
Apresentação do problema
Wolfgang Smith, em “Ciência e Mito: Com uma resposta a O Grande Projeto, de Stephen Hawking”, parte de um livro de divulgação científica cuja ambição, contudo, alcança questões que ultrapassam o campo da exposição científica. The Grand Design apresenta a cosmologia moderna e, ao mesmo tempo, pretende responder, com os recursos da física teórica, a três perguntas que a tradição filosófica e teológica sempre considerou suas: por que há algo em vez de nada, por que existimos e por que este conjunto de leis e não outro.. Hawking e Mlodinow fazem essa apropriação declaradamente, ao proclamarem a “morte da filosofia” e transferirem aos cientistas o papel de portadores da tocha na busca do conhecimento (Hawking e Mlodinow, 2010, p. 5). A esse gesto de colonização de um território disciplinar por outro, Smith responde com uma pergunta que organiza todo o seu projeto intelectual: em que medida essas respostas são ciência e em que medida são metafísica disfarçada de ciência? A pergunta é tanto mais aguda porque Hawking, ao longo do livro, rejeita explicitamente a noção de que exista uma realidade independente dos modelos que construímos para descrevê-la, ao mesmo tempo em que formula, sobre essa mesma realidade, um conjunto de afirmações ontológicas categóricas: o universo não tem uma única história, inúmeros universos foram criados a partir do nada, a criação espontânea explica por que algo existe em vez de nada.
O problema que este trabalho enfrenta pode ser decomposto em três questões encadeadas. A primeira é bibliográfica e hermenêutica: o resumo de Smith reproduz com exatidão as teses de Hawking? A segunda é científica: as afirmações de Hawking que Smith destaca, e as críticas que Smith lhes dirige, encontram apoio ou refutação na literatura especializada atual? A terceira é filosófica: as objeções de Smith atingem Hawking onde Hawking é cientista, ou apenas onde Hawking é filósofo improvisado, e vice-versa, as objeções de Smith são imunes ao mesmo tipo de crítica que ele dirige ao adversário?
Tais questões exigem que se mantenha, de maneira explícita e constante, a distinção entre três níveis de análise. No nível científico situa-se tudo aquilo que pode ser confrontado com observação, experimento, modelagem matemática ou com o consenso fundamentado da literatura especializada: a formulação da mecânica quântica por integrais de trajetória, a estrutura do modelo padrão, o programa da teoria de cordas e da teoria M, a cosmologia inflacionária, os experimentos de escolha postergada e os cálculos de produção estelar de carbono. No nível filosófico situam-se os argumentos de epistemologia, de ontologia, de lógica e de filosofia da ciência: a validade do realismo modelo-dependente, a relação entre descrição e interpretação na mecânica quântica, o problema da demarcação, o estatuto do princípio antrópico, a natureza do tempo em cosmologia. No nível metafísico-teológico situam-se as afirmações sobre a natureza última da realidade, a causalidade primeira, a criação a partir do nada, a alma e a liberdade, que não podem ser decididas exclusivamente pelo método experimental. A transição entre um nível e outro é, precisamente, o ponto mais vulnerável tanto do discurso de Hawking quanto do de Smith e o exame dessas passagens constituirá o eixo analítico do trabalho.
Uma advertência metodológica inicial é indispensável. O fato de uma afirmação pertencer a um nível superior de análise não a torna falsa, do mesmo modo que o fato de pertencer a um nível inferior não a torna verdadeira. O que a análise deve fazer é identificar, em cada caso, a que nível a afirmação pertence e se a passagem de um nível a outro foi justificada. Quando Hawking afirma que o universo surgiu de uma flutuação quântica, existe uma tese técnica (a cosmologia quântica do no-boundary, de Hartle e Hawking, ou o tunelamento de Vilenkin) e existe uma interpretação metafísica (a equiparação entre essa condição de fronteira e o “nada” da tradição filosófica). Quando Smith afirma que a mecânica quântica revela a necessidade de uma causalidade vertical, existe uma tese interpretativa sobre o problema da medição e existe uma doutrina metafísica sobre a hierarquia dos níveis de ser. Identificar essas camadas e verificar, em cada uma, o que a literatura permite afirmar: eis a tarefa.
Wolfgang Smith: formação intelectual e contexto
Wolfgang Smith nasceu em Viena em 18 de fevereiro de 1930 e faleceu em 19 de julho de 2024. A trajetória biográfica que seus biógrafos registram é invulgar pela amplitude disciplinar. Graduou-se pela Universidade Cornell aos dezoito anos, com concentrações simultâneas em matemática, física e filosofia; obteve, em seguida, o mestrado em física teórica na Universidade Purdue; trabalhou no grupo de aerodinâmica da Bell Aircraft Corporation, onde foi o primeiro a investigar o problema teórico da reentrada atmosférica de veículos espaciais, tema de seus trabalhos sobre campos de difusão; doutorou-se em matemática pela Universidade Columbia e dedicou cerca de três décadas ao ensino da matemática no MIT, na UCLA e na Oregon State University, onde participou da fundação do departamento de matemática. Essa biografia é, ela mesma, um dado hermenêutico: Smith pertence à espécie rara de críticos da ciência moderna que possuem credenciais científicas de primeira linha e essa circunstância confere ao seu discurso uma autoridade que não poderia ser reivindicada por um crítico puramente filosófico (Philos-Sophia Initiative, “About Dr. Smith”; Discovery Institute, “Wolfgang Smith”; Amazon Author Page). O próprio Smith, é preciso acrescentar, tratou de relativizar essa autoridade: converteu-se ao catolicismo e aderiu à escola tradicionalista, na qual a autoridade suprema não é a do cientista, mas a da tradição metafísica.
A adesão à escola tradicionalista, na versão de René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon, é o segundo dado hermenêutico decisivo. Para essa escola, existe uma philosophia perennis, um corpo de conhecimento metafísico transmitido por todas as grandes tradições sapienciais e o paroxismo da modernidade consiste em ter substituído essa sabedoria por uma ciência exclusivamente quantitativa e por uma filosofia que se recusa a reconhecer qualquer realidade além do plano físico. Smith absorveu dessa tradição a tese da pluralidade de níveis do real: o plano corpóreo, o plano sutil e o plano espiritual, dos quais a física moderna só conhece diretamente o primeiro. Dessa tradição também herdou o vocabulário da “metafísica clássica”: a distinção aristotélica e tomista entre ato e potência, a doutrina das quatro causas, a noção de substância, a hierarquia dos entes. Sua relação com Aristóteles e com Tomás de Aquino, no entanto, nasce de uma trajetória intelectual marcada pela matemática e pela física do século XX. Smith retorna à metafísica clássica depois de sua formação científica, buscando nela categorias que considera fundamentais para a compreensão da realidade. Nos textos da maturidade, essa retomada aparece como uma exigência interna da própria física. Segundo Smith, a mecânica quântica teria colocado a ciência diante de fenômenos que o arcabouço conceitual da física clássica, e mesmo o da física moderna, é incapaz de absorver sem contradição.
O contexto histórico-intelectual do projeto de Smith merece uma precisão. Sua obra principal sobre a mecânica quântica, The Quantum Enigma: Finding the Hidden Key (1995; 2ª ed. 2003), foi escrita num momento em que o problema da medição e as interpretações rivais da mecânica quântica voltavam a ser tema central do debate filosófico e físico, após décadas de hegemonia, real ou presumida, da ortodoxia de Copenhague. Cosmos and Transcendence (1984), por sua vez, antecipa vários dos temas que Science and Myth retoma, em particular a crítica ao confinamento do conhecimento à dimensão quantitativa. The Wisdom of Ancient Cosmology (2003) e Ancient Wisdom and Modern Misconceptions (2005) desenvolvem a tese de que a cosmologia moderna, da Teoria da Relatividade Geral à mecânica quântica e à teoria das supercordas, reinterpretada à luz da metafísica tradicional, perde o caráter de ameaça à visão religiosa do mundo e readquire o caráter de conhecimento legítimo, ainda que de um domínio inferior de realidade. Physics and Vertical Causation: The End of Quantum Reality (2019; 3ª ed. 2023) é a formalização madura de sua proposta: a “causalidade vertical” como chave para o problema da medição quântica. Science and Myth, que contém o capítulo aqui examinado, ocupa um lugar peculiar nesse corpus: é a obra em que Smith enfrenta diretamente, pela primeira vez, um texto de divulgação científica de alcance mundial, não para comentar a física nele contida, mas para criticar a doutrina, a “mitologia”, que a física popular contemporânea veicula.
É importante registrar, desde já, uma passagem biográfica que condiciona a leitura do capítulo. O subtítulo da edição consultada, With a Response to Stephen Hawking’s “The Grand Design”, indica que o debate com Hawking foi, para Smith, um acontecimento intelectual de primeira ordem, comparável, talvez, ao que o confronto com o positivismo lógico representou para gerações anteriores de filósofos católicos. Hawking, aos olhos de Smith, não é um adversário qualquer. Ele representa, de maneira particularmente expressiva, a pretensão de responder, em nome da ciência, a perguntas que durante séculos pertenceram aos domínios da religião e da filosofia. A seleção das teses de Hawking que Smith ressalta no sumário, como se verá, não é neutra: cada uma delas é escolhida porque será, em seguida, alvo de uma objeção. Mas essa não neutralidade, importa dizer, não invalida o resumo. Um resumo pode ser seletivo sem ser infiel, e a própria honestidade intelectual de Smith o obriga a dar a Hawking o melhor de sua argumentação, sob pena de a crítica subsequente não atingir ninguém além de um espantalho.
Principais conceitos utilizados por Smith
A reconstrução do argumento exige, antes, o esclarecimento de um conjunto de conceitos que Smith emprega com acepções técnicas precisas, algumas das quais diferem do uso corrente na literatura científica.
O primeiro é o conceito de “causalidade vertical” (vertical causation), contraposto à “causalidade horizontal”. A causalidade horizontal é a causalidade que opera dentro do plano físico, através de processos que se desenrolam no espaço e no tempo: uma bola que transmite movimento a outra, um campo que acelera uma partícula. A causalidade vertical é a produção de um efeito no plano físico por uma causa situada em um plano ontológico superior, sem mediação de processo espaço-temporal. Smith exemplifica esse tipo de causalidade com o ato de conhecimento e, sobretudo, com a redução do pacote de ondas na mecânica quântica: quando um sistema quântico em superposição é medido e um resultado definido emerge, esse salto, segundo Smith, não é explicável por nenhuma dinâmica horizontal contida na equação de Schrödinger, de modo que sua causa deve ser procurada fora do plano físico. A passagem do “possível” ao “atual” seria, em última instância, um ato de ordem vertical. Esse conceito, que Smith desenvolve com o aparato da distinção aristotélica entre ato e potência, é a espinha dorsal de sua leitura da mecânica quântica e reaparece, no capítulo sobre Hawking, como a objeção de fundo: a cosmologia de Hawking é inteiramente horizontal, e por isso mesmo incapaz de dizer a última palavra sobre o ser.
O segundo conceito é a distinção entre o plano corpóreo, o plano sutil e o plano espiritual, herdada do esoterismo tradicionalista e, mais remotamente, da cosmologia neoplatônica e das doutrinas dos três mundos. Para Smith, a física moderna descreve apenas o plano corpóreo e mesmo assim de modo indireto, através de modelos matemáticos que se referem a entidades (quarks, campos, cordas) que não são dadas à percepção. As entidades quânticas pertencem, em sua terminologia, ao “sub-corpóreo”: são mais reais, em certo sentido, do que os fenômenos percebidos, mas não são, de modo algum, o fundamento último do real. A confusão entre esses planos, e a redução de toda a realidade ao plano descrito pela física, é o que Smith chama de “cientificismo” ou “mito da ciência”. O termo “mito” é, aqui, empregado no sentido forte da escola tradicionalista: um mito é um discurso que veicula um conhecimento de ordem superior sob uma forma inadequada, mas também, em sentido degradado, um discurso que projeta sobre o real categorias particulares de uma ciência particular. A ciência moderna, segundo Smith, tem o seu mito: a ideia de que o real se esgota no mensurável, e a ideia, correlata, de que todo conhecimento que não seja científico é ilusão ou superstição.
O terceiro conceito é a distinção, de extração aristotélico-tomista, entre ser em ato e ser em potência, e a correlata doutrina da analogia do ser. Smith insiste que a palavra “ser” é equívoca quando usada para designar, indistintamente, a existência de uma mesa, a existência de um elétron e a existência de Deus; a metafísica clássica fala do ser por analogia e é precisamente essa a distinção que Hawking, ao reduzir a questão do ser à questão do ser físico, oblitera. Quando Smith observa que Hawking, ao falar do “mistério do ser”, se refere “é claro, ao ser físico”, sua observação alcança um ponto central do argumento. Para Smith, ocorre nesse momento uma mudança no próprio objeto da pergunta: a questão metafísica “por que há algo em vez de nada?” dá lugar à questão física “por que existe o universo físico?”. A passagem de uma pergunta à outra, contudo, não recebe uma justificativa suficiente.
O quarto conceito é a noção de “realidade integral” ou “cosmos integral”, que Smith contrapõe à “bifurcação cartesiana”. Descartes dividiu o real em res cogitans e res extensa, atribuindo à ciência o domínio exclusivo da segunda; a física moderna herdou essa divisão e a radicalizou, ao transformar a res extensa em um conjunto de relações matemáticas desencarnadas. Contra essa tradição, Smith afirma a unidade hierárquica do cosmos: os diferentes planos de realidade não são mundos separados, mas níveis de um mesmo ser, articulados pela causalidade vertical. Esse conceito é decisivo para entender por que Smith não se contenta em criticar Hawking ponto a ponto: sua objeção mais profunda é que a cosmologia hawkinguiana, ao negar a realidade independente dos modelos e ao reduzir o universo a uma coleção de histórias matemáticas, é a consumação da bifurcação cartesiana e não sua superação.
Finalmente, o quinto conceito é a doutrina da “física da substância” e da “presença do sujeito”. Smith rejeita a tese, que atribui ao realismo modelo-dependente de Hawking, de que não há momento em que o observador possa ser removido da descrição do mundo. Para Smith, há uma diferença categorial entre afirmar que toda percepção é parcial e mediada por modelos internos e afirmar que não existe realidade independente do observador. A primeira afirmação é trivial e compatível com o realismo epistêmico clássico; a segunda é uma tese metafísica que, tomada a sério, se autodestrói, pois não pode ser formulada sem pressupor a realidade independente que nega. Essa objeção, que Smith não formula nesses termos no capítulo, mas que orienta sua leitura, será examinada neste ensaio com todo o cuidado: trata-se de saber se ela constitui uma refutação ou apenas uma divergência de gosto ontológico.
Reconstrução detalhada do argumento
A doutrina de Hawking como sistema
O capítulo de Smith se abre com uma decisão metodológica explícita. Antes de criticar a doutrina de Hawking, Smith anuncia que enunciará “as ideias centrais de O Grande Projeto“, apresentando-as “não como diversos fragmentos isolados, mas de modo a exibir sua função na doutrina como um todo”. A escolha é significativa porque determina a estrutura de todo o capítulo. Smith acompanha, capítulo a capítulo, a ordem do livro de Hawking, mas organiza os temas segundo sua importância doutrinal, e não segundo a sequência em que aparecem na obra original. O que interessa a Smith é exibir o sistema: a ontologia do capítulo 1, a epistemologia do capítulo 3, a física dos capítulos 4 e 5, a cosmologia dos capítulos 6 e 7, e a teologia natural negativa do capítulo final, articuladas como um todo coerente.
Dois traços retórico-argumentativos devem ser notados desde o início. Primeiro, Smith concede ao livro de Hawking uma qualidade que seus críticos científicos raramente lhe concedem: “um senso de seu brilhantismo geral, de seu poder encantatório”. O elogio não é gratuito; ele serve a um propósito analítico. Se Hawking exerce um poder de sedução sobre o público, é porque há nele uma coerência doutrinal que a crítica fragmentária não percebe; e é essa coerência que Smith quer expor, para desmontá-la em suas articulações. Segundo, Smith sustenta que o livro de Hawking não deve ser lido apenas como uma exposição de física, mas como uma doutrina, no sentido de um conjunto de princípios apresentados como fundamentos para a interpretação das questões últimas. A própria expressão “esses dogmas”, utilizada já na segunda frase do capítulo, indica o modo como Smith pretende caracterizar o empreendimento de Hawking e a autoridade com que suas teses são apresentadas ao leitor. Essa caracterização encontra respaldo em um traço real da retórica de The Grand Design: o livro apresenta suas teses não apenas como hipóteses formuladas no interior da física contemporânea, mas como conclusões que Hawking e Mlodinow procuram derivar do quadro mais amplo da física moderna.
“O Mistério do Ser” e a ontologia quântica
O resumo de Smith acompanha o capítulo 1 do livro de Hawking, “O Mistério do Ser”. A primeira tese destacada é a proclamação, posta na boca de Hawking, de que “a filosofia está morta”, pois não se manteve a par dos desenvolvimentos modernos da ciência, cabendo aos cientistas o papel de “portadores da tocha da descoberta” (Hawking e Mlodinow, 2010, p. 5). Smith não comenta essa passagem no resumo, mas sua reprodução integral, acompanhada da indicação da página, já anuncia uma linha central de sua estratégia. A afirmação de que a filosofia está morta constitui, ela própria, uma tese filosófica, formulada sem uma argumentação capaz de sustentar uma conclusão dessa magnitude. O capítulo de Smith retomará esse ponto ao desenvolver sua crítica.
A segunda tese diz respeito à mudança do conceito de “ser” implicada pela transição da física clássica à quântica. Segundo a concepção tradicional, “os objetos se movem em trajetórias bem definidas e têm histórias definidas”; na física quântica, isso não ocorre. Hawking, seguindo a formulação de Feynman, afirma que “um sistema não tem apenas uma história, mas todas as histórias possíveis” (p. 6). Smith registra o argumento com precisão: entre as diferentes formulações matematicamente equivalentes da mecânica quântica, a escolha da formulação por integrais de trajetória permite a Hawking apresentar a soma sobre todas as histórias como uma característica da própria realidade física, conferindo ao formalismo uma interpretação ontológica. A equivalência matemática das formulações, nota Smith com ironia sutil, não é razão para supor que a heurística de Feynman, preferida por sua fecundidade, seja a que revela a verdadeira natureza do ser físico; mas é exatamente essa passagem, da conveniência matemática à verdade ontológica, que Hawking opera sem cerimônia.
A terceira tese é a introdução do “realismo modelo-dependente”, definido por Hawking como a ideia de que “nossos cérebros interpretam o input de nossos órgãos sensoriais construindo um modelo do mundo” (p. 7), e, em sua formulação mais forte, como a ideia de que “não há concepção da realidade que seja livre de imagens ou de teorias” (p. 42) e de que “uma teoria física ou imagem do mundo é um modelo (geralmente, de natureza matemática) e um conjunto de regras que conectam os elementos do modelo às observações” (p. 43). Smith percebe, com razão, que essa doutrina carrega um poder destrutivo imenso: se a realidade é constituída pelos modelos, então a pergunta clássica pela verdade de uma teoria, entendida como correspondência com uma realidade independente, perde o sentido. Smith interpreta essa posição como uma ontologia radical: em sua leitura, ela constitui a chave de abóbada de todo o edifício hawkinguiano, pois permite a Hawking sustentar que não existe uma teoria última no sentido tradicional, que a teoria M não precisa assumir a forma de uma teoria única e que a comparação entre diferentes modelos deve ser feita segundo sua capacidade de concordar com as observações.
