento, ao reservar a produção de ordem para a intenção, comete uma petição de princípio: define de antemão que ordem implica intenção, e depois “descobre” que a ordem biológica implica intenção. A conclusão estava escondida na definição.
  2. A projeção antropocêntrica confunde a nossa dificuldade de imaginar com a impossibilidade de existir.

O antropocentrismo teológico é uma tese sobre nós, sobre a nossa centralidade no esquema das coisas. Ele assume que o homem é o padrão de medida de toda agência, que a nossa maneira de fazer as coisas é a única maneira, e que, portanto, tudo o que parece feito deve ter sido feito por alguém como nós, só que maior. Essa suposição é a herança de uma cosmologia na qual o homem era o centro do universo e a natureza existia para servi-lo: uma cosmologia que a ciência desmantelou, peça por peça e que o argumento tenta ressuscitar sob a forma de uma necessidade lógica. O que se apresenta como um argumento sobre a origem da vida é, na verdade, um argumento sobre o lugar do homem: uma tentativa de garantir, por via da biologia, a centralidade que a astronomia, a geologia e a biologia evolutiva já retiraram.

É aqui que o argumento se revela, por fim, como o que sempre foi: não uma inferência a partir da evidência, mas uma exigência de que a evidência se curve a uma conclusão desejada. A exigência é a de que exista um autor porque, sem ele, o mundo perde o sentido que o antropocentrismo teológico quer lhe dar. A evidência é então moldada para servir a essa exigência: a informação é definida de modo a excluir causas naturais, o código é descrito de modo a pressupor um codificador, a complexidade é apresentada como irredutível, isto é, a entropia como inevitável. Cada definição é calibrada para que a conclusão teológica seja a única saída. Mas uma conclusão que só é alcançável porque as definições foram preparadas para levá-la até ela é uma tautologia disfarçada de descoberta.

A resposta a esse antropocentrismo teológico é uma pergunta que a ciência não pode responder porque não é uma pergunta científica e qualquer ensaio que pretendesse resolvê-la estaria cometendo o mesmo erro que critica.

A resposta é mais modesta e mais devastadora: a ciência não precisa de Deus para explicar a origem da informação biológica e o argumento que afirma o contrário não se sustenta pela evidência, mas pela projeção.

A biologia pode explicar a emergência de função, código e complexidade por processos naturais por um mecanismo que não recorre a nenhum agente externo. O deus necessário é uma hipótese que a evidência torna desnecessária e um deus que a evidência torna desnecessário não é um deus que a evidência refuta: é um deus que o argumento não consegue provar.

O que resta, quando se remove a projeção antropocêntrica, é uma escolha honesta e sem disfarce. De um lado, a possibilidade de que a ordem, a informação e a função biológicas tenham surgido por processos naturais, cegos e sem propósito, e de que a aparência de design seja um efeito, não uma causa. De outro, a possibilidade de que exista um agente além da natureza, cuja existência não pode ser demonstrada pela biologia, mas que a fé pode afirmar por outras razões. A primeira é uma hipótese científica, testável e em investigação. A segunda é uma afirmação de fé, legítima em seu próprio domínio, mas que não ganha nada em ser apresentada como uma necessidade lógica derivada do DNA.

O erro do argumento é pretender que a primeira é impossível e que, portanto, a segunda é inevitável. É essa falsa inevitabilidade, esse deus necessário enquanto espelho do homem, que recuso.

A fábula do código é um erro de cosmologia: a última tentativa de recolocar o homem no centro do universo, não mais pela geografia, mas pela biologia, não mais pela posição dos astros, mas pela estrutura do DNA.

Como toda tentativa de recolocar o homem no centro, ela falha porque o mundo não foi feito para girar em torno de nenhuma criatura. A semântica dos organismos é o produto de bilhões de anos de um processo sem autor. E é nesse processo, e não em nenhum espelho, que a investigação deve continuar: não para encontrar a mão que escreveu, mas para entender como o texto se escreveu sozinho.

Referências

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