A quarta tese é a ruptura com Einstein. Smith registra que, para Hawking, não há “teoria última” que abarque todo o universo no sentido antes concebido; em seu lugar, Hawking propõe a “teoria M”, definida como “toda uma família de diferentes teorias, cada qual constituindo uma boa descrição de observações apenas com relação a uma certa gama de situações físicas” (p. 8). A teoria M apareceria, ao mesmo tempo, como culminação da física e da filosofia, pois seria capaz de esclarecer aquilo que Hawking chama de “mistério do ser”. O que ela revelaria, segundo a formulação de Hawking resumida por Smith, é que “o nosso não é o único universo”, que “inúmeros universos foram criados a partir do nada” e que a teoria M final revelaria “tudo o que pode ser conhecido”, não apenas sobre o nosso universo, mas sobre a totalidade da realidade. É aqui que o resumo de Smith se torna, pela primeira vez, abertamente crítico, não por comentário explícito, mas pela seleção do material: a promessa de um conhecimento total, e a tese dos universos criados do nada, são apresentadas como as duas afirmações mais surpreendentes do livro, e Smith não esconde sua incredulidade diante do fato de que físicos profissionais possam avançá-las como resultados da física.
“Primazia da Lei”: determinismo, livre arbítrio e teorias eficazes
O resumo do capítulo 2 registra, em primeiro lugar, o gesto hawkinguiano de contrapor a “ignorância” dos antigos, que “inventavam deuses para governar todos os aspectos da vida humana” (p. 17), ao reconhecimento, pelos modernos, da “Primazia da Lei”. Smith nota que o relato histórico de Hawking (Tales, Pitágoras, Anaximandro, Empédocles, Aristarco, Ptolomeu, e depois a Idade Média, a Renascença, Kepler, Galileu, Descartes e Newton) “não difere muito das exposições costumeiras”, o que é uma maneira cortês de dizer que Hawking repete a historiografia padrão da ciência, com suas simplificações habituais, sem acrescentar nada de original. A essa altura do resumo, Smith já deixa claro que a tese central do capítulo 2 possui caráter doutrinal. A origem das leis, as possíveis exceções a elas e a unicidade do conjunto de leis formam as três questões que Hawking pretende resolver por meio da teoria M.
A parte mais densa do resumo do capítulo 2 diz respeito ao determinismo. Hawking formula o “determinismo científico” nos termos de Laplace: “dado o estado do universo em um determinado momento, um conjunto completo de leis determina totalmente tanto o futuro quanto o passado” (p. 30), e declara que esse princípio é “a base de toda a ciência moderna”. A partir daí, Hawking tira a consequência que, segundo ele, se impõe: uma vez que as pessoas vivem no universo e interagem com seus objetos, o determinismo científico também deve valer para as pessoas; “os processos biológicos são regidos pelas leis da física e da química e, portanto, são tão determinados quanto as órbitas dos planetas” (p. 32); “experimentos recentes de neurociência sustentam a visão de que é o nosso cérebro físico, obedecendo às leis conhecidas da ciência, que determina nossas ações”; e, portanto, “nada somos senão máquinas biológicas e o livre arbítrio é somente uma ilusão” (p. 32-33). Hawking admite que calcular o comportamento humano a partir das leis físicas é impraticável, mas sustenta que essa dificuldade não compromete o reducionismo. A solução consiste em recorrer a “teorias eficazes”, como a psicologia, capazes de descrever fenômenos complexos em níveis nos quais uma abordagem diretamente fundamentada nas leis físicas se torna inviável (p. 33).
Smith registra, com toda a fidelidade, o desenho do argumento. Mas sua própria voz se faz ouvir em duas observações. A primeira é a constatação da tensão interna entre o determinismo laplaciano do capítulo 2 e o indeterminismo quântico do capítulo 4: Hawking declara que o determinismo científico é a base de toda a ciência moderna e, poucos capítulos depois, declara que “o resultado dos processos físicos não podem ser previstos com certeza porque não são determinados com certeza” (p. 72). Smith nota que essa contradição aparente não passa despercebida ao próprio Hawking, que a resolve postulando um “novo determinismo”: dado o estado de um sistema, as leis determinam as probabilidades de vários futuros e passados, em vez de determinar o futuro e o passado com certeza. Mas essa solução, observa Smith, é puramente verbal: se as probabilidades são tudo o que as leis determinam, a palavra “determinismo” já não significa o que significava em Laplace, e a tese de que “nada somos senão máquinas biológicas” perde o apoio que Hawking lhe dava no capítulo 2. A segunda observação é mais profunda e anuncia a crítica metafísica da Parte 2: o argumento de Hawking contra o livre arbítrio depende de uma tese de superveniência física total: a tese de que todo evento mental é redutível a um sistema físico e essa tese, por sua vez, depende de uma concepção de causalidade e de redução que a física, enquanto ciência empírica, não demonstra. A Parte 2 examinará se essa crítica atinge o núcleo do argumento de Hawking ou apenas sua formulação popular.
“Que é Realidade?” e o realismo modelo-dependente
O resumo do capítulo 3 é, aos olhos de Smith, o coração doutrinal do livro, e por isso ele o trata com a máxima atenção. Hawking começa contrastando o geocentrismo ptolomaico com o heliocentrismo copernicano e sustenta que “não é verdade” que Copérnico tenha refutado Ptolomeu: ambas as imagens podem servir como modelos do universo e a diferença é apenas de simplicidade, pois “as equações de movimento são muito mais simples no quadro de referência em que o sol está em repouso” (p. 41-42). Dessa constatação Hawking extrai a premissa central do realismo modelo-dependente: “Não há concepção da realidade que seja independente de teoria ou de imagem”. Smith percebe imediatamente o alcance da afirmação. Se nenhuma descrição é independente de um modelo, então uma teoria científica deixa de ser uma descrição de uma realidade que existe independentemente e passa a ser um modelo que define a realidade; a própria noção de realidade independente de modelos se torna vazia. E se dois modelos concordam com as mesmas observações, “não podemos dizer que um é mais real do que o outro” (p. 46), do mesmo modo que identificamos habitualmente duas figuras de um objeto sólido correspondentes a pontos de vista diferentes.
A justificativa que Hawking oferece para o abandono do realismo clássico é de natureza quântica: “uma partícula não tem nem posição definida e nem velocidade definida a menos e até que essas quantidades sejam medidas por um observador” (p. 44). Smith registra essa passagem com cuidado, porque ela concentra, em uma única frase, a tese que ele considera a mais contestável de todo o livro: a equiparação entre a indeterminação formal da mecânica quântica e a negação de uma realidade independente da medição.
Hawking, prossegue Smith, estende o realismo modelo-dependente para além dos modelos científicos, aplicando-o à percepção sensível em geral: “o realismo modelo-dependente aplica-se não somente aos modelos científicos mas também aos modelos conscientes e subconscientes que todos nós criamos para interpretar e compreender o mundo cotidiano” (p. 46). O cérebro constrói uma imagem ou modelo mental a partir dos sinais do nervo ótico, e “o que se quer dizer quando se fala ‘vejo uma cadeira’ é simplesmente que se usou a luz refletida pela cadeira para construir uma imagem ou um modelo mental da cadeira” (p. 47). Smith não deixa escapar a ironia da formulação: Hawking, ao explicar que “vejo uma cadeira” significa que construí um modelo mental da cadeira, precisa pressupor que existe uma cadeira real que reflete a luz, sob pena de a frase não ter sentido. A questão de saber se essa pressuposição é compatível com o realismo modelo-dependente é um dos fios que Smith deixará para a crítica.
A resposta de Hawking à pergunta de bom senso sobre a existência das coisas quando não percebidas é, nas palavras que Smith transcreve, a seguinte: “O modelo segundo o qual a mesa continua no mesmo lugar é muito mais simples e está de acordo com a observação. Isso é tudo o que podemos desejar como resposta” (p. 47). A mesma lógica se aplica aos elétrons e aos quarks: eles “existem” porque o modelo que os postula é mais simples e concorda com a observação. Smith sublinha, com precisão, que essa resposta converte a existência em uma propriedade derivada da simplicidade e do ajuste empírico dos modelos, o que é uma tese metafísica de primeira grandeza apresentada como se fosse uma obviedade metodológica.
Hawking fornece, ainda, quatro critérios para graduar a qualidade de uma teoria: ser elegante, conter poucos elementos arbitrários ou ajustáveis, concordar com todas as observações existentes e explicá-las, e fazer previsões detalhadas sobre observações futuras que possam refutar ou falsear o modelo (p. 51). Smith nota que o último critério reintroduz, sob o nome de falseabilidade, um elemento popperiano que o realismo modelo-dependente, tomado a sério, não pode acomodar sem contradição: se a realidade é constituída pelos modelos, em que sentido uma observação futura poderia “refutar” um modelo, e o que significaria dizer que um modelo deixou de concordar com a realidade que ele próprio define?
O capítulo 3 se encerra com a noção de “dualidades”, exemplificada pela dualidade onda-partícula: a luz pode ser descrita tanto como onda quanto como partícula, e “dualidades assim são coerentes com o realismo modelo-dependente” (p. 58). A importância dessa noção, para Hawking, é que ela prepara a aceitação da teoria M: se não há um único modelo que descreva cada aspecto do universo, mas uma “rede de teorias” que concordam onde seus alcances se sobrepõem, então a ausência de uma teoria única unificada “é aceitável dentro do quadro do realismo modelo-dependente”. Smith percebe aqui a função estratégica da epistemologia: o realismo modelo-dependente não é apenas uma filosofia da ciência, é o instrumento que autoriza Hawking a declarar satisfatória uma situação (a ausência de uma teoria unificada) que o físico tradicional consideraria uma insuficiência.
“Histórias alternativas” e a soma de histórias
O resumo do capítulo 4 acompanha a exposição hawkinguiana da mecânica quântica. Smith descreve o experimento da dupla fenda, desde a versão de Thomas Young com luz até o caso das partículas emitidas uma a uma, em que o padrão de interferência persiste “contanto que ambas as fendas estejam abertas”, de modo que um elétron que passa por uma fenda “sabe” se a outra está aberta ou fechada. Hawking apresenta essa situação como a ruína das concepções clássicas em escala atômica e introduz em seguida o princípio de incerteza de Heisenberg: certos pares de variáveis, como posição e velocidade, não podem ser medidos com perfeita precisão, e um elétron “não tem simultaneamente uma posição e uma velocidade precisas”.
Smith registra a consequência que Hawking extrai: “o resultado dos processos físicos não podem ser previstos com certeza porque não são determinados com certeza” (p. 72), e a natureza “não dita os resultados de nenhum processo ou experimento, mesmo nas situações mais simples”, aceitando que “inúmeras eventualidades diferentes se realizem, cada qual com uma certa probabilidade” (p. 72-73). É aqui que Smith faz ouvir, com toda a clareza, sua objeção estrutural: essa admissão contradiz frontalmente o determinismo laplaciano que o capítulo 2 proclamava “a base de toda a ciência moderna”. Hawking tenta resolver a contradição propondo um “novo determinismo”, segundo o qual as leis determinam as probabilidades de vários futuros e passados, em vez de determinar o futuro e o passado com certeza. Smith observa que essa manobra verbal não elimina a tensão: ou o determinismo significa o que Laplace entendia, e então a mecânica quântica o refuta; ou significa apenas que as leis fixam distribuições de probabilidade, e então a palavra foi esvaziada de seu conteúdo clássico, deixando de sustentar as conclusões sobre o livre arbítrio que dela Hawking havia derivado no capítulo 2.
A parte central do capítulo 4 é a formulação de Feynman. Hawking apresenta a ideia de que uma partícula, entre a fonte e a tela, “não inicia uma trajetória” no sentido clássico, mas “inicia todas as trajetórias possíveis que conectam esses pontos” (p. 75). A amplitude de probabilidade de uma partícula que parte de um ponto A e chega a um ponto B se obtém somando as contribuições de todas as trajetórias possíveis, ponderadas pela fase que cada uma contribui; exceto para as trajetórias especiais, as contribuições das trajetórias próximas se cancelam. Smith reproduz essa estrutura com fidelidade, e a formaliza mentalmente na integral de trajetória. A generalização para sistemas arbitrários dá origem à “soma de histórias” ou “histórias alternativas”: “a probabilidade de qualquer observação se constrói a partir de todas as histórias possíveis que poderiam ter levado àquela observação” (p. 82).
A consequência ontológica que Hawking extrai dessa formulação é a mais radical do livro: “o passado (não observado), assim como o futuro, é indefinido e existe apenas como um espectro de possibilidades. O universo, de acordo com a física quântica, não tem um só passado, uma só história”. E, de modo ainda mais surpreendente, “as observações que fazemos em um sistema no presente afetam o seu passado”. Smith situa essa afirmação no contexto dos experimentos de “escolha postergada” (delayed choice), que Hawking leva à sua conclusão cosmológica: “como uma partícula, o universo não tem uma única história apenas, mas todas as histórias possíveis, cada qual com sua própria probabilidade; e nossas observações de seu estado atual afetam o seu passado e determinam as diferentes histórias do universo” (p. 83). Smith não comenta aqui, mas a escolha de destacar essa passagem indica que ela será central na crítica: a extensão de um resultado de mecânica quântica de laboratório (a interferência e seus experimentos de escolha postergada) à totalidade do universo e a leitura retrocausal que dela se faz, são operações que a literatura especializada trata com muito mais cautela do que a prosa de divulgação de Hawking sugere.
“A Teoria de Tudo” e a teoria M
O capítulo 5 percorre a história da física clássica e moderna que Hawking reconta: a descoberta do campo eletromagnético e as equações de Maxwell; a hipótese do éter e o experimento de Michelson e Morley de 1887, que revelou que as velocidades relativas da luz na direção do movimento da Terra e na direção oposta são iguais; a teoria especial da relatividade de 1905, que estipula a constância da velocidade da luz em qualquer quadro de referência inercial; e a teoria geral da relatividade, que Hawking situa em 1927, data que Smith reproduz sem corrigir, mas que a literatura registra como 1915-1916, um ponto que a Parte 2 examinará como indício de descuido factual na exposição popular. Hawking conclui que a relatividade geral “passou em cada um” dos testes delicados que a tecnologia moderna permite (p. 102).
Smith registra, em seguida, a distinção que Hawking traça entre as teorias clássicas (Newton, Maxwell, Einstein) e o que a física quântica exige: as teorias clássicas são “modelos em que o universo tem uma única história”, e nos níveis atômico e subatômico “esses modelos não estão de acordo com as observações” (p. 103). O que falta é uma teoria quântica que abarque não apenas a matéria, mas também os campos de força. Hawking explica que, nas teorias quânticas de campo, “os campos de força são concebidos como compostos de várias partículas elementares chamadas bósons, que são partículas veiculadoras de força que vão e vêm entre as partículas de matéria, transmitindo as forças”, enquanto “essas partículas de matéria são chamadas férmions” (p. 104). O primeiro campo quantizado com sucesso foi o eletromagnético, dando origem à eletrodinâmica quântica, a EDQ, desenvolvida na década de 1940 sob a tutela de Feynman, e descrita por Hawking como uma das teorias físicas “mais espetacularmente precisas já criadas”.
Dois instrumentos de Feynman são destacados: os diagramas de Feynman, que permitem calcular as integrais sobre histórias, e a renormalização, procedimento matemático que lida com o problema das contribuições infinitas subtraindo quantidades definidas como infinitas e negativas, de modo que “a soma dos valores negativos infinitos e dos valores positivos infinitos que surgem na teoria se cancelem, deixando apenas um pequeno resto, os valores finitos observados de massa e carga” (p. 107). Smith reproduz essa descrição com fidelidade e a Parte 2 examinará se a caracterização da renormalização como “subtração de infinitos” é tecnicamente adequada ou se Hawking a simplifica a ponto de distorcer seu significado físico.
O relato prossegue com a unificação eletrofraca, proposta independentemente por Abdus Salam e Steven Weinberg em 1967, que previu as partículas W+, W− e Zº, descobertas até 1983; com a cromodinâmica quântica (CDQ), que descreve a força forte em termos de quarks dotados de “cor”; com o fracasso das teorias da grande unificação (TGUs) e a adoção do modelo padrão, que “concorda com todas as evidências observacionais atuais, mas, no final, é insatisfatório, porque, além de não unificar as forças eletrofraca e forte, ele não inclui a gravidade” (p. 112). Smith registra o encontro da teoria quântica de campos com a gravidade como o maior obstáculo: as flutuações de vácuo, em que “partículas e campos vão e vêm para dentro e para fora da existência” (p. 113), teriam energia infinita, o que, segundo a relatividade geral, “deveria dobrar o universo em um tamanho infinitamente pequeno, o que obviamente não acontece”.
É desse impasse que Hawking faz nascer o “grande salto conceitual”: a supergravidade, proposta em 1976, fundada na supersimetria, segundo a qual “as forças e as partículas de matéria são, na verdade, apenas duas facetas de uma mesma coisa”, de modo que cada partícula de matéria teria uma parceira de força e vice-versa (p. 114). Hawking admite que “não se observou nenhuma tal partícula parceira” (p. 115), mas expressa esperança de que o Grande Colisor de Hádrons as produza. A supersimetria, nota Hawking, exige no mínimo dez dimensões de espaço-tempo, e as dimensões adicionais seriam “condensadas no que se chama de espaço interno” (p. 116). As teorias de cordas e a supergravidade seriam “aproximações diferentes a uma teoria mais fundamental”, chamada teoria M (p. 117). Hawking então propõe sua inovação radical: talvez “a expectativa tradicional dos físicos quanto a uma teoria única da natureza seja insustentável” e uma família de teorias que concordem em suas previsões possa servir igualmente bem. Sabe-se que a teoria M tem onze dimensões, que pode conter cordas, pontos materiais, membranas bidimensionais, bolhas tridimensionais e objetos que ocupam até a nona dimensão (p. 118), e que a constituição do espaço interno determina “os valores das constantes físicas, como qual é a carga de um elétron”, e portanto “as leis aparentes da natureza”. “A teoria M apresenta soluções que possibilitam muitos espaços internos diferentes, chegando talvez ao número de 10^500, o que significa que ela possibilita 10^500 universos diferentes, cada qual com suas próprias leis”.
“Escolhendo nosso Universo” e a cosmologia de cima para baixo
O capítulo 6 acompanha o relato hawkinguiano da teoria do big bang, desde as contribuições de Einstein, Hubble e Friedmann até a teoria da inflação, “que afirma reduzir a origem de nosso universo a um evento quântico”. Smith descreve o mapa do céu de micro-ondas, baseado em dados coletados ao longo de sete anos e publicado em 2010, em que “uma miríade de pontos de cores variadas pretende representar diferenças de temperatura menores que um milésimo de grau centígrado, cerca de 13.7 bilhões de anos atrás”. Hawking convida o leitor a contemplar esse mapa como “a planta de toda a estrutura do universo”, e observa que “somos o produto de flutuações quânticas que ocorreram no começo do universo”, acrescentando: “Se fôssemos religiosos, poderíamos dizer que Deus de fato joga nos dados” (p. 139).
A parte mais original do capítulo, aos olhos de Smith, é a proposta de uma cosmologia “de cima para baixo” (top-down). Hawking reprova a abordagem “dos pés à cabeça”, que supõe que o universo tem uma única história definida que as leis da física permitem calcular a partir de um ponto de partida; em seu lugar, “devem-se rastrear as histórias de cima para baixo, regredindo no tempo a partir do presente”. A objeção de Hawking é à noção de que o universo tem “uma única história que independe dos observadores”; seríamos nós que determinamos ou “escolhemos” nossa história, pelo fato de habitarmos este universo. “Uma aplicação importante da abordagem de cima a baixo é que as leis aparentes da natureza dependem da história do universo” (p. 140). Quanto à tridimensionalidade do espaço, Hawking sustenta que “a soma de Feynman prevê todas essas possibilidades, para cada história possível do universo, mas a observação de que nosso universo tem três grandes dimensões espaciais seleciona a subclasse de histórias que têm a propriedade observada” (p. 141).
Hawking insiste que essa teoria “é testável”, referindo-se à magnitude e à distribuição das irregularidades no fundo de micro-ondas, que “descobriu-se concordarem exatamente com as exigências da teoria da inflação”, embora medições mais precisas “sejam necessárias para diferenciar totalmente a teoria que vai de cima a baixo das demais”. Smith registra essa pretensão de testabilidade com atenção, porque ela será decisiva na crítica: a Parte 2 examinará se a cosmologia top-down, e o multiverso que dela decorre, satisfazem de fato os critérios de testabilidade que Hawking mesmo enuncia no capítulo 3, ou se a testabilidade se restringe a uma pequena parte do edifício (as flutuações inflacionárias) enquanto as afirmações ontológicas centrais (os 10^500 universos, a criação do nada) permanecem fora de qualquer verificação empírica.
“O Milagre Aparente” e o princípio antrópico
O resumo do capítulo 7 trata do que Hawking chama de “design favorável ao ser humano”. Hawking reconhece que as “ocorrências improváveis que conspiraram para possibilitar nossa existência” seriam “de fato intrigantes se o nosso fosse o único sistema solar do universo” (p. 153), mas argumenta que, havendo bilhões de estrelas com sistemas planetários, a hipótese do design se torna questionável: “quando os seres de um planeta que lhes sustenta a vida examinam o mundo ao seu redor, estão fadados a descobrir que seu ambiente satisfaz as condições das quais necessitam para existir”. Hawking converte essa observação em um princípio científico, o princípio antrópico fraco: “nossa própria existência impõe regras que determinam a partir de onde e em qual tempo nos é possível observar o universo”. Smith nota que Hawking atribui a Robert Dicke a primeira demonstração de que esse princípio implica que “o universo deve ter cerca de 10 bilhões de anos de idade”, o que concordaria com o valor de 13.7 bilhões de anos do big bang.
Smith, contudo, aponta com precisão o limite do princípio antrópico fraco: nossa existência não requer apenas o tipo correto de sol e um sistema planetário favorável, mas também “as leis físicas e as constantes da natureza corretas” e um mero princípio de seleção de posição não explica a seleção de um valor da “sutil constante estrutural que permite a ocorrência da química orgânica”. É exatamente aqui que Hawking introduz o multiverso: sendo nosso universo um entre 10^500 universos, cada qual com suas próprias leis, nossa existência serve para “selecionar” as leis físicas, assim como seleciona nossa posição no espaço-tempo. Isso justificaria, segundo Hawking, o princípio antrópico forte, “o fato de que existimos impõe limitações não apenas ao nosso ambiente, mas também nos conteúdos e formas possíveis das próprias leis da natureza” (p. 155).
Smith resume, em seguida, os exemplos de “ajuste fino” que Hawking oferece. A vida na Terra se baseia no carbono, e a formação de núcleos de carbono resulta do processo triplo alfa, que envolve a colisão de três partículas alfa, cuja probabilidade seria excessivamente pequena a menos que a força nuclear forte se encontrasse no âmbito de 0.5 por cento de seu valor observável, a força elétrica no de 4 por cento, e assim por diante. E, quanto à dimensionalidade do espaço, Hawking afirma que “é somente em três dimensões que as órbitas elípticas estáveis são possíveis” (p. 160), o que explicaria por que nosso espaço tem três dimensões e não cinco ou nove. A lógica do argumento, conclui Smith, é “clara como um cristal”: uma vez substituído o universo único por um multiverso, a afinação sutil pode ser explicada pelo princípio antrópico fraco, e “o milagre aparente desapareceu”: “o conceito de multiverso pode explicar a afinação sutil das leis físicas sem a necessidade de um criador benevolente que fez o universo em nosso benefício” (p. 165).
Com a literatura em mãos, tanto a correção dos exemplos (os cálculos de Oberhummer, Csótó e Schlattl sobre o triplo alfa; o resultado de Ehrenfest sobre a dimensionalidade do espaço) quanto a validade da inferência antrópica. O ponto que Smith deixa preparado é o seguinte: mesmo que os exemplos estejam corretos, a passagem do princípio antrópico fraco (que seleciona nossa posição) ao princípio antrópico forte (que seleciona as próprias leis) é uma passagem de nível, da física observacional à metafísica, e é precisamente essa passagem que Hawking opera sem justificá-la.
A resposta às perguntas finais
O resumo se encerra com o capítulo final, “O Grande Projeto”, em que Hawking propõe respostas para as três perguntas de “por quê” colocadas no início do livro: por que há algo em vez de nada, por que existimos, por que esse conjunto particular de leis e não outro (p. 171). A resposta às duas primeiras perguntas deriva da teoria M e da noção de criação espontânea: “A criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada, pela qual o universo existe e pela qual nós existimos” (p. 180). A resposta à terceira deriva do multiverso e do princípio antrópico forte, que explica por que encontramos “esse conjunto particular de leis e não algum outro”. E Hawking conclui: “Se a teoria for confirmada pela observação, será a conclusão bem-sucedida de uma busca que remonta a mais de 3 mil anos. Teremos descoberto o grande projeto” (p. 181).
Smith encerra o resumo sem comentário explícito, mas a seleção das citações finais é, em si mesma, uma tese. Ao transcrever a promessa de Hawking de que a física “terá descoberto o grande projeto”, Smith deixa claro que o que está em questão não é apenas a validade de uma teoria física, mas a pretensão de que a física possa responder, sozinha, às perguntas que a filosofia e a teologia sempre consideraram suas. A palavra “grande projeto” (grand design), com sua ressonância teológica deliberada, é o ponto em que o livro de Hawking confessa sua própria natureza: não é um tratado de cosmologia, é uma teologia natural negativa, que substitui o Deus criador por uma criação espontânea e o design por um princípio de seleção.
Síntese: a arquitetura argumentativa de Smith
O que o resumo de Smith demonstra, antes de qualquer crítica, é a coerência doutrinal do livro de Hawking. O realismo modelo-dependente (capítulo 3) é o fundamento epistemológico; a soma de histórias de Feynman (capítulo 4) é o fundamento físico; a teoria M e o multiverso (capítulos 5 e 6) são a consequência cosmológica; o princípio antrópico (capítulo 7) é o mecanismo explicativo que converte o multiverso em explicação da afinação sutil; e a criação espontânea (capítulo final) é a resposta metafísica às perguntas últimas. Cada peça depende da anterior e é essa dependência que Smith quer expor, porque ela torna o edifício vulnerável em suas articulações: se o realismo modelo-dependente cair, cai a justificativa para aceitar o multiverso como explicação; se a passagem do princípio antrópico fraco ao forte for ilegítima, cai a resposta à terceira pergunta; se a equiparação entre a criação quântica e o “nada” da tradição for uma confusão de níveis, cai a resposta às duas primeiras.
Três fios críticos, já visíveis no resumo, serão desenvolvidos na Parte 2. O primeiro é a tensão interna entre o determinismo do capítulo 2 e o indeterminismo do capítulo 4, e a insuficiência da noção de “novo determinismo” para resolvê-la. O segundo é a passagem, não justificada, da indeterminação formal da mecânica quântica à negação de uma realidade independente dos modelos. O terceiro é a passagem, igualmente não justificada, do princípio antrópico fraco ao princípio antrópico forte, e a equiparação da criação quântica ao “nada” filosófico. A esses três fios, Smith acrescentará, na parte crítica do capítulo, sua objeção metafísica de fundo: a física descreve o plano corpóreo e subcorpóreo e, dentro desses limites, não alcança as perguntas sobre a origem e o fundamento do ser. Para Smith, a tentativa de Hawking de responder a essas questões confunde os limites metodológicos da ciência com a possibilidade de reduzir toda a realidade ao que pode ser mensurado.
Antecedentes históricos e filosóficos
A crítica formulada por Smith contra Hawking se desenvolve no interior de uma longa discussão filosófica sobre a natureza da ciência, os limites do conhecimento científico e a relação entre os modelos teóricos e a realidade que pretendem descrever. Para avaliar se Hawking introduz uma posição efetivamente nova ou se reformula, em linguagem de divulgação científica, uma concepção antiga e amplamente discutida, é necessário situar o realismo modelo-dependente dentro dessa história. A tese de que não há conhecimento de uma realidade independente de um esquema conceitual tem raízes que remontam, pelo menos, ao empirismo de George Berkeley, para quem “ser” de uma coisa percebida é “ser percebida” (esse est percipi), e à crítica kantiana, que distingue o fenômeno, tal como constituído pelas formas da sensibilidade e do entendimento, do númeno, inacessível ao conhecimento. A formulação de Hawking se distancia do kantismo em um ponto fundamental: Kant preservava a distinção entre o fenômeno e a coisa em si, enquanto o realismo modelo-dependente coloca em questão a própria ideia de uma realidade independente dos modelos. Ao recusar qualquer acesso a uma realidade não modelada, a posição de Hawking se aproxima mais do instrumentalismo radical e do empirismo construtivo do que do criticismo kantiano. Na filosofia da ciência do século XX, a posição que mais se assemelha ao realismo modelo-dependente é o empirismo construtivo de Bas van Fraassen, exposto em The Scientific Image (1980). Van Fraassen sustenta que uma teoria científica não precisa ser verdadeira para ser aceitável; basta que seja empiricamente adequada, isto é, que salve os fenômenos observáveis. O objetivo da ciência é a adequação empírica, não a verdade sobre entidades inobserváveis. Há, porém, uma diferença decisiva entre van Fraassen e Hawking. Van Fraassen é um antirrealista epistemológico: ele afirma que não temos razão para crer na existência de entidades inobserváveis postuladas pelas teorias, mas não nega que exista uma realidade independente; simplesmente sustenta que o conhecimento dela, se existe, não é o que a ciência nos dá. Hawking, por sua vez, dá um passo adiante e faz uma afirmação ontológica: a realidade é constituída pelos modelos. Essa passagem, do agnosticismo epistemológico à tese metafísica, é exatamente o tipo de movimento que a filosofia da ciência, desde van Fraassen e desde o realismo crítico de autores como Wilfrid Sellars e Bas van Fraassen, trata com a máxima cautela.
O problema da medição na mecânica quântica tem uma história própria que é indispensável para avaliar a afirmação de Hawking de que “uma partícula não tem nem posição definida e nem velocidade definida a menos e até que essas quantidades sejam medidas por um observador”. Essa formulação é a leitura ortodoxa, associada a Niels Bohr e à escola de Copenhague, segundo a qual o formalismo quântico descreve o que podemos saber sobre um sistema e não o sistema em si. Desde os anos 1950, porém, essa leitura foi desafiada por um conjunto de interpretações rivais. David Bohm propôs, em 1952, uma interpretação em que a partícula tem, o tempo todo, uma posição definida, guiada por uma função de onda que evolui deterministicamente; a indeterminação observada decorre do desconhecimento das condições iniciais, não de uma indeterminação ontológica. Hugh Everett propôs, em 1957, a interpretação dos muitos mundos, em que todos os resultados possíveis se realizam em ramos distintos da função de onda, sem necessidade de colapso. E os teoremas de Bell, a partir de 1964, mostraram que qualquer teoria que reproduza as correlações quânticas deve ser não local, o que restringe, mas não elimina, o espaço das interpretações realistas. A literatura especializada, portanto, não apoia a afirmação de que a mecânica quântica demonstra a inexistência de propriedades definidas antes da medição; ela mostra que essa é uma interpretação, e não um fato observacional. O debate entre interpretações ψ-onticas (em que a função de onda representa o estado do mundo) e ψ-epistêmicas (em que representa nosso conhecimento), e o teorema de Pusey-Barrett-Rudolph (2012), que restringe certas leituras epistêmicas, permanecem abertos. A afirmação de Hawking, portanto, é uma interpretação entre várias, apresentada como se fosse a única leitura possível da física.
O princípio antrópico, que ocupa lugar central no capítulo 7 do livro de Hawking e no resumo de Smith, tem também uma história precisa. A ideia de que nossa existência impõe condições sobre o que podemos observar foi formulada por Robert Dicke em 1961, no artigo “Dirac’s Cosmology and Mach’s Principle” (Nature, vol. 192, pp. 440-441), em que ele argumentou que a coincidência numérica entre a idade do universo e certas constantes físicas é uma consequência do fato de que observadores só podem existir em uma época em que as condições o permitam. Brandon Carter deu ao princípio sua formulação canônica em 1974, distinguindo o princípio antrópico fraco (que seleciona nossa posição no espaço e no tempo) do princípio antrópico forte (que seleciona as próprias constantes e leis), na conferência “Large Number Coincidences and the Anthropic Principle in Cosmology”, publicada nos anais do simpósio IAU n. 63, Confrontation of Cosmological Theories with Observational Data. John Barrow e Frank Tipler sistematizaram toda a discussão em The Anthropic Cosmological Principle (Oxford University Press, 1986), obra de referência que examina tanto as formulações fraca e forte quanto as versões participatória e final. A distinção entre o princípio fraco e o forte, que Smith sublinha com precisão, é exatamente a distinção que Hawking tenta apagar ao introduzir o multiverso: o princípio fraco é uma tautologia metodológica quase trivial, enquanto o princípio forte é uma tese metafísica altamente controversa. A literatura especializada, como se verá na seção 8, trata essa passagem com enorme ceticismo.
O debate sobre a testabilidade das teorias cosmológicas especulativas, que subjaz à crítica de Smith ao multiverso, ganhou contornos explícitos na década de 2010. Em 2014, George Ellis e Joe Silk publicaram em Nature o artigo “Scientific Method: Defend the Integrity of Physics” (vol. 516, pp. 321-323, DOI 10.1038/516321a), no qual argumentaram que as tentativas de isentar teorias especulativas do universo, como a teoria das cordas e o multiverso, da verificação experimental minam a ciência. O artigo de Ellis e Silk, escrito por dois cosmólogos de primeira linha, é a expressão mais autorizada do ceticismo científico diante do tipo de argumentação que Hawking populariza. Ele será examinado em detalhe na seção 8, porque fornece o contraponto científico à objeção metafísica de Smith: não é preciso ser um metafísico tradicionalista para ver que o multiverso hawkinguiano ultrapassa as evidências disponíveis; basta ser um físico preocupado com a integridade do método.
Exame das afirmações científicas
A afinação sutil do triplo alfa
O exemplo mais concreto de “afinação sutil” que Hawking oferece, e que Smith reproduz, é o da produção de carbono pelo processo triplo alfa. A afirmação é a de que a formação de núcleos de carbono, que se dá pela colisão de três partículas alfa em estrelas gigantes vermelhas, teria probabilidade excessivamente pequena a menos que a força nuclear forte se encontrasse no âmbito de 0,5 por cento de seu valor observável, e a força elétrica no de 4 por cento. Essa afirmação se baseia nos cálculos de Heinz Oberhummer, Attila Csótó e Helmut Schlattl, publicados em 2000 no artigo “Stellar Production Rates of Carbon and Its Abundance in the Universe” (Science, vol. 289, n. 5476, pp. 88-90, DOI 10.1126/science.289.5476.88). Nesse trabalho, os autores mostraram que uma variação de ±0,5 por cento na força da interação nucleon-nucleon reduziria, por um fator de 30 a 1000, a abundância de carbono ou de oxigênio produzida no processo triplo alfa, tornando a síntese de carbono e, consequentemente, a química orgânica muito menos provável. Os mesmos autores retomaram e refinaram o resultado em “Fine-Tuning the Basic Forces of Nature Through the Triple-Alpha Process in Red Giant Stars” (Physics Letters B, 2001), e o tema foi atualizado em trabalhos posteriores, como “An Update on Fine-Tunings in the Triple-Alpha Process” (2020).
A verificação desse exemplo contra a literatura mostra que Hawking o reproduz com fidelidade essencial, embora com a simplificação inevitável da divulgação. O número de 0,5 por cento é correto e corresponde ao resultado de Oberhummer, Csótó e Schlattl. Há, porém, duas ressalvas que a literatura impõe. A primeira é que a “afinação” do triplo alfa envolve uma relação mais complexa entre as constantes físicas do que a estimativa inicial sugeria. Trabalhos posteriores, como o de Livio e colaboradores e os de outros grupos de pesquisa, identificaram regiões do espaço de parâmetros nas quais a produção de carbono permanece significativa, além de indicarem que diferentes valores das constantes fundamentais ainda poderiam permitir formas de nucleossíntese. A segunda ressalva é conceitual: mesmo que o triplo alfa seja “afinado”, a inferência de que essa afinação exige explicação antrópica ou teológica é uma inferência filosófica, não um resultado físico. A física estabelece que, para os valores observados das constantes, o carbono é produzido em abundância; ela não estabelece que esses valores sejam improváveis, pois a noção de probabilidade sobre os valores das constantes fundamentais não tem definição operacional clara fora de um contexto específico (como a paisagem da teoria de cordas). O exemplo, portanto, é cientificamente correto em sua letra, mas a conclusão que Hawking dele extrai ultrapassa aquilo que o cálculo permite afirmar.
A dimensionalidade do espaço
A segunda afirmação científica destacada por Smith é a de que “é somente em três dimensões que as órbitas elípticas estáveis são possíveis”, usada por Hawking para explicar por que nosso espaço é tridimensional. Essa afirmação remonta a Paul Ehrenfest, que em 1917 publicou o artigo “In What Way Does It Become Manifest in the Fundamental Laws of Physics that Space Has Three Dimensions?” (Proceedings of the Amsterdam Academy), em que mostrou que, para a lei do inverso do quadrado, órbitas planetárias estáveis e átomos estáveis só são possíveis em três dimensões espaciais. A razão é geométrica: em n dimensões espaciais, o potencial newtoniano ou coulombiano varia como o inverso da potência (n−2) da distância, e a estabilidade das órbitas fechadas exige n = 3. Para n > 3, as órbitas são instáveis e os átomos não podem existir de forma estável; para n < 3, o comportamento é qualitativamente diferente (em duas dimensões, o potencial é logarítmico). O resultado de Ehrenfest é um clássico da física matemática e é citado, até hoje, na literatura sobre a dimensionalidade do espaço, como no artigo de revisão “On the Physical Problem of Spatial Dimensions: An Alternative Procedure to Stability Arguments” (2012).
A verificação mostra que Hawking reproduz o resultado de Ehrenfest com fidelidade. Há, porém, uma ressalva importante que a literatura levanta. Craig Callender, em “The ‘Proofs’ of the Tri-Dimensionality of Space” (2005), examinou criticamente os argumentos que pretendem “provar” a tridimensionalidade do espaço a partir da física, e mostrou que eles dependem de pressupostos que não são obrigatórios, em particular da forma específica da lei de força e da definição de estabilidade. O argumento de Ehrenfest mostra que, sob certas condições, a vida como a conhecemos exige três dimensões; ele não mostra que o espaço não poderia ter outra dimensionalidade em outras condições, nem que a tridimensionalidade é necessária em sentido absoluto. Além disso, a teoria de cordas, que Hawking invoca para fundamentar o multiverso, postula dez ou onze dimensões, das quais seis ou sete seriam compactificadas; a tridimensionalidade observada seria, nesse quadro, uma propriedade da compactificação, não uma necessidade. A afirmação de Hawking, portanto, é correta como resultado físico condicional, mas a conclusão que ele extrai, de que a tridimensionalidade é “explicada” pelo princípio antrópico, é uma inferência que a literatura não endossa de modo unânime, e que depende da aceitação prévia do multiverso.
A teoria M e o número 10⁵⁰⁰
A afirmação central do livro de Hawking, e o alvo principal da crítica de Smith, é a teoria M e o multiverso de 10⁵⁰⁰ universos. A verificação contra a literatura é especialmente delicada neste ponto, porque a teoria M ainda se encontra em desenvolvimento e não possui a formulação completa de uma teoria física acabada, como o próprio Hawking reconhece. A proposta de teoria M ganhou forma com o trabalho de Edward Witten, “String Theory Dynamics in Various Dimensions”, publicado em 1995 (Nuclear Physics B, vol. 443, pp. 85-126), no qual a relação entre as cinco teorias de supercordas e a supergravidade em onze dimensões aparece como indício de uma estrutura mais fundamental, ainda sem uma formulação completa. A afirmação de que a teoria M tem onze dimensões é correta no sentido da supergravidade maximal, mas o conteúdo físico da teoria M permanece em grande parte conjectural; não há, até hoje, uma formulação completa e não perturbativa da teoria, e muitos físicos a consideram um programa em aberto, não um resultado estabelecido.
O número 10⁵⁰⁰, que Hawking apresenta como o número de universos possíveis, é uma estimativa heurística do número de vácuos da “paisagem” da teoria de cordas, não um resultado demonstrado. A estimativa foi popularizada por Leonard Susskind, em “The Anthropic Landscape of String Theory” (2003), e por Michael Douglas, e decorre de estimativas do número de configurações de fluxos e de compactificações de variedades de Calabi-Yau. A literatura especializada trata esse número com enorme cautela: estimativas mais recentes variam em muitas ordens de grandeza, e alguns autores, como Tom Banks, Michael Dine e outros, argumentaram que a própria noção de paisagem é problemática, havendo inclusive quem a considere uma “fantasia”, como no artigo “The Top Reasons Not to Believe in the String Landscape” (2024). O número 10⁵⁰⁰ representa uma estimativa associada a um programa teórico ainda em desenvolvimento, e não uma quantidade estabelecida pela física. Quando Hawking o apresenta como o número de universos que “existem”, transforma uma conjectura matemática acerca dos possíveis vácuos da teoria em uma afirmação sobre a realidade física. É precisamente essa passagem, da estrutura matemática de uma teoria para uma afirmação ontológica, que Smith procura questionar.7.4 A criação a partir do nada
A afirmação de Hawking de que “inúmeros universos foram criados a partir do nada” e de que “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada” é a que mais diretamente confronta a metafísica de Smith. A verificação científica dessa afirmação exige distinguir duas coisas. Por um lado, existe a cosmologia quântica, que propõe condições de fronteira para o universo sem um momento inicial singular: a proposta do no-boundary de James Hartle e Stephen Hawking (1983), publicada em “Wave Function of the Universe” (Physical Review D, vol. 28, pp. 2960-2975), e o modelo de tunelamento de Alexander Vilenkin (1982, “Creation of Universes from Nothing”, Physics Letters B, vol. 117, pp. 25-28; e 1984, “Quantum Creation of Universes”, Physical Review D, vol. 30, pp. 509-511). Essas propostas são programas de pesquisa em cosmologia quântica, com problemas matemáticos e físicos não resolvidos e a própria literatura registra dificuldades, como as apontadas nos artigos sobre as inconsistências do no-boundary. Por outro lado, existe a interpretação metafísica de que essas condições de fronteira equivalem à criação “a partir do nada” no sentido filosófico e teológico. Essa equiparação é altamente contestada: o “nada” da cosmologia quântica é uma condição de fronteira matemática (a ausência de uma fronteira inicial no espaço-tempo euclidiano, ou o vácuo quântico), não o “nada” absoluto da tradição metafísica, que é a ausência de todo ser. A literatura filosófica sobre o tema, incluindo os debates sobre a criação ex nihilo, insiste nessa distinção. A afirmação de Hawking, portanto, mistura uma conjectura científica (a condição de fronteira do no-boundary) com uma tese metafísica (a criação do nada), sem justificar a passagem de um nível ao outro.
A escolha postergada e a retrocausalidade
A afirmação de Hawking de que “as observações que fazemos em um sistema no presente afetam o seu passado” e de que o universo “não tem um só passado, uma só história” se apoia nos experimentos de escolha postergada, concebidos por John Archibald Wheeler e realizados experimentalmente. O experimento de escolha postergada de Wheeler, e sua versão com apagador quântico (quantum eraser), foi realizado por diversos grupos, incluindo o experimento de Jacques e colaboradores, publicado em 2007 em Science (“Experimental Realization of Wheeler’s Delayed-Choice Gedanken Experiment”, vol. 315, pp. 966-968, DOI 10.1126/science.1136303), e o experimento com um único átomo de Manning e colaboradores (Nature Physics, 2015). Esses experimentos confirmam, de maneira notável, as previsões da mecânica quântica sobre a complementaridade onda-partícula e a dependência do resultado da escolha do aparato de medição.
A interpretação desses experimentos, porém, é objeto de debate. A leitura “retrocausal”, segundo a qual a escolha presente altera o passado, é uma interpretação entre várias, e não a única aceita. A literatura inclui análises que mostram que os experimentos de escolha postergada podem ser descritos sem retrocausalidade, em termos de correlações quânticas e de preparação do estado, como no modelo clássico do apagador quântico de escolha postergada (Physical Review A, 2021) e nas análises em tempo direto (forward time). A extensão que Hawking faz dessa situação à totalidade do universo, afirmando que “nossas observações de seu estado atual afetam o seu passado e determinam as diferentes histórias do universo”, é uma extrapolação cosmológica de um resultado de laboratório, e a literatura não a endossa como conclusão estabelecida. A cosmologia top-down de Hawking permanece uma proposta especulativa, dependente de confirmação empírica. O próprio Hawking reconhece essa condição ao afirmar que medições mais precisas “são necessárias para diferenciar totalmente a teoria que vai de cima a baixo das demais”.
Determinismo, livre arbítrio e neurociência
A afirmação de Hawking de que “nada somos senão máquinas biológicas e que o livre arbítrio é somente uma ilusão”, apoiada na alegação de que “experimentos recentes de neurociência sustentam a visão de que é o nosso cérebro físico, obedecendo às leis conhecidas da ciência, que determina nossas ações”, merece exame cuidadoso, porque combina uma tese física (o determinismo), uma tese filosófica (o incompatibilismo) e uma alegação empírica (a neurociência da volição). A alegação empírica remonta aos experimentos de Benjamin Libet (1985), que sugeriram que um potencial de prontidão precede, em frações de segundo, a consciência da intenção de agir. Esses experimentos foram, porém, objeto de intensa crítica metodológica e conceitual, e trabalhos posteriores, como o de Aaron Schurger e colaboradores (2012, “Accumulation of Neural Activity Precedes the Onset of Movement Initiation”, PNAS, vol. 109, pp. E1670-E1677), mostraram que o potencial de prontidão pode ser explicado como o acúmulo estocástico de flutuações neurais, sem implicar que a decisão consciente seja uma ilusão. A literatura filosófica sobre o livre arbítrio, sintetizada em obras como o Oxford Handbook of Free Will (organizado por Robert Kane) e o livro de Christian List, Why Free Will Is Real (2019), distingue cuidadosamente o determinismo físico, o compatibilismo e o incompatibilismo, e mostra que a mera verdade do determinismo, se fosse estabelecida, não implicaria a inexistência do livre arbítrio, a menos que se adote um incompatibilismo que a neurociência não demonstra. A afirmação de Hawking, portanto, é uma posição filosófica apresentada como consequência científica, e a literatura não a sustenta como resultado estabelecido.
Confrontação com a literatura científica contemporânea
A confrontação das afirmações de Hawking, e das críticas de Smith, com a literatura contemporânea pode ser organizada em torno de três eixos: a testabilidade do multiverso, o estatuto interpretativo da mecânica quântica e a legitimidade da passagem do científico ao metafísico.
O primeiro eixo é o mais documentado. A crítica à testabilidade do multiverso e da teoria de cordas é amplamente representada na literatura especializada. O artigo de Ellis e Silk (2014) já mencionado é o marco dessa discussão: os autores argumentam que a defesa de teorias não testáveis, como o multiverso, sob o pretexto de que são “elegantes” ou “explicativas”, ameaça a demarcação entre ciência e especulação. Essa crítica é ecoada por físicos como Lee Smolin (The Trouble with Physics, 2006), Peter Woit (Not Even Wrong, 2006) e Sabine Hossenfelder (Lost in Math, 2018), e por filósofos da ciência como Richard Dawid, que em String Theory and the Scientific Method (2013) defende, contra Ellis e Silk, que a teoria de cordas pode ser avaliada por critérios não empíricos (a “confiança sem confirmação empírica” baseada na ausência de alternativas e na coerência interna). O debate entre Ellis e Silk, de um lado, e Dawid e os defensores da teoria de cordas, de outro, é apresentado com equilíbrio na literatura, e mostra que não há consenso sobre a testabilidade do multiverso. O que há é um consenso robusto de que o multiverso hawkinguiano, como apresentado no livro de divulgação, não é uma teoria testada, e que as afirmações ontológicas que dele Hawking extrai (a criação do nada, a seleção das leis) ultrapassam o que a física estabelece. Nesse ponto, a crítica de Smith converge com a crítica de Ellis e Silk, ainda que parta de pressupostos metafísicos que Ellis e Silk não compartilham.
O segundo eixo diz respeito ao estatuto interpretativo da mecânica quântica. A afirmação de Hawking de que a partícula não tem propriedades definidas antes da medição é uma interpretação, não um fato. A literatura sobre interpretações da mecânica quântica é vasta e inclui, além da interpretação de Copenhague, a interpretação de Bohm, os muitos mundos de Everett, as teorias de colapso objetivo (como a de Ghirardi-Rimini-Weber), e as leituras relacional e de decoerência. O problema da medição é formulado com precisão por Tim Maudlin em “Three Measurement Problems” (Topoi, 1995) e por John Bell em “Against Measurement” (1990), e o debate entre interpretações ψ-onticas e ψ-epistêmicas é examinado, entre outros, por Nicholas Landsman na entrada “The Measurement Problem” da Stanford Encyclopedia of Philosophy. A literatura mostra que a mecânica quântica, enquanto formalismo, é compatível com múltiplas interpretações, e que a escolha entre elas é, em parte, uma decisão filosófica. A crítica de Smith a Hawking, nesse ponto, é metodologicamente sólida: Hawking apresenta uma interpretação particular como se fosse a única leitura possível, e a literatura não apoia essa exclusividade. Smith, por sua vez, propõe sua própria interpretação (a causalidade vertical), que é filosoficamente coerente mas não é testável, o que a coloca no mesmo plano das interpretações metafísicas que ele critica em Hawking, ainda que em direção oposta.
O terceiro eixo é a legitimidade da passagem do nível científico ao nível metafísico. Tanto Hawking quanto Smith operam essa passagem, em direções opostas. Hawking passa da física (a cosmologia quântica, a teoria M) à metafísica (a criação do nada, a negação de uma realidade independente, a negação do livre arbítrio) sem justificar a transição. Smith passa da física (o problema da medição) à metafísica (a causalidade vertical, a hierarquia dos níveis de ser) também sem justificar plenamente a transição, ainda que o faça com consciência explícita de que está operando em um nível diferente. A literatura filosófica sobre a relação entre ciência e metafísica, desde a crítica de Kant à metafísica dogmática até o naturalismo metafísico contemporâneo, oferece critérios para avaliar essas passagens, mas não há consenso sobre onde traçar a linha. A posição de Hawking encontra defesa justamente nesse ponto: sua argumentação parte dos recursos conceituais disponíveis na física contemporânea e procura extrair deles consequências acerca da estrutura da realidade, sem que isso implique necessariamente uma demonstração metafísica em sentido estrito. A afirmação de que a filosofia perdeu sua função tradicional dirige-se à filosofia especulativa, enquanto a utilização de conceitos filosóficos em The Grand Design decorre da tentativa de interpretar as consequências conceituais da cosmologia contemporânea.
As afirmações científicas de Hawking que Smith destaca são, em sua letra, em grande parte corretas: o triplo alfa é de fato sensível a variações das constantes, a tridimensionalidade do espaço é de fato favorecida pelo argumento de Ehrenfest, a teoria M é de fato um programa de onze dimensões, os experimentos de escolha postergada existem e confirmam a mecânica quântica. O que a literatura não sustenta são as extrapolações: o número 10⁵⁰⁰ como número de universos existentes, a equiparação da condição de fronteira quântica ao “nada” filosófico, a extensão da escolha postergada à totalidade do universo, e a derivação da inexistência do livre arbítrio a partir de experimentos de neurociência. Em cada um desses pontos, a crítica de Smith, ainda que formulada em linguagem metafísica, identifica uma passagem real e não justificada do nível científico ao nível metafísico e nisso ela encontra apoio na literatura especializada, sobretudo na crítica de Ellis e Silk à testabilidade do multiverso. A diferença é que Smith, ao contrário de Ellis e Silk, não se limita a pedir mais rigor científico; ele propõe uma metafísica alternativa, e é essa proposta que será examinada nas linhas seguintes.
Análise das fontes científicas utilizadas por Smith e por Hawking
O sumário de Smith apresenta uma paráfrase de Hawking acompanhada, ao longo do texto, por uma série de citações com indicação de página, e é sobre essas citações que recai, em primeiro lugar, a verificação de fidelidade. O exame dessa camada intermediária é indispensável, pois uma crítica pode falhar por duas razões distintas: atribuir ao autor criticado teses que ele não sustenta ou aceitar como fiel uma exposição que já distorce o texto original. Smith, ao transcrever Hawking pedaço por pedaço, oferece ao leitor a possibilidade de controlar a segunda falha; resta verificar a primeira.
A citação mais carregada de consequências é a que abre o resumo: “a filosofia está morta. Ela não se manteve a par dos desenvolvimentos modernos da ciência, especialmente da física. Os cientistas se tornaram os portadores da tocha da descoberta em nossa busca pelo conhecimento” (Hawking e Mlodinow, 2010, p. 5). A frase é fiel ao original inglês e aparece no primeiro capítulo e Smith faz bem em conservá-la, porque ela estabelece o tom de todo o livro. Mas é preciso notar que a frase é retoricamente mais forte do que programaticamente informativa. Hawking e Mlodinow apresentam a morte da filosofia como uma conclusão estabelecida, dentro de um livro que, sem reconhecê-lo explicitamente, adota uma concepção particular de filosofia da ciência. A objeção que Smith deixa implícita e que a literatura filosófica contemporânea desenvolve de maneira explícita, consiste no caráter filosófico da própria afirmação de que “a filosofia está morta”. Sua defesa exige instrumentos conceituais pertencentes ao mesmo campo que a afirmação pretende declarar obsoleto. Surge, desse modo, uma dificuldade autorreferencial clássica, registrada pela literatura sobre as relações entre ciência e filosofia desde os debates entre o positivismo lógico e seus críticos.
A segunda citação a examinar é a do determinismo laplaciano. Hawking formula o princípio nos seguintes termos: “dado o estado do universo em um determinado momento, um conjunto completo de leis determina totalmente tanto o futuro quanto o passado”. A formulação é uma paráfrase defensável do famoso passo do Essai philosophique sur les probabilités de Pierre-Simon Laplace (1814), em que o autor imagina uma inteligência capaz de abarcar todas as forças da natureza e todas as posições dos seres, para quem “nada seria incerto” e “o futuro, como o passado, estaria presente aos seus olhos”. Há, contudo, uma diferença que a divulgação apaga: o determinismo de Laplace era, antes de tudo, uma tese sobre a previsibilidade ideal e sobre a estrutura da explicação científica, formulada em um contexto em que a mecânica celeste era o modelo de toda ciência. A transformação desse princípio metodológico em uma tese ontológica sobre o universo, e a extensão dessa tese ao comportamento humano, são operações que Hawking realiza sem sinalizar a mudança de estatuto. O próprio Smith registra o encadeamento, ao notar que Hawking passa do determinismo universal à conclusão de que “não existe algo chamado livre arbítrio”, e a passagem merece atenção, pois ela antecipa o padrão que se repetirá no tratamento da mecânica quântica e do princípio antrópico.
A citação de Feynman, por sua vez, merece exame detido, porque envolve uma atribuição a um autor científico de primeira grandeza e porque o próprio Smith a destaca. Hawking, ao comentar a aleatoriedade fundamental da mecânica quântica, cita Feynman: “Penso que posso dizer, com segurança, que ninguém entende a mecânica quântica”. A frase é autêntica e provém das Messenger Lectures proferidas por Feynman na Universidade Cornell em 1964 e publicadas como The Character of Physical Law (1965), na sexta conferência, dedicada à probabilidade e à incerteza. Há, porém, um risco de uso retórico nessa citação. Feynman empregava a frase para sublinhar que a mecânica quântica desafia a intuição e que o formalismo funciona sem que se disponha de uma imagem clássica correspondente; ele não a empregava para concluir que a interpretação ortodoxa é a única possível, nem para inferir a inexistência de propriedades definidas antes da medição. A citação, retirada de seu contexto, favorece uma interpretação que atribui a Feynman uma posição que ele não sustentava. O exame do original mostra que sua humildade epistemológica era compatível com a recusa de encerrar a questão interpretativa. Smith, ao registrar a frase sem comentá-la, deixa ao leitor a tarefa de perceber esse deslocamento.
A referência a Einstein é feita duas vezes e em direções opostas. Na primeira, Smith observa que Hawking “rompe com seu antecessor, Albert Einstein”, porque nega que exista uma “teoria última” no sentido tradicional. O ponto é bem colocado, mas exige precisão. Einstein dedicou as últimas três décadas de sua vida à busca de uma teoria de campo unificada que abarcasse o eletromagnetismo e a gravitação, e sua objeção à mecânica quântica, expressa na correspondência com Max Born e condensada na fórmula segundo a qual “Deus não joga dados”, era a de que a teoria quântica, tal como formulada, é incompleta, e não a de que exista um limite para a física. Hawking, por sua vez, aceita a mecânica quântica como completa em seu domínio e renuncia à ideia de uma teoria única em favor de uma rede de teorias. A ruptura que Smith assinala é real mas não é a ruptura entre dois realismos; é a ruptura entre um realismo que confia na unidade final da física e uma posição que abandona essa confiança em nome da coerência com o formalismo quântico. A distinção importa, porque Smith tende a apresentar Hawking como o adversário do realismo de Einstein, quando o que está em jogo é a substituição de um ideal de unificação por um ideal de adequação local.
A referência a Laplace já foi comentada. Resta a referência implícita a Wheeler, cujo experimento de escolha postergada Hawking invoca sem nomear no trecho traduzido, e a referência a Dicke, citada por Hawking e reproduzida por Smith. Quanto a Wheeler, cabe observar que a interpretação “retrocausal” da escolha postergada é uma leitura que o próprio Wheeler sugeriu com cautela, e a literatura experimental posterior, incluindo o experimento de Jacques e colaboradores publicado em Science (2007, vol. 315, pp. 966-968, DOI 10.1126/science.1136303), confirma a previsão quântica sem estabelecer a retrocausalidade como mecanismo físico, havendo análises que descrevem os mesmos resultados sem qualquer influência do presente sobre o passado. Quanto a Dicke, a atribuição é correta: sua contribuição de 1961, publicada em Nature (vol. 192, pp. 440-441), antecipou o argumento de que a idade do universo observável é limitada pelas condições necessárias à existência de observadores e essa é precisamente a primeira formulação do que Carter chamaria, em 1974, de princípio antrópico fraco. A fidelidade de Smith é exemplar: ele não inventa nem exagera a atribuição, e a verificação confirma o que ele apresenta.
Uma observação final sobre o uso das fontes diz respeito à assimetria entre o cuidado de Smith e a desenvoltura de Hawking. Smith cita páginas, preserva a ordem dos capítulos, distingue o resumo da crítica e, na medida em que o trecho permite julgar, não atribui a Hawking nada que Hawking não afirme. Hawking, ao contrário, transita entre a física e a metafísica sem sinalizar as passagens, cita Feynman e Einstein fora de contexto, apresenta uma interpretação da mecânica quântica como se fosse a leitura neutra do formalismo, e trata conjecturas de programas em aberto, como a teoria M e o multiverso, como resultados em vias de confirmação. A comparação bibliográfica não decide o mérito das teses, mas estabelece a quem cabe, neste debate particular, o ônus da precisão.
Problemas conceituais
A crítica conceitual exige que se distingam as ambiguidades que atravessam o texto de Hawking, e que Smith explora, das ambiguidades que atravessam a própria contraproposta de Smith, e que a presente investigação deve examinar com o mesmo rigor.
O conceito de “modelo” é o primeiro a vacilar. No realismo modelo-dependente, “modelo” designa ora uma construção matemática com regras de conexão às observações, ora uma imagem mental produzida pelo cérebro a partir dos sinais sensoriais, ora a própria percepção cotidiana da mesa e das cadeiras. A extensão do termo a esses três domínios é o que permite a Hawking tratar o relato bíblico da criação e a cosmologia do big bang como dois “modelos” comparáveis, dos quais o segundo é “mais útil” mas não “mais real”. Ora, a comparação só se sustenta se “modelo” tiver o mesmo sentido nos dois casos, e é precisamente isso que não ocorre: a cosmologia do big bang é um corpo de equações com previsões quantitativas, enquanto o relato bíblico é um texto narrativo pertencente a outra ordem de discurso. Ao colocá-los lado a lado sob o mesmo conceito, Hawking desloca a discussão do terreno da adequação empírica para o terreno da utilidade pragmática e o faz sem que o deslocamento seja justificado. Trata-se de uma ambiguidade conceitual com consequências ontológicas, e é essa ambiguidade que sustenta a passagem, denunciada por Smith, da física à metafísica.
O conceito de “existência” sofre um deslocamento correlato. Quando Hawking responde que a mesa continua no mesmo lugar porque esse modelo “é muito mais simples e está de acordo com a observação”, e que “isso é tudo o que podemos desejar como resposta”, ele converte a existência em uma função da simplicidade e do ajuste empírico. O problema lógico é que a simplicidade e a adequação empírica são propriedades de modelos, e a inferência de que algo existe a partir da simplicidade de um modelo pressupõe que a simplicidade seja um guia para a realidade, pressuposto que o realismo modelo-dependente, levado a sério, não pode admitir sem circularidade. Se os modelos constituem a realidade, então a existência da mesa não pode ser inferida da simplicidade do modelo da mesa; ela é, no máximo, uma posição interna ao modelo. Hawking oscila entre uma leitura internalista, em que “existe” significa “é postulado pelo modelo mais simples”, e uma leitura externalista residual, em que a mesa realmente continua lá quando ninguém a observa. A oscilação é o nervo da questão, e Smith tem razão em apontá-la, ainda que a formulação mais rigorosa dessa objeção se encontre na literatura sobre o realismo científico, e não nos tradicionalistas.
O conceito de “nada” é o ponto em que a formulação de Hawking enfrenta sua dificuldade mais grave. A afirmação final segundo a qual “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada” repousa sobre a equiparação entre o “nada” empregado na cosmologia quântica e o “nada” absoluto da tradição metafísica. No contexto da cosmologia quântica, porém, o termo designa uma condição de contorno. No modelo no-boundary, proposto por James Hartle e Stephen Hawking (1983, Physical Review D, vol. 28, pp. 2960-2975, DOI 10.1103/PhysRevD.28.2960), o universo é descrito por uma função de onda definida sobre geometrias euclidianas sem uma fronteira inicial. No modelo de tunelamento desenvolvido por Alexander Vilenkin (1982, Physics Letters B, vol. 117, pp. 25-28, DOI 10.1016/0370-2693(82)90866-8; 1984, Physical Review D, vol. 30, pp. 509-511, DOI 10.1103/PhysRevD.30.509), o universo surge por tunelamento a partir de um estado de vácuo.
Em ambos os casos, o “nada” designa a ausência de uma configuração espaço-temporal anterior, enquanto o vácuo quântico permanece uma entidade física dotada de estrutura e sujeita a flutuações. A linguagem cosmológica, portanto, emprega a palavra “nada” em um sentido técnico que difere radicalmente da ausência absoluta de ser. A tradição metafísica estabeleceu justamente essa distinção ao separar o nada absoluto do ser em potência e do caos informe. Atribuir o mesmo significado aos dois usos introduz uma equivocidade conceitual no argumento de Hawking.
Smith identifica esse problema, e a mesma dificuldade aparece, por caminhos inteiramente distintos, nos trabalhos de filósofos da cosmologia que não compartilham sua metafísica. A convergência dessa crítica em tradições filosóficas diferentes reforça a relevância do problema conceitual levantado por Smith.
O conceito de “lei” é o quarto a exigir exame. Hawking fala de “leis aparentes da natureza”, determinadas pela configuração do espaço interno, e de “leis mais fundamentais” da teoria M. A distinção pressupõe que existam dois níveis de legalidade, um derivado e um fundamental, e que o segundo explique o primeiro. A noção de “lei” na física é descritiva: uma lei expressa uma regularidade em linguagem matemática, sem constituir uma prescrição que obrigue o mundo a comportar-se de determinada maneira. Hawking, ao tratar as leis aparentes como efeitos das leis fundamentais, reintroduz uma concepção quase nomotética, na qual as leis assumem o caráter de entidades que governam. A ambiguidade entre o sentido descritivo e o sentido prescritivo da palavra “lei” atravessa todo o livro e sustenta, em parte, a metáfora do “grande projeto”, que pressupõe um projeto e, por conseguinte, um projetista, cuja existência o livro nega. O problema é o de uma tensão interna entre a metáfora e a tese, e Smith a explora ao sublinhar a ressonância teológica do título.
Do lado de Smith, os conceitos também requerem vigilância. A “causalidade vertical” é definida por contraste com a causalidade horizontal, mas o contraste não é suficiente para fixar seu conteúdo. Se a causalidade vertical é a produção de um efeito físico por uma causa não física, e se essa produção não ocorre no espaço e no tempo, o conceito enfrenta a objeção clássica de que uma causa que não opera por mediação alguma é indistinguível de uma simples correlação inexplicada. Smith responde, em seus trabalhos maduros, que a causalidade vertical é apreendida por analogia com o ato de conhecimento, em que o sujeito produz um efeito no mundo sem que esse efeito seja redutível a um processo material; a resposta é filosoficamente respeitável, mas depende de uma teoria da ação e do conhecimento que ela mesma requer demonstração. O conceito de “planos ontológicos” ou “níveis de realidade” apresenta dificuldade análoga: se os planos se distinguem por graus de ser, a relação entre um plano e outro precisa ser especificada, e a metáfora da hierarquia não substitui a análise da dependência ontológica. A tradição à qual Smith se filia dispõe de instrumentos sofisticados para tratar essas questões, herdados de Proclo, do Pseudo-Dionísio e de Tomás de Aquino; a questão é se Smith os mobiliza com o rigor que eles exigem ou se os emprega como rótulos.
Problemas epistemológicos
O problema epistemológico central, tanto no livro de Hawking quanto na crítica de Smith, é o da demarcação entre ciência e especulação. A posição que Hawking herda, sem nomeá-la, é a de Karl Popper, cujo critério de falseabilidade é introduzido no livro, ironicamente, entre os quatro critérios de avaliação de teorias que o próprio Hawking enumera no capítulo 3: uma boa teoria “faz previsões detalhadas acerca de observações futuras que possam refutar ou falsear o modelo caso não sejam confirmadas” (Hawking e Mlodinow, 2010, p. 51). O critério é apresentado como um entre quatro, ao lado da elegância, da parcimônia e da adequação aos dados, e essa apresentação revela o problema: se a falseabilidade é apenas um critério entre outros, então uma teoria que não faça previsões refutáveis pode ainda ser considerada boa por sua elegância ou por sua economia de parâmetros ajustáveis. E é precisamente esse o argumento que os defensores do multiverso e da teoria de cordas utilizam. Richard Dawid, em String Theory and the Scientific Method (Cambridge University Press, 2013), sistematizou essa defesa sob o nome de “avaliação de teoria não empírica”, sustentando que a teoria de cordas possui virtudes epistêmicas: ausência de alternativas, coerência interna e fecundidade, que justificam a confiança racional mesmo na ausência de confirmação experimental. A posição de Dawid é respeitável, e não deve ser apresentada como um sofisma; ela expressa uma transformação real das práticas de justificação na física teórica contemporânea.
Contra essa posição, e no mesmo registro estritamente científico, ergue-se a crítica de George Ellis e Joe Silk, publicada em 2014 na Nature (vol. 516, pp. 321-323, DOI 10.1038/516321a), já mencionada. Ellis e Silk sustentam que a tentativa de isentar teorias especulativas do teste experimental ameaça a integridade da física, e propõem que os critérios popperianos sejam reinstaurados como condição de demarcação. O debate entre as duas posições, documentado e equilibrado na literatura, mostra que não há consenso sobre onde traçar a fronteira. O ponto que interessa à presente investigação é mais estreito: qualquer que seja a posição adotada sobre a testabilidade da teoria de cordas e do multiverso, é indefensável apresentar como resultado estabelecido o que a própria discussão classifica como conjectura. Hawking escreve que “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada” e que “teremos descoberto o grande projeto”, sem indicar que se trata de uma consequência condicional de um programa em aberto. A questão, portanto, consiste em saber se o multiverso é apresentado por Hawking com as qualificações que a própria comunidade científica impõe. À luz da literatura, a resposta é negativa.
Há um segundo problema epistemológico, mais técnico e mais interessante, que diz respeito à lógica da inferência antrópica. O argumento de Hawking, em sua forma mais simples, é o seguinte: a afinação das constantes é improvável; se existem muitos universos com constantes variáveis, algum universo afinado deve existir; logo, nossa existência não é surpreendente. Ian Hacking, em artigo publicado na Mind (vol. 96, 1987, pp. 331-340), identificou nesse tipo de inferência uma falácia que chamou de “falácia do jogador invertida”: a suposição de que a existência de muitos universos (ou de muitas jogadas anteriores) torna mais provável o resultado observado, quando o resultado observado é justamente aquilo que se estava tentando explicar. John Leslie, em trabalhos dos anos 1980, defendeu a inferência antrópica contra essa objeção, argumentando que, em certas condições, a multiplicidade de universos pode efetivamente aumentar a probabilidade de que exista um observador. Roger White, em “Fine-Tuning and Multiple Universes” (Noûs, vol. 34, n. 2, 2000, pp. 260-276), examinou extensamente o debate e concluiu que a inferência do ajuste fino para o multiverso enfrenta dificuldades sérias de justificação. O estado da questão, portanto, é de controvérsia legítima e Smith tem razão em recusar a evidência que Hawking apresenta como decisiva, ainda que sua própria recusa se apoie em premissas metafísicas que os participantes desse debate não compartilham. A conclusão honesta é que o argumento antrópico de Hawking não é demonstrativo: ele é uma inferência plausível sob certos pressupostos, e sua força depende de premissas que não são empíricas, em particular da existência efetiva de um mecanismo gerador de universos com distribuição de probabilidade bem definida.
A essa dificuldade soma-se o que a literatura chama de “problema da medida” (measure problem) na cosmologia inflacionária eterna. Se o multiverso contém infinitos universos, a probabilidade de qualquer evento é dada pela razão entre conjuntos infinitos e essa razão não é definida sem uma medida de probabilidade especificada. Alan Guth, um dos autores da teoria inflacionária, discutiu o problema em trabalhos como “Eternal Inflation and Its Implications” (Journal of Physics A, vol. 40, 2007, pp. 6811-6826), e a literatura subsequente não o resolveu. Ora, se a probabilidade não é definida, a inferência antrópica perde o sentido matemático: não se pode dizer que nosso universo é “improvável” ou “provável” em relação a um conjunto cuja medida não existe. Esse é um problema interno à física, reconhecido pelos próprios especialistas, e é anterior a qualquer discussão metafísica. Sua existência mostra que a fragilidade do argumento de Hawking não depende da posição de Smith sobre a natureza do ser; ela é visível do interior da própria ciência.
Um terceiro problema epistemológico diz respeito ao estatuto da interpretação na mecânica quântica e é aquele em que a crítica de Smith se mostra mais promissora, ainda que precise ser reformulada em termos que a literatura reconheça. Quando Hawking escreve que “uma partícula não tem nem posição definida e nem velocidade definida a menos e até que essas quantidades sejam medidas por um observador”, ele apresenta como consequência do formalismo aquilo que é uma interpretação do formalismo. A distinção é hoje objeto de uma literatura técnica considerável. O teorema de Bell (1964) e as experiências de violação das desigualdades de Bell mostraram que nenhuma teoria de variáveis ocultas locais pode reproduzir as correlações quânticas, o que exclui a interpretação realista mais simples, mas não exclui o realismo em geral: a interpretação de Bohm (1952) mantém posições definidas ao custo da não localidade, e as teorias de colapso objetivo, como a de Ghirardi, Rimini e Weber, modificam a dinâmica. O debate entre estados ψ-ônticos e ψ-epistêmicos, relançado pelo teorema de Pusey, Barrett e Rudolph (Nature Physics, vol. 8, 2012, pp. 475-478), restringe as leituras puramente epistemológicas, mas não estabelece a leitura que Hawking adota. A formulação do problema da medição encontra-se, entre outros, em Tim Maudlin, “Three Measurement Problems” (Topoi, vol. 14, 1995, pp. 7-15), e em John Bell, “Against ‘Measurement’” (Physics World, vol. 3, n. 8, 1990, pp. 33-40). O ponto que interessa é simples: a afirmação de que a partícula não tem propriedades definidas antes da medição é uma tese interpretativa disputada e a apresentação que Hawking faz dela como leitura neutra da física é um erro de estatuto, ainda que Hawking esteja em boa companhia entre os físicos que adotam a ortodoxia de Copenhague.
Note-se, por fim, que a contraproposta de Smith padece, do lado oposto, de dificuldade simétrica. Se a interpretação de Copenhague não é imposta pelo formalismo, a interpretação da causalidade vertical também não o é. A diferença, favorável à posição de Hawking, está justamente no estatuto epistemológico de cada proposta. Smith reconhece que sua causalidade vertical pertence ao domínio interpretativo, mas essa distinção enfraquece sua crítica quando ele a utiliza para questionar uma explicação científica por não oferecer o mesmo tipo de fundamentação metafísica. A causalidade vertical, tal como Smith a formula, também carece de um procedimento independente de verificação empírica e permanece vinculada a pressupostos metafísicos específicos. Hawking, por sua vez, trabalha dentro de modelos físicos que formulam hipóteses matemáticas, estabelecem consequências observáveis e admitem, em princípio, confronto com dados. A diferença decisiva, portanto, favorece o argumento científico: enquanto Smith introduz uma estrutura causal que transcende os procedimentos de teste da ciência, Hawking procura estender a explicação cosmológica a partir de teorias físicas submetidas aos critérios próprios da investigação científica. O desacordo central reside, então, menos na existência de interpretações metafísicas e mais na justificativa para atribuir a uma delas autoridade cognitiva superior àquela oferecida pelos métodos científicos.
Do lado de Hawking, a análise epistemológica identifica três fragilidades: a apresentação de conjecturas de programas em aberto como resultados, a inferência antrópica que depende de premissas não empíricas e enfrenta o problema da medida, e a conversão de uma interpretação disputada da mecânica quântica em leitura neutra do formalismo. Do lado de Smith, a análise identifica uma fragilidade simétrica: a substituição de uma metafísica por outra, sem que a substituta disponha de critérios de verificação que a primeira não possuísse. O saldo, até aqui, favorece uma distinção importante: quando Smith exige de Hawking o cumprimento dos critérios de rigor adotados pela própria física, sua crítica encontra respaldo independente na literatura especializada. Quando passa a propor uma alternativa metafísica fundada em pressupostos próprios, porém, a força de sua objeção diminui, pois a causalidade vertical e os princípios metafísicos que a sustentam também permanecem fora dos procedimentos de verificação empregados pela ciência. Nesse ponto, Hawking conserva uma vantagem epistemológica: sua proposta permanece vinculada a modelos físicos formulados matematicamente e sujeitos, em princípio, ao confronto com a experiência, enquanto a alternativa de Smith depende de uma concepção metafísica cuja validade exige uma justificativa de outra ordem.
Problemas metafísicos
A passagem do nível científico ao nível metafísico é o lugar onde tanto Hawking quanto Smith tomam decisões que nenhum experimento pode sancionar. Convém examinar essas decisões separadamente nos dois autores, pois a simetria formal entre elas não implica simetria de estatuto argumentativo.
Do lado de Hawking, a tese metafísica fundamental é apresentada como se fosse consequência da física: não existe realidade independente de modelos. A tese tem duas leituras possíveis e a ambiguidade entre elas atravessa todo o livro. Na leitura fraca, ela afirma que todo conhecimento é mediado por representações, o que é uma trivialidade epistemológica aceita por realistas e antirrealistas desde Kant, e que nada decide sobre a existência de uma realidade extramental. Na leitura forte, ela afirma que a realidade é constituída pelos modelos, e essa leitura, se tomada a sério, enfrenta uma dificuldade que a tradição filosófica reconhece desde Platão: uma tese que declara não haver acesso a uma realidade independente não pode reivindicar para si mesma o estatuto de descrição verdadeira dessa mesma realidade. Hawking precisa, para afirmar que “não há concepção da realidade que seja independente de teoria ou de imagem”, situar-se em um ponto de vista que a própria tese declara inexistente. O problema reside no fato de que a tese, para ser formulada, precisa enfrentar uma contradição em sua própria condição de enunciação. Autores que defenderam posições análogas, de Protágoras a certos pragmatistas, enfrentaram a mesma objeção, e as respostas disponíveis geralmente atenuam a tese até convertê-la em algo bem mais modesto do que aquilo que Hawking sugere.
A segunda tese metafísica de Hawking, segundo a qual o universo resulta de uma criação a partir do nada, desloca a dificuldade para o próprio sentido atribuído ao termo “nada”. O problema central aqui reside na equivocidade da palavra, já que o “nada” empregado pela cosmologia quântica designa uma condição de contorno: no modelo sem fronteira de Hartle e Hawking (Physical Review D, vol. 28, 1983, pp. 2960-2975), corresponde à ausência de uma fronteira inicial em uma geometria euclidiana; no modelo de tunelamento de Vilenkin (Physics Letters B, vol. 117, 1982, pp. 25-28; Physical Review D, vol. 30, 1984, pp. 509-511), corresponde à transição a partir de um estado de vácuo. Em ambos os casos, o termo designa uma condição física específica, e não a ausência de todo ser.
A terceira tese metafísica é a que deriva a inexistência do livre arbítrio da verdade do determinismo físico. A estrutura do argumento é condicional: se todo evento físico é determinado e se os processos mentais são processos físicos, então não há livre arbítrio. As duas premissas são independentes e a segunda não é um resultado da física, mas uma tese metafísica sobre a relação entre mente e corpo. O fisicalismo reducionista conta com defensores respeitáveis, e a questão aqui consiste em observar que Hawking o adota sem apresentar uma argumentação própria, incorporando-o ao que apresenta como resultado estabelecido pela neurociência. A literatura filosófica sobre o livre-arbítrio, que inclui posições compatibilistas tão diversas quanto as de Harry Frankfurt e Christian List, mostra que a passagem da primeira premissa à conclusão exige uma segunda premissa, cuja validade permanece objeto de controvérsia. List, em Why Free Will Is Real (Harvard University Press, 2019), sustenta que o livre-arbítrio é compatível com a causalidade natural e que a questão se decide no plano das capacidades de nível superior, e não no plano das partículas. O argumento de Hawking, portanto, resulta de uma posição filosófica específica apresentada sob a autoridade da física, e não de uma dedução extraída diretamente das teorias físicas.
Uma quarta tese, menos destacada no resumo de Smith, mas operante ao longo de todo o livro, consiste na suficiência explicativa da física. Ela aparece na promessa de que a teoria M final “revelará tudo o que pode ser conhecido”. A tese pertence ao campo filosófico, pois nenhuma observação, por si só, poderia estabelecer que uma explicação física esgota todo o domínio do explicável. Ao mesmo tempo, possui consequências amplas, pois equivale a excluir a existência de questões legítimas cuja resposta pertença a um domínio distinto da física. A dificuldade é a de sempre: a tese da suficiência não pode ser estabelecida por métodos físicos, e sua adoção é uma decisão filosófica. É aqui que a posição de Smith encontra seu ponto de maior força relativa, e convém formulá-la de modo que não dependa de sua metafísica particular. Não é preciso aceitar a doutrina dos três planos do real para observar que uma ciência que estuda regularidades quantitativas não está, por sua própria natureza, habilitada a decidir se há algo além das regularidades quantitativas. Trata-se de uma observação sobre os limites de um método, e não sobre a existência de entidades transcendentes.
Do lado de Smith, a análise metafísica deve ser conduzida com a mesma severidade. A doutrina da causalidade vertical, que sustenta sua leitura da mecânica quântica, enfrenta duas dificuldades. A primeira é a da caracterização do termo. Se a causalidade vertical não opera por mediação espaço-temporal, então não há como distinguir, por observação, uma situação em que ela atua de uma situação em que nada além das correlações horizontais conhecidas existe. Smith responde que a causalidade vertical é apreendida por analogia com o ato de conhecimento, em que o sujeito produz um efeito sem que o efeito seja redutível a uma transferência material. A analogia é filosoficamente séria e tem antecedentes nobres, de Aristóteles a Tomás de Aquino, mas depende de uma teoria da ação e do conhecimento que ela mesma requer demonstração. A segunda dificuldade é a da função explicativa. Se a redução do pacote de ondas é atribuída a um ato vertical, e se esse ato não tem estrutura interna que permita derivar dele quaisquer consequências observáveis, então a explicação tem o formato de uma nomeação do mistério, e não de sua resolução. O diagnóstico de Smith sobre a insuficiência das interpretações horizontalistas pode estar correto, e a literatura sobre o problema da medição oferece bons argumentos nessa direção; o que não se segue é que a postulação de um segundo tipo de causalidade resolva o problema em vez de apenas deslocá-lo.
A segunda frente metafísica de Smith é a doutrina dos níveis de realidade herdada da escola tradicionalista. A dificuldade aqui é histórica antes de ser filosófica. A narrativa tradicionalista segundo a qual a humanidade teria possuído, em uma era primordial, um conhecimento metafísico integral posteriormente perdido, e segundo a qual a modernidade constitui uma ruptura e um declínio, é uma tese historiográfica de grande amplitude, mas a historiografia da ciência e da filosofia não a sustenta. O trabalho de historiadores da filosofia antiga e medieval, de Pierre Duhem a Edward Grant e a David Lindberg, mostrou a continuidade complexa entre a filosofia natural medieval e a ciência moderna, e a existência de debates internos à escolástica sobre a estrutura do contínuo, o movimento e a causalidade, muito antes que a “ruptura” cartesiana fosse formulada. A tese tradicionalista do “erro ocidental” simplifica essa história e, em alguns casos, comete anacronismos ao ler na Antiguidade e na Idade Média posições que são respostas a problemas posteriores. Isso não invalida a crítica de Smith ao cientificismo, mas invalida a pretensão de que sua metafísica tenha, por sua antiguidade, uma autoridade epistêmica superior à da ciência moderna. A antiguidade de uma doutrina não é argumento a seu favor.
A terceira frente é a mais delicada, e diz respeito ao estatuto do conhecimento metafísico. Smith, na esteira de Guénon e Schuon, sustenta que a metafísica é um conhecimento de ordem superior, obtido por intelecção e transmitido pela tradição, e que sua validade não depende de verificação empírica. A tese tem defensores fora do tradicionalismo e a fenomenologia e o tomismo transcendental oferecem versões sofisticadas dela. O problema é que, ao afirmar uma fonte de conhecimento independente da experiência e da argumentação pública, ela precisa explicar por que interlocutores igualmente sinceros e igualmente competentes chegam a doutrinas metafísicas incompatíveis. A história da metafísica é uma história de divergências persistentes, e essa persistência é um dado que qualquer teoria do conhecimento metafísico deve enfrentar. A resposta tradicionalista, segundo a qual as divergências decorrem da decadência intelectual dos modernos e da perda da intelecção, é internamente coerente, mas não pode ser verificada independentemente do sistema que a sustenta. A metafísica de Smith tem o estatuto de uma tradição interpretativa viva, respeitável e internamente articulada, mas não o de um conhecimento demonstrado que capaz de servir como tribunal para julgar a física. É significativo que Smith, ao contrário de alguns de seus correligionários, pareça reconhecer isso em seus textos maduros, ao apresentar a causalidade vertical como o desdobramento de uma intuição metafísica e não como um resultado experimental.
A síntese desta seção conduz a um juízo equilibrado sobre as teses examinadas. No plano metafísico, as posições de Hawking apresentam dois problemas centrais: a ambiguidade entre a leitura fraca e a leitura forte do realismo modelo-dependente e a incorporação de premissas filosóficas — o fisicalismo reducionista, a suficiência explicativa da física e a univocidade do “nada” — apresentadas como consequências da ciência.
As teses de Smith sofrem de vícios simétricos: a caracterização da causalidade vertical é insuficiente para torná-la distinta de uma nomeação do inexplicado e a doutrina dos níveis de realidade depende de uma historiografia insustentável e de uma teoria da intelecção metafísica que não pode ser validada de modo intersubjetivo. A diferença relevante entre os dois reside, então, no grau de consciência que cada um demonstra acerca da atividade metafísica que desenvolve. Smith reconhece que opera no plano metafísico e o declara, enquanto Hawking pratica metafísica ao mesmo tempo em que decreta a morte da filosofia. Essa diferença, embora real, pertence ao estilo intelectual de cada autor e não determina a validade de suas posições. Convém, por isso, evitar que ela seja convertida em vantagem probatória.
Problemas lógicos e argumentativos
A análise lógica deve começar pelos argumentos de Hawking, uma vez que é a eles que Smith se dirige, e prosseguir, em seguida, pelos argumentos que Smith constrói no trecho cuja reconstrução se fez no capítulo anterior.
O primeiro problema lógico de Hawking é a autoreferência do realismo modelo-dependente. A tese afirma que não há concepção da realidade independente de modelos. Se a tese é verdadeira, ela mesma é um modelo e nada garante que se ajuste a algo independente; se é falsa, então existe ao menos uma concepção independente de modelos, a saber, a que a refuta. Em qualquer dos casos, a tese não pode ser afirmada com a força assertórica com que o livro a apresenta. A saída usual consiste em restringir a tese: o que Hawking pode legitimamente afirmar é que todo conhecimento envolve modelos e que não dispomos de critério independente de modelos para decidir entre modelos empiricamente equivalentes. Essa versão restrita é defensável e tem antecedentes respeitáveis, do empirismo construtivo de van Fraassen à subdeterminarão das teorias pelos dados. O que se segue dela, porém, é bem menos do que o livro extrai, pois ela é compatível com a existência de uma realidade independente e com a tese de que algumas teorias descrevem essa realidade melhor do que outras, mesmo quando ambas se ajustam igualmente bem aos dados disponíveis. O edifício hawkinguiano, portanto, ou repousa em uma tese auto-refutável, ou repousa em uma tese modesta que não sustenta as conclusões que dele se pretendem extrair.
O segundo problema é a falácia inversa do jogador, identificada por Ian Hacking em “The Inverse Gambler’s Fallacy: the Argument from Design. The Anthropic Principle Applied to Wheeler Universes” (Mind, vol. 96, 1987, pp. 331-340). A estrutura da inferência antrópica é a seguinte: o valor observado das constantes físicas é improvável; se existem muitos universos com valores variáveis, a existência de ao menos um universo com valores favoráveis deixa de ser surpreendente; logo, nossa existência não requer explicação adicional. Hacking mostrou que essa inferência é inválida, pois a existência de muitas jogadas anteriores não altera a probabilidade do resultado observado quando o resultado observado é o próprio dado que se procura explicar. O debate subsequente, com a defesa de John Leslie (“Anthropic Principle, World Ensemble, Design”, American Philosophical Quarterly, vol. 19, 1982, pp. 141-151) e a crítica de Roger White (“Fine-Tuning and Multiple Universes”, Noûs, vol. 34, n. 2, 2000, pp. 260-276), mostra que a questão é controvertida, mas o ônus da prova recai sobre quem afirma a inferência, e Hawking não discute a objeção.
A esse problema soma-se um segundo, interno à física e ainda mais grave: o problema da medida. Se o multiverso contém infinitos universos, a probabilidade de qualquer evento é dada por uma razão entre conjuntos infinitos, e essa razão só é definida se houver uma medida de probabilidade especificada. Alan Guth, um dos autores da teoria inflacionária, discutiu o problema em “Eternal Inflation and Its Implications” (Journal of Physics A, vol. 40, 2007, pp. 6811-6826) e a literatura posterior não o resolveu. Ora, se a probabilidade não é definida, a noção de que nosso universo é “improvável” perde sentido matemático, e com ela desaba a premissa da qual a inferência antrópica parte. Trata-se de uma dificuldade reconhecida pelos próprios especialistas, anterior a qualquer discussão metafísica, e que bastaria para mostrar que a resposta de Hawking às perguntas finais não é uma dedução, mas uma conjectura condicionada por problemas em aberto.
O terceiro problema lógico decorre de uma falsa dicotomia. Hawking deixa entender, e Smith registra sem comentar, que a alternativa ao multiverso consiste na hipótese de um criador benevolente. A dicotomia é logicamente indevida, pois há pelo menos quatro posições distintas em jogo:
a) o multiverso com princípio antrópico;
b) o design inteligente;
c) a aceitação de que a afinação das constantes, se é um fato, permanece inexplicada;
d) a dissolução do problema mediante a construção de uma teoria em que as constantes não sejam parâmetros livres, como propõem programas de unificação mais restritivos e certas abordagens da teoria de cordas que restringem o número de vácuos.
A posição (c) é perfeitamente racional e não compromete ninguém com teologia, e a posição (d) é um programa de pesquisa ativo. Ao apresentar sua própria solução como a única alternativa ao design, Hawking comete o que a literatura sobre o tema chama de estrutura de “deus das lacunas” invertida: ele não preenche uma lacuna com Deus, mas preenche-a com o multiverso, e a estrutura do argumento é a mesma, com o sinal trocado.
O quarto problema é a equivocidade sistemática de termos centrais, já inventariada no capítulo 10 e que aqui se deve reconhecer como problema lógico e não apenas semântico. A palavra “nada” oscila entre o vácuo quântico e a ausência de todo ser; a palavra “modelo” oscila entre construção matemática, imagem mental e percepção cotidiana; a palavra “lei” oscila entre descrição de regularidades e prescrição que obriga a natureza; a palavra “existe” oscila entre posição interna a um modelo e existência extramental. Em cada caso, a inferência que Hawking extrai depende de que o termo conserve o sentido forte em uma premissa e o sentido fraco na conclusão, ou vice-versa. Essas equivocidades cumprem uma função estrutural no argumento: permitem que o livro transite, sem sinalizar a mudança de plano, entre a física e a metafísica.
O quinto problema é o recurso ao argumento de autoridade. A proclamação de que “a filosofia está morta” é uma afirmação de autoridade sem argumento, e o apelo constante aos cientistas como “portadores da tocha” transforma uma comunidade de especialistas em fonte de legitimidade. Há também argumentos de autoridade mais localizados, como a esperança de que o Grande Colisor de Hádrons encontre parceiros supersimétricos, que funciona no livro como prova da fecundidade do programa. Aqui a pesquisa posterior forneceu um veredito: décadas de dados do LHC não revelaram qualquer partícula supersimétrica e os limites inferiores de massa para glúinos e squarks foram elevados à faixa dos tera-elétron-volts, como documenta a revisão da Partícula Data Group (Review of Particle Physics, Progress of Theoretical and Experimental Physics, 2022, 083C01, seção sobre supersimetria). A passagem do livro foi superada pelos desenvolvimentos posteriores aos quais fazia referência, e o ponto é relevante para a avaliação de Smith, que a registrou sem comentar.
A análise dos problemas lógicos presentes na posição de Smith conduz, em primeiro lugar, à dificuldade mais séria de sua crítica ao realismo modelo-dependente: quando formulada nos termos da autorreferência, ela atinge igualmente sua própria posição. Smith sustenta que a metafísica tradicional conhece a estrutura do real por intelecção. Se a objeção dirigida a Hawking consiste em mostrar que ele não pode formular sua tese sem pressupor aquilo que nega, a questão correspondente para Smith consiste em saber com que direito ele afirma o acesso a um plano da realidade que nenhum critério público pode verificar. A resposta tradicionalista, como se observou, apela para uma faculdade de conhecimento superior; essa resposta, porém, constitui justamente o que está em questão, e invocá-la não resolve o problema, apenas o desloca.
O segundo problema é a extensão indevida do diagnóstico da insuficiência. Do fato de que a interpretação ortodoxa da mecânica quântica não é imposta pelo formalismo, não se segue que a interpretação de Smith seja verdadeira; segue-se apenas que a questão está aberta. Smith, ao propor a causalidade vertical, trata a abertura do problema como se fosse um argumento a favor de sua solução, o que é uma forma de inferência da ignorância. A literatura sobre o problema da medição oferece várias alternativas mais econômicas, da decoerência à interpretação relacional e nenhuma delas exige a postulação de um segundo tipo de causalidade.
O terceiro problema é o uso da tradição como fonte de autoridade. Quando Smith contrapõe a sabedoria dos antigos ao erro dos modernos, ou invoca a doutrina tradicional dos níveis do ser para corrigir a física, ele recorre a uma autoridade que não tem o mesmo estatuto das autoridades científicas que critica. A diferença é que a autoridade científica é, em princípio, revisável por argumento e experiência, enquanto a autoridade tradicional, tal como a escola de Guénon a concebe, se apresenta como imune à revisão, já que uma correção da tradição só poderia vir de alguém que a tivesse recebido. Essa estrutura protege a doutrina de objeções, mas ao custo de torná-la indistinguível, do ponto de vista lógico, de um sistema dogmático fechado.
O quarto problema, menor mas digno de registro, é a tensão entre a exigência de rigor que Smith dirige a Hawking e o caráter sistematicamente alusivo de sua própria proposta. Smith acusa Hawking de não distinguir os níveis de discurso, e a acusação é justa; mas sua própria apresentação da causalidade vertical, no trecho em exame e em boa parte de sua obra, permanece programática e o leitor não dispõe de um critério para decidir entre ela e as interpretações concorrentes. A simetria não anula a crítica que Smith faz; ela apenas mostra que a exigência de rigor deve ser aplicada a ambos os lados, e que o resultado final da avaliação não pode ser a condenação de um pelo padrão que o outro também não satisfaz.
A análise lógica confirma parte das objeções de Smith a Hawking: a formulação do realismo modelo-dependente enfrenta uma dificuldade autorreferente, a inferência antrópica suscita objeções relevantes e o problema da medida permanece em aberto, enquanto a oposição entre multiverso e design simplifica excessivamente as alternativas cosmológicas. Também existem ambiguidades conceituais na passagem entre afirmações científicas e conclusões metafísicas, além de argumentos cuja força depende em parte da autoridade dos autores citados. Esses problemas, contudo, não bastam para sustentar a conclusão mais ampla pretendida por Smith. As dificuldades internas de uma determinada formulação do naturalismo não conferem, por si mesmas, validade à metafísica tradicional, e a ausência de uma solução científica definitiva para questões cosmológicas tampouco constitui evidência positiva em favor da explicação metafísica de Smith.
A crítica de Smith ganha força quando identifica os limites de determinadas pretensões de Hawking, mas perde alcance quando transforma esses limites em uma refutação do empreendimento científico. Hawking comete erros filosóficos e apresenta algumas questões com confiança maior do que a sustentada pelas evidências disponíveis, mas seu programa continua inserido em uma investigação física que formula modelos matemáticos, confronta hipóteses com observações e permanece aberta à revisão. Smith, por sua vez, oferece uma interpretação metafísica coerente com sua própria tradição filosófica, porém seus princípios fundamentais dependem de uma concepção de conhecimento superior cuja validade constitui justamente um dos pontos que ele precisaria demonstrar. A crítica a Hawking revela os limites de suas conclusões sem estabelecer a verdade da alternativa de Smith.
O princípio de incerteza
A formulação que Hawking apresenta, segundo a qual “certos pares de variáveis não podem ser medidos com perfeita precisão”, corresponde à leitura epistemológica das relações de incerteza, que Heisenberg introduziu em 1927 no artigo “Über den anschaulichen Inhalt der quantentheoretischen Kinematik und Mechanik” (Zeitschrift für Physik, vol. 43, pp. 172-198). Nessa leitura, a incerteza decorre da perturbação inevitável que a medição introduz no sistema. A leitura ontológica, segundo a qual o sistema simplesmente não possui valores definidos para as grandezas incompatíveis, foi defendida por Bohr e incorporada à ortodoxia de Copenhague. A distinção é tecnicamente importante, e a literatura posterior complicou-a ainda mais. A formulação geral das relações de incerteza, devida a Howard Robertson (“The Uncertainty Principle”, Physical Review, vol. 34, 1929, pp. 163-164), estabelece um limite para o produto dos desvios-padrão de dois observáveis incompatíveis, e esse limite é uma consequência do formalismo, independentemente de qualquer consideração sobre medição. Os experimentos modernos, incluindo os de violação das relações de incerteza de Heisenberg em favor das relações de Robertson, mostram que a leitura da perturbação não pode ser a única. O ponto que interessa à avaliação é que Hawking apresenta como “princípio de incerteza” uma tese ontológica forte, quando o formalismo sustenta diretamente apenas a versão estatística, e as interpretações realistas, como a de Bohm (“A Suggested Interpretation of the Quantum Theory in Terms of ‘Hidden’ Variables”, Physical Review, vol. 85, 1952, pp. 166-193), preservam a definição dos valores ao custo da não localidade, sem violar qualquer previsão da teoria.
A dupla fenda e a soma sobre histórias
Na exposição do experimento da dupla fenda, Hawking recorre à formulação de Feynman e afirma que a partícula “inicia todas as trajetórias possíveis”. A integral de trajetória de Feynman, publicada em “Space-Time Approach to Non-Relativistic Quantum Mechanics” (Reviews of Modern Physics, vol. 20, 1948, pp. 367-387), é um dispositivo de cálculo: o propagador entre dois pontos é obtido somando as contribuições de todas as trajetórias, ponderadas pela exponencial da ação dividida pela constante de Planck. As trajetórias não são, na formulação original, percursos efetivamente realizados pelo sistema, e o próprio Feynman apresentou o formalismo, em exposições posteriores como QED: The Strange Theory of Light and Matter (Princeton University Press, 1985), como um método para calcular amplitudes, não como uma descrição do que ocorre entre a emissão e a detecção. A leitura de Hawking, segundo a qual essa formulação revela a estrutura ontológica do mundo, constitui uma interpretação filosófica do formalismo e depende da escolha de uma das formulações equivalentes da mecânica quântica. Smith registra a passagem e observa que a escolha de Feynman é motivada por sua fecundidade, e não por uma suposta superioridade ontológica. A observação encontra apoio na literatura, que trata a equivalência entre as formulações de Heisenberg, Schrödinger e Feynman como um fato matemático, sem atribuir a ela implicações ontológicas automáticas. Cabe acrescentar que a formulação de integrais de trajetória desempenha papel central na gravitação quântica, na cosmologia quântica e nas teorias de campo, enquanto a noção de soma sobre geometrias, presente na proposta sem fronteira, constitui uma generalização direta dessa estrutura. Nesse sentido restrito, a formulação de Feynman possui uma fecundidade heurística que ultrapassa o cálculo de amplitudes na mecânica quântica não relativista, aspecto que Smith não explora.
A escolha postergada e a influência sobre o passado
A afirmação de que “as observações que fazemos em um sistema no presente afetam o seu passado” é a mais forte do resumo e a mais vulnerável. O experimento de escolha postergada foi concebido por Wheeler em “The ‘Past’ and the ‘Delayed-Choice’ Double-Slit Experiment”, publicado em Mathematical Foundations of Quantum Theory (organizado por A. R. Marlow, Academic Press, 1978, pp. 9-48), e realizado em 2007 pelo grupo de Alain Aspect, no artigo de Jacques e colaboradores (“Experimental Realization of Wheeler’s Delayed-Choice Gedanken Experiment”, Science, vol. 315, pp. 966-968, DOI 10.1126/science.1136303), e em 2015 com um único átomo, por Manning e colaboradores (Nature Physics, vol. 11, pp. 539-542, DOI 10.1038/nphys3343). Os experimentos confirmam a previsão quântica: a escolha do aparato de medição, feita após a passagem da partícula, determina se o padrão observado será de interferência ou de trajetória. Daí não se segue, porém, que o presente altere o passado. Duas observações técnicas impedem essa inferência. A primeira é que a informação sobre o padrão de interferência só se obtém por coincidência e seleção posterior dos eventos, conforme o tipo de correlação registrada no detector auxiliar; sem essa separação post hoc, nenhum padrão de interferência emerge. A segunda é que a teoria proíbe, pelo teorema da não sinalização, que qualquer operação presente modifique a estatística local de um modo que permitisse transmitir informação ao passado. Análises recentes mostram que os resultados dos experimentos de escolha postergada e de apagador quântico podem ser descritos sem retrocausalidade, em termos de correlações e de preparação de estado, como no modelo clássico de apagador quântico com escolha postergada publicado em Physical Review A (vol. 103, 2021, artigo 062213). A formulação “o presente afeta o passado” é uma interpretação e uma interpretação que muitos físicos consideram enganosa, ainda que Wheeler e outros a tenham sugerido. Sua extensão, por Hawking, à totalidade do universo, na tese de que “nossas observações de seu estado atual afetam o seu passado e determinam as diferentes histórias do universo”, é uma inferência cosmológica que nenhum experimento sustenta e que a própria admissão de Hawking, de que são necessárias medições mais precisas para diferenciar a teoria de outras, desautoriza como conclusão.
A teoria M e a paisagem
A leitura hawkinguiana da teoria M como uma família de teorias que concordam em suas sobreposições é, de fato, uma das leituras correntes desde a conjectura de Witten em “String Theory Dynamics in Various Dimensions” (Nuclear Physics B, vol. 443, 1995, pp. 85-126). A teoria M não possui formulação completa e as cinco teorias de supercordas e a supergravidade de onze dimensões aparecem como limites de uma estrutura conjecturada. A interpretação de que a ausência de uma teoria única é “aceitável” dentro do realismo modelo-dependente é uma consequência da epistemologia do livro, e não da física. Quanto à paisagem, a estimativa de 10^500 vácuos provém de cálculos heurísticos sobre compactificações com fluxos, popularizados por Susskind no preprint “The Anthropic Landscape of String Theory” (arXiv:hep-th/0302219, 2003) e por Michael Douglas (“The Statistics of String/M Theory Vacua”, Journal of High Energy Physics, 2003, 0305:046). Trata-se de literatura preprint e de estimativas, e a própria comunidade registra dissensões profundas, incluindo o programa do “pântano” (swampland), iniciado por Cumrun Vafa no preprint “The String Landscape and the Swampland” (arXiv:hep-th/0509212, 2005), que argumenta que muitos dos vácuos da paisagem são inconsistentes com a gravitação quântica pela qual foram derivados.
A renormalização
A descrição da renormalização como subtração de infinitos positivos e negativos que se cancelam deixa de lado o desenvolvimento mais importante da segunda metade do século XX sobre o tema: a interpretação da renormalização como o estudo da dependência das teorias de campo em relação à escala de energia, formalizada por Kenneth Wilson no grupo de renormalização. Uma teoria de campo renormalizável constitui uma teoria efetiva, válida até determinada escala, cujos parâmetros variam de acordo com a escala de observação. O cancelamento das divergências decorre da estrutura do grupo de renormalização e integra o próprio formalismo da teoria, em vez de representar uma manipulação ad hoc de quantidades infinitas. A apresentação de Hawking, ao chamar a renormalização de “golpe de mestre” e descrevê-la como uma subtração de infinitos, enfatiza o aspecto retórico da façanha matemática em detrimento de seu significado físico. Essa formulação corresponde à simplificação que a leitura do capítulo 10 já havia identificado como uma característica da exposição de Smith. O ponto possui importância secundária para a crítica, mas ilustra o tipo de distorção produzido pela divulgação científica mesmo quando os fatos mencionados permanecem corretos.
O darwinismo e a narrativa cosmológica
Smith observa, com um toque de desdém contido, que Hawking resume o relato que “começa com a astrofísica do big bang e culmina no panorama darwinista da evolução”. A observação é justa no plano retórico: o livro apresenta uma narrativa de origem única, que vai do vácuo quântico ao aparecimento da vida inteligente, e essa narrativa tem uma função semelhante à dos relatos cosmogônicos tradicionais que o livro despreza. No plano científico, a astrofísica do big bang e a biologia evolutiva são áreas maduras e bem corroboradas, e não há aqui interpretação controvertida a corrigir. O ponto de discussão reside na estrutura narrativa em que esses resultados são inseridos e na pretensão de que a própria narrativa ofereça uma resposta às perguntas últimas. Nesse aspecto, a objeção de Smith possui caráter retórico e filosófico, com alcance distinto de uma crítica propriamente científica, e convém apresentá-la dentro desses limites.
A substituição da questão metafísica pela questão física
A observação de Smith incide sobre um ponto textual preciso: o primeiro capítulo de The Grand Design intitula-se “The Mystery of Being” e é sob esse título que Hawking formula a pergunta pela origem de tudo. A precisão da observação importa porque o título faz um trabalho silencioso. A expressão “mystery of being” tem uma história filosófica determinada, e remonta à pergunta de Leibniz, formulada nos Principes de la nature et de la grâce (1714) e frequentemente resumida na fórmula “por que há algo em vez de nada?”. Essa pergunta versa sobre a própria existência do ser e sua estrutura difere daquelas que investigam a existência de um ente particular, de uma classe de entes ou de um sistema físico. Sua forma lógica pertence, portanto, a um plano distinto daquele das perguntas ônticas, pois toma como questão fundamental o próprio fato de haver ser. Perguntar por que este universo existe pressupõe a existência de um quadro no interior do qual a pergunta tem sentido e esse quadro inclui ao menos a distinção entre existir e não existir, a vigência de alguma estrutura legal que permita falar de condições e de consequências, e a inteligibilidade de um estado anterior a qualquer configuração cósmica particular. A pergunta de Leibniz, por sua natureza, não admite que se responda com a menção de outro ente; qualquer resposta que mencione um ente ou um processo físico já pressupõe aquilo que se estava pedindo para explicar.
Hawking, ao explicar que o “ser” em questão é “é claro, o ser físico”, não apenas restringe o escopo da pergunta; ele altera sua forma lógica e torna possível uma resposta que era impossível antes da restrição. A resposta à pergunta reformulada, a criação espontânea a partir de uma condição de contorno quântica, é uma resposta legítima no interior do quadro, pois o vácuo quântico e as flutuações que dele emergem são entes físicos com estrutura e leis, e explicar a origem do universo a partir deles é explicar um ente por outro ente. A resposta deixa intacta a pergunta original, que buscava a inteligibilidade da existência de qualquer quadro físico. A operação hawkinguiana assume, desde o início, justamente o quadro físico cuja origem deveria esclarecer, produzindo uma estrutura circular semelhante àquela que a tradição filosófica identificou em diversas cosmogonias que procuram explicar o todo a partir de uma realidade particular tomada como fundamento: o caos primordial de Hesíodo, a água de Tales ou o ovo cósmico dos Vedas. Cada uma dessas narrativas oferece uma explicação para a origem ou para a organização interna do mundo, enquanto a pergunta metafísica permanece voltada para a razão pela qual existe um mundo em primeiro lugar.
Cabe registrar, com honestidade, que a pergunta de Leibniz não goza de aceitação universal, e que a linha crítica contra Smith não precisa apoiar-se em Hawking para atacá-la. Adolf Grünbaum sustentou, em “The Pseudo-Problem of Creation in Physical Cosmology” (Philosophy of Science, vol. 56, n. 3, 1989, pp. 373-394), que a pergunta pela origem do universo é um pseudoproblema gerado pela aplicação indevida de categorias causais a um objeto único, e que o universo pode ser aceito como fato bruto, sem que essa aceitação implique qualquer deficiência explicativa. A posição de Grünbaum foi contestada por William Lane Craig e por outros autores teístas, enquanto filósofos como Graham Oppy, em Arguing about Gods (Cambridge University Press, 2006), sustentam críticas importantes aos argumentos cosmológicos e à tentativa de fundamentar a existência do universo em uma razão transcendente. O debate sobre o princípio de razão suficiente permanece aberto na metafísica contemporânea, mas a existência de um princípio desse tipo tampouco constitui uma exigência evidente da razão. A pergunta de Leibniz pode ser recusada sem que isso implique a necessidade de postular um fundamento divino para o universo.
Essa possibilidade é decisiva para a leitura de Hawking, pois sua resposta às perguntas últimas se fundamenta em uma posição naturalista segundo a qual a existência de um universo físico dispensa uma causa transcendente, uma razão suficiente ou um agente criador. A própria exigência de uma explicação última merece exame quando aplicada à totalidade da realidade. Pedir uma causa para o universo e atribuí-la, em seguida, a Deus desloca a questão para a existência e a natureza desse Deus. O recurso teísta acrescenta, desse modo, uma entidade metafísica cuja própria existência também exige justificação.
Sob essa leitura, a substituição do “ser” pelo “ser físico” apontada por Smith ganha um significado diferente. Hawking não precisa estar ocultando uma pressuposição metafísica ilegítima ao trabalhar exclusivamente com a realidade física. Ele pode estar recusando, desde o início, a premissa teísta segundo a qual o mundo exige uma explicação exterior a si mesmo. A questão deixa de ser “qual entidade transcendente explica o universo?” e passa a ser “há alguma razão para exigir uma explicação transcendente para o universo?”. A resposta naturalista é negativa e essa resposta pertence à filosofia da religião tanto quanto a resposta teísta.
A defesa transcendental: os primeiros princípios não são modelos
A quinta defesa é a única que exige uma premissa própria de Smith, e é a que os partidários da metafísica tradicional considerariam a decisiva. Ela sustenta que a objeção da autorrefutação, levantada contra Hawking, não se aplica à posição de Smith, porque a metafísica tradicional não apresenta suas teses como hipóteses sobre os entes, mas como condições de inteligibilidade de qualquer discurso sobre os entes. A distinção é técnica e tem pedigree: as condições de possibilidade de uma experiência ou de um discurso não são elas mesmas objetos de experiência ou de discurso do mesmo tipo, e o argumento que as estabelece é transcendental, não empírico. Oprincípio de não contradição, o princípio de razão suficiente e a distinção entre ato e potência constituem pressupostos empregados pela própria física, enquanto a filosofia se encarrega de explicitá-los e examiná-los. Se a defesa de Smith se sustenta, sua proposta assume uma função distinta da elaboração de uma cosmologia concorrente à cosmologia científica. Seu objetivo consiste em mostrar que a cosmologia científica repousa sobre pressupostos cuja fundamentação pertence a um plano filosófico.
A resposta à defesa metodológica
A defesa metodológica é sólida e, no essencial, deve ser concedida. Quando Smith exige que Hawking submeta suas afirmações ao critério de refutabilidade que ele mesmo enuncia e quando observa que a teoria M, o multiverso e a cosmologia de cima para baixo não satisfazem esse critério, ele tem o apoio de uma parte substancial da comunidade científica, expressa em Nature por Ellis e Silk e desenvolvida por Steinhardt e seus colaboradores. A concessão, porém, tem limite e o limite é importante. A crítica interna estabelece que Hawking vai além do que pode demonstrar; não estabelece que a posição de Smith seja verdadeira. Um argumento que mostra que uma tese é indemonstrada deixa aberta a possibilidade de que ela seja verdadeira por razões que seu autor não soube apresentar, e deixa aberta, sobretudo, a possibilidade de que a alternativa proposta por Smith seja igualmente indemonstrada. Richard Dawid, em String Theory and the Scientific Method (Cambridge University Press, 2013), ofereceu precisamente a resposta a essa linha: se a ausência de alternativas viáveis e a coerência interna conferem confiança racional, então a exigência de refutabilidade empírica não é o único critério legítimo, e a física teórica contemporânea já opera com critérios não empíricos de avaliação. A resposta de Dawid não é decisiva e Ellis e Silk têm razões fortes para rejeitá-la, mas sua existência mostra que a defesa metodológica de Smith não conduz a uma refutação conclusiva: conduz a uma controvérsia aberta sobre os critérios de cientificidade, controvérsia que o próprio Smith teria dificuldade em resolver sem apelar, uma vez mais, a premissas filosóficas.
A resposta à defesa realista
A defesa realista apresenta uma objeção forte à versão mais radical do realismo modelo-dependente, e esse ponto merece ser reconhecido. Quando Hawking afirma que a realidade é constituída pelos modelos, sua formulação parece atribuir ao aparato teórico um estatuto ontológico que excede aquilo que os próprios dados empíricos autorizam. A resposta mais consistente em favor de Hawking consiste em compreender sua posição como uma tese acerca da subdeterminação das teorias pelos dados e da equivalência empírica entre descrições alternativas. Formulada dessa maneira, sua posição encontra amplo respaldo na filosofia da ciência contemporânea.
Essa leitura também permite compreender de maneira mais favorável as conclusões de The Grand Design. A equivalência empírica entre modelos mostra que uma única descrição fundamental da realidade não constitui uma exigência metodológica da ciência. Diferentes estruturas teóricas podem organizar os mesmos dados observacionais e preservar o mesmo conteúdo preditivo. A ausência de uma teoria unificada, nesse quadro, deixa de representar uma deficiência lógica e passa a constituir uma possibilidade legítima dentro da própria prática científica. A criação espontânea também assume uma função distinta, pois a cosmologia quântica procura descrever condições físicas nas quais a emergência de um universo dispensa uma causa externa concebida nos moldes da causalidade clássica.
A crítica de Smith alcança, com maior força, uma determinada interpretação ontológica das formulações de Hawking. Quando essa interpretação é substituída por uma posição epistemológica acerca dos limites dos modelos e da relação entre teoria e observação, a acusação de incoerência perde parte de sua força. A defesa de Hawking preserva tanto a coerência de sua abordagem quanto a legitimidade de suas conclusões dentro do horizonte metodológico da física contemporânea. O argumento realista de Smith conserva interesse filosófico, sobretudo como crítica às interpretações ontológicas fortes do formalismo, mas sua força diminui quando aplicada à prática efetiva da física.
A resposta à defesa antirreducionista
A defesa antirreducionista exige uma distinção que os críticos de Smith tendem a não fazer. Uma coisa é sustentar que a neurociência não estabeleceu a inexistência do livre arbítrio e outra é sustentar que o livre arbítrio existe. A primeira afirmação é verdadeira e encontra apoio em literatura independente; a segunda é uma tese metafísica que a neurociência não decide e que Smith, como metafísico, tem o direito de defender, mas não o direito de apresentar como consequência dos dados. A resposta ao argumento de Smith consiste em notar que ele vence a batalha contra o determinismo reducionista de Hawking sem ganhar a guerra em favor da liberdade como fato metafísico. Isso não é um defeito: é a consequência de um método que respeita a divisão de níveis. Mas é preciso dizê-lo com clareza, sob pena de a crítica parecer uma defesa da doutrina que ela ainda não estabeleceu.
A resposta à defesa contra a leitura retrocausal
Aqui a defesa de Smith é praticamente incontestável no plano técnico. A leitura retrocausal é uma das interpretações possíveis, e a literatura oferece descrições alternativas que reproduzem os mesmos resultados. A resposta possível em favor de Hawking consistiria em mostrar que a retrocausalidade é exigida por alguma classe de interpretações realistas da mecânica quântica, e de fato existem programas de pesquisa que a exploram, como as interpretações transacionais e certas leituras de dois estados vetoriais. Mas esses programas são minoritários e não estabelecidos e Hawking não os invoca. A conclusão é que a passagem de Smith, ao registrar a afirmação de que o presente afeta o passado, identifica uma extrapolação que a literatura não autoriza. Nesse ponto, a crítica é correta e não precisa de qualificação.
A resposta à defesa transcendental
A defesa transcendental é a mais ambiciosa e é a que exige o exame mais severo. Ela sustenta que os primeiros princípios da metafísica não são hipóteses entre hipóteses, mas condições de possibilidade de qualquer discurso. O problema é que a validade dos argumentos transcendentais é objeto de controvérsia desde que Kant os formulou, e a crítica clássica de Barry Stroud, em “Transcendental Arguments” (The Journal of Philosophy, vol. 65, n. 9, 1968, pp. 241-256), mostrou que argumentos desse tipo, para funcionar, precisam estabelecer não apenas que certas crenças são inevitáveis, mas que a realidade corresponde a elas; e o passo da inevitabilidade psicológica ou linguística para a verdade é justamente o que não se pode dar sem circularidade. Se a crítica de Stroud é correta, então a defesa transcendental não salva Smith da simetria que a seção 13 apontou: os primeiros princípios seriam condições de inteligibilidade para nós, e não necessariamente estruturas do ser. E se a crítica de Stroud é incorreta, então é preciso mostrar onde, e essa demonstração é um programa filosófico de longa duração, não um resultado disponível. A resposta honesta, e esta investigação a registra sem atenuar, é que a literatura filosófica não decide a questão. Argumentos transcendentais têm defensores rigorosos e críticos igualmente rigorosos, e o debate permanece aberto. Consequentemente, a defesa transcendental de Smith não pode ser tratada como estabelecida, do mesmo modo que a tese antirrealista de Hawking não pode ser tratada como estabelecida. O que se pode afirmar com segurança é que ambas as posições retiram suas premissas decisivas de um terreno que a ciência não cultiva, e que a acusação de ultrapassar as evidências se aplica, com força desigual, aos dois lados.
A resposta à defesa da separação de planos
A versão fraca da posição de Smith, que renuncia à historiografia tradicionalista e conserva apenas a tese sobre os limites de domínio, é a mais difícil de atacar e é também a menos ambiciosa. Ela tem a forma de uma observação sobre a relação entre método e objeto, e uma observação desse tipo tem força considerável. A resposta que se pode opor a ela consiste em notar que a tese dos limites de domínio, para passar de uma observação metodológica a uma conclusão ontológica, precisa de um passo adicional: do fato de que a física não pode responder às questões últimas não se segue que existam respostas, nem que exista um domínio no qual elas se situem. A ciência pode ter limites sem que haja, além desses limites, um território cognoscível. Dito de outro modo, a melhor defesa de Smith estabelece que Hawking não pode responder às perguntas finais; não estabelece que Smith possa. E é preciso reconhecer que Smith, em seus textos maduros, parece ciente disso, ao apresentar a causalidade vertical como uma chave interpretativa e não como um resultado.
Pontos nos quais Smith apresenta uma crítica legítima à ciência contemporânea
Uma crítica acadêmica séria deve identificar com precisão o que o autor examinado acerta, e no caso de Smith o acerto é considerável, embora se concentre em um tipo específico de operação: a demarcação entre o que a física demonstra, o que ela interpreta e o que ela conjectura. Nenhum dos pontos que seguem exige que o leitor aceite a metafísica tradicionalista; todos podem ser formulados e em vários casos o são, por autores que operam no interior da própria filosofia da ciência profissional. Autores como Graham Oppy (Arguing about Gods, Cambridge University Press, 2006) e os defensores do argumento cosmológico calâmico, entre eles William Lane Craig, examinam exatamente essa passagem e a divergência entre eles não é sobre a existência da passagem, mas sobre sua licitude.
O segundo acerto é a inconsistência entre o determinismo do capítulo 2 e o indeterminismo do capítulo 4 de The Grand Design. Smith percebe que a noção hawkinguiana de um “novo determinismo”, em que as leis determinam probabilidades em vez de resultados, esvazia o termo de seu conteúdo clássico sem que Hawking reconheça a perda. A observação é lógica e não depende de nenhuma premissa metafísica: se o determinismo significa o que significava em Laplace, a mecânica quântica o refuta; se significa outra coisa, as conclusões que dele se extraíram no capítulo 2 perdem a base. Trata-se de um exemplo elementar de equivocidade e o fato de o livro ter passado por revisão editorial de uma grande editora sem que o problema fosse sinalizado ilustra o quanto a divulgação científica de alto perfil pode ser complacente com suas próprias tensões.
O terceiro acerto diz respeito ao estatuto da teoria M, da paisagem e do multiverso. Smith registra, sem distorcer, que Hawking apresenta como resultados um conjunto de estimativas heurísticas e de conjecturas internas a um programa sem formulação completa, e que a comunidade científica registra dissensões severas sobre esses pontos. A crítica converge, por caminhos independentes, com a de George Ellis e Joe Silk, publicada em Nature (vol. 516, 2014, pp. 321-323, DOI 10.1038/516321a), com a de Paul Steinhardt e colaboradores, em “Inflationary Paradigm in Trouble after Planck2013” (Physics Letters B, vol. 723, 2013, pp. 261-266) e em “Cosmic Inflation Theory Faces Challenges” (Scientific American, vol. 316, n. 2, 2017, pp. 36-43), e com o programa do “pântano” iniciado por Cumrun Vafa em “The String Landscape and the Swampland” (arXiv:hep-th/0509212, 2005). O ponto é que a discordância sobre a testabilidade do multiverso é real e documentada, e que a apresentação de uma das partes do debate como detentora do consenso é um erro de exposição, não uma escolha de ênfase.
O quarto acerto é a ambiguidade sistemática do conceito de “modelo” e a equiparação entre o relato bíblico da criação e a cosmologia do big bang. Smith nota que os dois objetos pertencem a ordens de discurso distintas e que colocá-los sob o mesmo conceito desloca a discussão da adequação empírica para a utilidade pragmática sem justificar o deslocamento. A objeção pode ser formulada como uma crítica à extensão indevida de um termo técnico, e nessa forma ela é aceitável por qualquer filósofo da ciência.
O quinto acerto é a identificação da conversão de uma interpretação disputada da mecânica quântica em leitura neutra do formalismo. A afirmação de que uma partícula não tem posição nem velocidade definidas antes da medição é uma tese interpretativa, e a literatura sobre fundamentos da mecânica quântica, de Bohm (1952) a Ghirardi, Rimini e Weber (1986) e aos muitos mundos de Everett (1957), mostra que o formalismo admite leituras distintas. Smith acerta ao apontar o salto, ainda que sua própria alternativa padeça de dificuldade análoga.
O sexto acerto é de natureza mais ampla e diz respeito ao que se poderia chamar de economia retórica da cosmologia popular. Smith observa que o livro constrói uma narrativa de origem única, que vai do vácuo quântico à inteligência, e que essa narrativa exerce uma função análoga à dos relatos cosmogônicos que o próprio livro desqualifica. A observação é de retórica e de sociologia do conhecimento, e não de física, mas é pertinente: a forma narrativa é um veículo de persuasão que opera independentemente da força dos argumentos, e o seu reconhecimento é uma contribuição útil à crítica da divulgação científica.
O sétimo acerto, finalmente, é o mais defensável de todos e o menos dependente da tradição à qual Smith pertence: a distinção entre os limites metodológicos de uma ciência e a impossibilidade ontológica de um domínio. Um método definido por seu objeto e por seus instrumentos não pode, por seus próprios recursos, decidir questões que excedem esse objeto. A física investiga regularidades quantitativas de sistemas observáveis; a tese de que não há nada além do que essa investigação alcança não é um resultado da investigação, e sim uma decisão sobre o alcance da realidade. Smith formula essa observação em linguagem tradicionalista, mas a substância da observação é reconhecida por correntes filosóficas que nada têm de tradicionalistas, do kantismo aos realismos críticos contemporâneos, e é ela que sustenta a parte mais sólida de sua crítica ao cientificismo.
Pontos nos quais sua crítica ultrapassa as evidências disponíveis
A contrapartida necessária da seção anterior é o inventário dos pontos em que Smith extrai de suas premissas mais do que elas autorizam. A distinção entre o que é refutação e o que é interpretação concorrente deve ser mantida com o mesmo rigor dos dois lados.
A primeira extrapolação, e a mais séria, consiste em tratar a abertura do problema da medição como argumento a favor da causalidade vertical. A premissa disponível consiste na constatação de que a redução do pacote de ondas permanece sem explicação pela dinâmica linear da equação de Schrödinger, fato reconhecido pela literatura. A conclusão que Smith extrai daí afirma que a causa da redução deve ser procurada fora do plano físico, mas essa inferência carece de uma premissa adicional. Da insuficiência de uma explicação interna segue-se apenas a insuficiência dessa explicação, sem que daí decorra a existência de uma causa externa, muito menos de uma causalidade vertical. A literatura oferece alternativas que permanecem no plano físico ou reformulam o próprio problema, desde as teorias de colapso objetivo até as interpretações relacionais e a decoerência. Nenhuma dessas alternativas é afastada pelo argumento de Smith, cuja força consiste em mostrar que a ortodoxia interpretativa não decorre obrigatoriamente do formalismo.
A segunda extrapolação é a inferência dos limites do método para a existência de um domínio cognoscível além deles. Do fato de que a física não pode responder à pergunta de Leibniz não se segue que exista uma resposta, nem que exista um território no qual ela se situe. A posição que se segue imediatamente da premissa metodológica é o agnosticismo e a passagem do agnosticismo à metafísica positiva exige um argumento transcendental, cujo estatuto é objeto de controvérsia desde a crítica de Barry Stroud em “Transcendental Arguments” (The Journal of Philosophy, vol. 65, n. 9, 1968, pp. 241-256). Smith opera essa passagem apoiando-se na tradição, e a tradição não é um argumento disponível para quem não a aceita.
A terceira extrapolação é historiográfica. A narrativa tradicionalista do declínio ocidental, com sua tese de uma sabedoria primordial integral perdida na modernidade, é uma tese de história intelectual de grande amplitude e a historiografia da ciência não a sustenta. Os trabalhos de Pierre Duhem sobre a cosmologia medieval, de Edward Grant em The Foundations of Modern Science in the Middle Ages (Cambridge University Press, 1996) e de David Lindberg em The Beginnings of Western Science (2.ª ed., University of Chicago Press, 2007) mostraram a continuidade complexa entre a filosofia natural escolástica e a ciência moderna, e a existência de debates internos sobre o contínuo, o movimento e a causalidade séculos antes de Descartes. A tese do corte radical simplifica essa história e, em vários pontos, comete anacronismos ao ler no passado respostas a problemas formulados depois. Isso não invalida a crítica ao cientificismo, mas retira da metafísica de Smith a autoridade que ela reivindica em virtude de sua antiguidade.
A quarta extrapolação é o uso seletivo da literatura. Smith dialoga predominantemente com a tradição metafísica e com um número restrito de interlocutores científicos, e sua obra madura sobre a mecânica quântica engaja pouco a literatura técnica sobre fundamentos, desenvolvida a partir dos anos 1980 em periódicos como Studies in History and Philosophy of Modern Physics e nas séries de conferências sobre fundamentos da teoria quântica. A ausência desse engajamento não é, em si, um erro, mas tem um custo argumentativo: as objeções que a literatura levanta contra as leituras realistas ingênuas, e as que levanta contra as leituras puramente epistêmicas, não são discutidas, e o leitor não dispõe de elementos para situar a causalidade vertical no mapa das interpretações concorrentes. Um efeito correlato é a aceitação, em alguns momentos, de formulações da física que a literatura já refinou, em particular a leitura do princípio de incerteza como perturbação e a descrição da renormalização como cancelamento de infinitos, que o grupo de renormalização de Kenneth Wilson reinterpretou como dependência de escala e como teoria efetiva. Smith, ao concentrar sua crítica no nível das interpretações, deixa de explorar a via mais promissora, que seria a de mostrar como a própria estrutura das teorias de campo efetivas já desmente a pretensão de uma descrição fundamental única.
A quinta extrapolação é o tratamento da doutrina dos níveis de realidade como conhecimento estabelecido. Se a causalidade vertical e a hierarquia dos planos ontológicos são apresentadas como conclusões às quais se chega por intelecção, então a metafísica de Smith tem o estatuto de uma tradição interpretativa, e a história da metafísica, com suas divergências persistentes entre interlocutores igualmente competentes, é um dado que qualquer teoria do conhecimento metafísico precisa enfrentar. A resposta tradicionalista, que explica as divergências pela decadência intelectual dos modernos, é internamente coerente, mas não pode ser verificada independentemente do sistema que a sustenta, e nisso ela se assemelha estruturalmente ao que Smith critica em Hawking: uma posição que se coloca fora do alcance da refutação.
A sexta extrapolação, por fim, é de ordem lógica e já foi formulada na seção 13: o tratamento da controvérsia como se ela própria constituísse vantagem argumentativa para a alternativa proposta. A existência de dissensões internas à física sobre a testabilidade do multiverso estabelece que a posição de Hawking não é demonstrativa; não estabelece que a posição de Smith seja verdadeira, nem mesmo que seja mais provável. A inferência da ignorância é uma falácia, e ela é cometida sempre que a abertura de um problema é apresentada como confirmação de uma das respostas concorrentes.
Avaliação global do argumento
A avaliação global pode ser conduzida em três registros, correspondentes aos três níveis de análise estabelecidos no início deste trabalho, e a conclusão que emerge é assimétrica, no sentido de que a crítica de Smith é mais forte como demarcação do que como filosofia construtiva.
No registro científico, a posição de Smith é amplamente bem-sucedida e o é por razões que a literatura especializada confirma. Os exemplos de afinação sutil que ele reproduz de Hawking são, em sua letra, corretos: o cálculo de Oberhummer, Csótó e Schlattl sobre o triplo alfa foi publicado em Science (vol. 289, n. 5476, 2000, pp. 88-90, DOI 10.1126/science.289.5476.88) e sustenta a ordem de grandeza do 0,5 por cento; o resultado de Ehrenfest sobre a estabilidade das órbitas em função da dimensionalidade do espaço é um clássico da física matemática, publicado nos anais da Academia de Amsterdã em 1917. A literatura oferece pouco suporte às conclusões que Hawking extrai desses resultados: a existência efetiva de 1050010^{500} universos, a equiparação da condição de contorno quântica ao nada absoluto, a extensão cosmológica da escolha postergada e a derivação da inexistência do livre-arbítrio a partir de experimentos de neurociência. Em cada um desses pontos, o diagnóstico de Smith encontra correspondência nas análises de cosmólogos e filósofos da física que não compartilham sua metafísica, e essa convergência constitui o indício mais forte de que sua objeção possui fundamento.
No registro filosófico, a posição de Smith é de força intermediária. Sua análise da autorreferência do realismo modelo-dependente e das equivocidades conceituais do livro é rigorosa e encontra paralelos na literatura sobre realismo científico, de Bas van Fraassen (The Scientific Image, Clarendon Press, 1980) a Hilary Putnam (Reason, Truth and History, Cambridge University Press, 1981). Sua análise da inferência antrópica dialoga com as objeções de Ian Hacking (“The Inverse Gambler’s Fallacy”, Mind, vol. 96, 1987, pp. 331-340) e de Roger White (“Fine-Tuning and Multiple Universes”, Noûs, vol. 34, n. 2, 2000, pp. 260-276), e com o problema da medida discutido por Alan Guth (“Eternal Inflation and Its Implications”, Journal of Physics A, vol. 40, 2007, pp. 6811-6826). Nesses pontos, Smith está em boa companhia e a companhia não é tradicionalista. O que enfraquece sua posição no mesmo registro é a simetria estrutural entre sua alternativa metafísica e a posição que ele critica: ambas afirmam mais do que a evidência permite, ainda que em direções opostas, e ambas dependem de premissas que os interlocutores que não as compartilham não têm razão para aceitar.
No registro metafísico e teológico, a posição de Smith é internamente coerente e filosoficamente respeitável, mas não demonstrada. A doutrina da causalidade vertical tem antecedentes nobres, de Aristóteles a Tomás de Aquino, e responde a um problema real, que é a insuficiência das interpretações horizontalistas para dar conta da atualização do possível. O que ela não oferece e não pode oferecer sem uma teoria da intelecção metafísica que a literatura não estabelece, é um critério intersubjetivo capaz de dirimir a disputa com as interpretações concorrentes. O resultado é que a metafísica de Smith funciona como uma tradição viva, com uma linguagem própria, uma ontologia articulada e um diagnóstico agudo da modernidade e não como um tribunal diante do qual a física compareceria para ser julgada.
A conclusão desta avaliação, se formulada com precisão, é a seguinte: a doutrina de Hawking, tal como exposta em The Grand Design, resulta de uma construção filosófica que emprega resultados e conjecturas da física como material retórico a serviço de uma metafísica segundo a qual os modelos constituem a própria realidade, o universo se explica a partir do nada e a liberdade é uma ilusão. Smith identifica com competência as articulações frágeis desse edifício e mostra, com apoio independente, que a passagem do científico ao metafísico ocorre sem uma fundamentação correspondente. Sua crítica, nesse aspecto, contribui para a higiene conceitual do debate público sobre ciência.
A demonstração da metafísica tradicionalista permanece fora do alcance de sua análise, e o próprio Smith parece reconhecer essa distinção: a uma crítica sem uma demonstração construtiva de sua própria alternativa, distinção que precisa ser preservada. A consequência prática é que o leitor convencido pela argumentação de Smith chega a uma conclusão mais estreita do que talvez esperasse: a metafísica de Guénon e Schuon permanece como uma proposta a ser examinada, enquanto a pretensão de responder às perguntas últimas exclusivamente no interior da física empírica carece de fundamento suficiente. A filosofia, decretada morta por Hawking, permanece justamente como o espaço intelectual em que essas perguntas encontram sua formulação e seu debate.
Conclusão
O que se pode afirmar, ao final, é que a pergunta formulada no início recebeu uma resposta mais complexa do que a oposição entre ciência e metafísica sugerida por Smith. Sua crítica não refuta Hawking em sentido forte, pois a demonstração de uma alternativa metafísica tampouco integra o argumento apresentado. A acusação de que The Grand Design constitui simplesmente um tratado de metafísica materialista escrito em linguagem física também exige maior cautela. O livro combina resultados científicos, hipóteses cosmológicas e interpretações filosóficas, mas essa combinação, por si só, não transforma suas proposições em uma doutrina metafísica fechada.
A leitura de Smith também corre o risco de estabelecer uma separação excessivamente rígida entre os registros científico e filosófico. A cosmologia contemporânea envolve inevitavelmente questões conceituais sobre realidade, explicação, causalidade, tempo, espaço e condições iniciais. A presença dessas questões em uma obra de divulgação científica não retira dela seu caráter científico, sobretudo quando os argumentos apresentados permanecem vinculados a teorias, modelos matemáticos e problemas efetivos da física contemporânea. A linguagem filosófica de Hawking pode ser discutida e criticada, mas sua presença não basta para caracterizar o livro como uma obra de metafísica disfarçada.
Também merece cautela a afirmação de que Hawking “decreta” a morte da filosofia enquanto pratica filosofia. A declaração de The Grand Design pode ser interpretada como uma crítica à capacidade da filosofia tradicional de acompanhar os problemas colocados pela física contemporânea, ainda que a própria formulação recorra a pressupostos filosóficos. Há, nesse caso, uma tensão intelectual real, mas transformá-la em contradição decisiva exige demonstrar que Hawking pretendia eliminar toda atividade filosófica, e não apenas questionar determinado modo de fazer filosofia.
A literatura posterior sobre o multiverso, a inflação eterna e a teoria fundamental também oferece um quadro menos favorável à tese de Smith. As críticas de Ellis e Silk, de Steinhardt e dos debates em torno do programa do pântano mostram que a física contemporânea possui mecanismos internos de crítica às extrapolações cosmológicas e às teorias de difícil testabilidade. A necessidade de demarcação entre hipótese, modelo, previsão e interpretação pertence à própria prática científica. Smith contribui para essa discussão ao chamar atenção para problemas conceituais, mas sua crítica ganha força quando permanece nesse terreno e perde alcance quando pretende convertê-la em confirmação de uma metafísica tradicionalista.
O resultado final, portanto, favorece uma conclusão mais restrita. Smith identifica ambiguidades reais na linguagem de Hawking e oferece uma crítica relevante às interpretações ontológicas atribuídas aos modelos físicos.
A crítica de Smith deixa aberta a classificação de The Grand Design e a legitimidade de suas interpretações filosóficas. O capítulo expõe problemas importantes na passagem da física para a metafísica, enquanto sua própria argumentação realiza movimento semelhante ao transformar dificuldades conceituais da cosmologia contemporânea em fundamento para uma ontologia tradicionalista. A contribuição mais sólida de sua análise reside na crítica conceitual. A pretensão de estabelecer, a partir dela, a superioridade da metafísica tradicional pertence a uma questão distinta.
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